FFW MAG n. 5, jun 2007, 258-261
30 de Jun de 2007
"Pyimberi"
É assim que os índios kisedjê se referem a Gisele Bündchen, para eles (e o resto do mundo) "mulher de extrema beleza" e supermodelo mais influente do planeta, que elege o projeto I Ykatu Xingu como a mais importante de todas as suas campanhas
Por Cássia Ávila Foto Lulu Costa
Dia desses lembrei de uma música antiga da Rita Lee que diz:
"No ano 2020 como será que estará o Brasil"? Será que vai ter floresta? Pelo menos uma? Será que ainda vai ter um índio, dois?... Uma 'tribozinha'? Será que vão sobreviver?". Ano 2020? Parece longe, mas essas questões são mais atuais e pertinentes do que nunca. Não é nem mesmo velho dizer que nossa país é grande, elogiar suas belezas naturais, sua história, Amazônia, rios, praias. Acho até que o Brasil deveria ter algum representante na lista das maravilhas do mundo. Só por sua beleza natural... De repente, a maravilha é o Cristo Redentor... Ou, quem sabe, Gisele Bündchen?
Não é brincadeira: a maravilhosa Gisele tem tudo a ver com a história que vou contar a vocês. Assuntos como aquecimento global, destruição de florestas, bichos em extinção, mares e rios contaminados são preocupantes em todos os países e não norteiam apenas governos e autoridades. Eles passaram a fazer parte da lista de preocupações diárias da sociedade. Dentre todas as questões sobre o meio ambiente, uma me chama a atenção: a água. Ou melhor, a falta dela. Às vezes penso em como seria a vida sem água. É incrível imaginar que convivemos com tantos rios ameaçados. Tomo como exemplo o Rio Xingu, um dos mais extensos, que significa rio grande, de índio e floresta, uma forte referência da diversidade biológica e cultural do Brasil.
Mas um coração em especial se comoveu com a causa da água e dos índios ribeirinhos. O de nossa top, Gisele, a gaúcha de Nova Horizontina que se tornou a maior modelo de todos os tempos ao redefinir os padrões de beleza, e, assim como o Rio Xingu - se me permitem a comparação -, uma das belezas naturais mais importantes de nosso país. Fofa como sempre (e isso posso dizer, pois a vi em seus primeiros trabalhos), preocupada com nosso mundo, as pessoas, os animais, e agora mais especialmente com os índios. "Há quatro anos visitei o Parque Indígena só para conhecer o jeito de viver dos índios e ter contato com a natureza local", conta Gisele, que, numa das visitas, teve a companhia do então namorado, o ator Leonardo DiCaprio, hoje um dos maiores porta-vozes ecológicos de Hollywood (veja a ffwMAG número 4).
Pode-se dizer que isso foi como uma história de amor. Gisele queria se envolver em alguma campanha de conscientização e pensou logo nos índios e em seus problemas com a água. E é por isso que ela, com sua inigualável reputação, quer levar para o mundo essa causa. Além de visitar o Parque Indígena do Xingu por puro prazer, chamou parceiros profissionais, como a Grendene, para projetos maiores. Lançou sua linha Ipanema Gisele Bündchen - I Ykatu Xingu, primeira campanha internacional da Grendene e recorde de vendas. Mais do que buscar inspiração nas lendas indígenas para criar sua coleção, a Grendene juntou-se a todos os que apóiam a campanha, tornando sua também essa causa. Pode-se dizer que a coleção foi além mesmo. "A Grendene tem uma parceria muito saudável com Gisele há mais de quatro anos. E, desde que ela esteve no Xingu pela primeira vez, em 2004, sua preocupação com os índios e com os problemas decorrentes da degradação das nascentes dos rios a deixou muito sensibilizada. Foi aí que despertamos para o projeto I Ykatu Xingu e resolvemos apoiar a causa", diz Andréa Klemm, planejadora de marketing do segmento feminino da Grendene.
Todos os grafismos das sandálias, as roupas e os adereços usados pela modelo, que dormiu em rede e tomou muito banho de rio durante as filmagens, foram feitos pelos índios. "Queríamos legitimar nossa participação em todo o processo de recuperação do Rio Xingu, então fizemos o que sabemos, desenvolvemos uma sandália decorada com grafismos autênticos feitos pelos índios da tribo kisedjê. Para isso, organizamos oficinas com os kisedjê e os designeis da Grendene. O resultado é uma coleção exclusiva, com grafismos aplicados nas palmilhas. A parceria reverte uma quantia fixa para o projeto e mais i% dos royalties de Gisele. Entretanto, o mais importante disso tudo ainda é a visibilidade conseguida para a causa", finaliza Andréa.
