OESP, Nacional, p. A7
05 de Fev de 2008
PV luta para ser verde autêntico
Legenda precisa vencer contradições internas e ganhar espaço entre os 'neo-ambientalistas'
Clarissa Oliveira
Prestes a completar 21 anos, o Partido Verde se prepara para entrar na maioridade em meio a uma crise de identidade. Ao mesmo tempo em que tenta se firmar como um partido que sempre priorizou a questão ambiental, a sigla se empenha em vencer contradições internas e evitar que o comportamento de suas lideranças se oponha ao seu eleitorado tradicional.
Embalado pela cláusula de barreira, o PV abriu suas portas na última eleição e praticamente triplicou sua bancada na Câmara. De apenas 5 deputados em 2002, passou para 14 atualmente, sendo que 13 foram eleitos e 1 ocupa o posto como suplente. Na maior Assembléia Legislativa do País, em São Paulo, são 8 parlamentares.
O crescimento, porém, trouxe um efeito colateral: o partido se encontra recheado de lideranças sem nenhuma afinidade com o movimento ecológico.
"Na bancada do PV existe um bom número de pessoas que não tinham uma prática no campo da ecologia", diz o deputado Fernando Gabeira (RJ), para quem o comportamento da bancada nem sempre reflete a vontade da base social do partido.
Segundo ele, isso ficou claro na votação da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), em que a maioria dos parlamentares apoiou o governo, a favor do tributo. "Esse conflito entre a base eleitoral do partido e o comportamento da bancada nós vamos ter que resolver", acrescenta Gabeira, que quer levar o tema à discussão no próximo congresso da legenda.
Para completar, o PV admite que se sente uma voz solitária na base governista do Planalto. "De fato, nós não conseguimos ainda comover o governo a adotar políticas públicas próximas do que pretendemos", diz o presidente do PV, José Luiz Penna, provável candidato à Prefeitura de São Paulo.
Apesar de se dizer favorável a que a sigla participe de "qualquer governo social-democrata", ele insiste em que poucas contribuições do partido parecem ser levadas em consideração. "Nós estamos tentando diminuir marcas terríveis de desmatamento. Mas não se toma uma atitude concreta em relação ao aquecimento global", diz Penna. "A frente de partidos da base não nos é favorável. Mas também acho que, se sairmos, piora", explica.
Mais verdes
Apesar de reconhecer que o PV enfrenta uma série de desafios nesse novo período, Penna diz que ainda é preciso fazer uma discussão aprofundada para definir uma estratégia. Ele apontou, entretanto, que uma das linhas de ação do partido é reafirmar seu caráter "verde". Diante da adesão cada vez maior de outros partidos à temática ambiental, o presidente do PV quer evitar que o discurso da sigla se perca entre o que chama de "neo-ambientalistas".
"Todos agora querem ser verdes. Até Bush, Arnold Schwarzenegger", afirma, em referência ao presidente norte-americano George W. Bush e ao ex-ator que hoje governa o Estado da Califórnia. Ele admite que, no Brasil, essa temática também já começou a ganhar força em partidos como o DEM. "Precisamos construir um discurso político capaz de nos diferenciar dessa mesmice", afirmou.
Em um dos passos nesse sentido, o PV se empenhou em trazer para o Brasil o Global Greens 2008, congresso de partidos verdes de todo o mundo. O evento está agendado para maio, em São Paulo. Para Gabeira, o PV também enfrenta a necessidade de renovar seu programa e atualizar suas propostas.
Cientista político sugere diversificação do discurso
Apesar do crescimento apresentado pelo PV nos últimos anos, especialistas insistem em que o partido terá de enfrentar muitas dificuldades se quiser de fato se colocar como uma alternativa para o eleitorado brasileiro. "Um partido que se pretende verde é um partido que já tem um princípio de vida complicado", avalia o cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Para ele, o partido enfrenta a difícil tarefa de diversificar seu discurso, principalmente se considerado o avanço de outras legendas em direção à questão ambiental. "Qualquer partido monotemático será sempre um problema. Se ele não souber diversificar suas propostas, algum outro partido com um discurso mais rico acaba se apoderando de sua temática", completou Wanderley Reis.
O cientista político ressalta que todos os partidos tendem a dar destaque à questão ambiental no futuro próximo, para atender à demanda de um eleitorado cada vez mais consciente desse problema.
Para o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Antônio Carvalho Teixeira, o fato é que o modelo dos partidos verdes que se espalhou por todo o mundo não conseguiu deslanchar no Brasil. "É um modelo que não colou", diz o especialista. Na sua avaliação, o quadro que se vê hoje no PV é contraditório e paradoxal, já que entre suas principais lideranças há até representantes do setor industrial, tradicionalmente vistos como agressores da natureza. "O perfil dos parlamentares do PV está longe da causa que deu origem ao partido", afirma.
Segundo Carvalho Teixeira, a contradição aparece também no relacionamento com o Palácio do Planalto. "O PV está na base de governo e sua principal liderança, que é o Fernando Gabeira, faz oposição ao governo." Para o cientista político, o futuro "não é nada promissor para a legenda". "Se o PV não se apresentar como alternativa, não fizer o debate de forma relevante, ele continuará sendo um partido coadjuvante no cenário político nacional."
OESP, 05/02/2008, Nacional, p. A7
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