E o filme publicitário, ah... esse então! Para uma causa tão nobre, nada mais justo do que chamar os melhores em suas áreas para a produção do filme de Gisele e sua Grendene: a agência W/Brasil e a Conspiração Filmes. "Foi um mês de preparação para a filmagem e três dias no Parque Indígena, mais precisamente na tribo dos kisedjê, povo que luta pela integridade de seu território. Um trabalho meticuloso, cuidadoso e requintado como merecia", diz Washington Olivetto. O filme Dança da Chuva, além de ser o mais baixado da Internet, segundo o site Adcritic.com, foi considerado pela Associação dos Produtores de Filme o melhor filme publicitário do ano. Tudo obviamente merecido por uma causa tão importante.
Enfim, Gisele mandou bem, tão bem que ganhou até nome dos índios da tribo dos kisedjê, privilégio de poucos. "Fui batizada pelo pajé, que me nomeou 'Pyimberi'. Na língua camaiurá, esse nome é dado às mulheres de extrema beleza, pois significa mulher muito bonita. Para os kisedjê, a mulher que recebe um nome não precisa participar das tarefas comuns das índias, ou seja, ir à roça, ralar mandioca, fazer polvilho etc. Eu me senti honrada!", diz Gisele, que ainda aproveitou o rasante e a equipe de filmagens e ancorou um documentário sobre o Xingu. Para ela, que já coleciona tantos adjetivos, foi uma honra e um prazer conhecer um pouco mais da cultura indígena. E é claro que nossa garota continua levando para o mundo essa campanha de conscientização. Os índios agradecem, o Rio Xingu agradece. O mundo agradece. Vai, Super-Gisele, voa, ajude a salvar a água boa do Xingu.
Deusa
dos rios
" O apoio de Gisele para a campanha Y tatu Xingu. tem sido muito importante para levar a mensagem da proteção e recuperação das nascentes do Xingu para novos públicos. Neste ano, esse apoio se estenderá também a outra campanha do ISA.é seus parceiros, pela saúde da água ' de Guarapiranga, uma das represas que abastecem a Grande São Paulo", afirma Márcio Santilli, coordenador da campanha. Cerca de 340 representantes desses segmentos se reuniram no Encontro Nascentes do Rio Xingu, na cidade matogrossense de Canarana, entre 25 e 27 de outubro de 2004, e assim teve início o projeto Y Ikatu Xingu, pela recuperação e proteção das nascentes e cabeceiras do Rio Xingu. A expressão na língua camaiurá quer dizer "água boa, água limpa do Xingu" O nome foi escolhido pelos próprios representantes. E a campanha I Ykatu Xingu sensibiliza a cada dia mais pessoas, entidades, ONGs e órgãos do governo Triste estatística: em meados dos anos 90, as lideranças do Parque Indígena Xingu, no nordeste de Mato Grosso, manifestaram sua preocupação com a ocupação de sua área e o desmatamento em seu entorno. O _ Parque Indígena do Xingu foi criado em 1961, é velho conhecido do povo brasileiro e abriga 14 etnias e cerca de 5 mil pessoas. O Instituto Sócio-Ambiental (ISA), que atua na região desde 1994, por meio do Programa Xingu, incorporou a questão apresentada pelos índios e desenvolveu a idéia juntamente com vários parceiros - fazendeiros, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, dentre outros.
O Rio Xingu nasce rios .terrenos cristalinos do Planalto Central, atravessa o estado de Mato Grosso e do Pará e deságua no Rio Amazonas. São mais de 51 milhões de hectares de extensão. A região onde se encontra sua bacia é habitada por diversos povos indígenas e populações oriundas de várias regiões brasileiras. E todos dependem do rio. A ocupação dessa área a caracterizou como um importante pólo de desenvolvimento agropecuário. Por outro lado, esse processo implicou o desmatamento de áreas extensas, afetando as matas ciliares, que são de fundamental importância para a proteção das nascentes e cursos d'água. Em outras palavras, o Rio Xingu está ameaçado pelo desmatamento indiscriminado, que vem ocorrendo há mais de 40 anos. Várias nascentes já secaram, aumentando a crise hídrica na região e a erosão. Sem falar que a perda da biodiversidade, com a baixa fertilidade das terras e morte dos peixes, é galopante.
FFW MAG n. 5, jun 2007, 258-261
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.