VOLTAR

A protetora dos índios

CB, Brasil, p. 14
16 de Dez de 2007

A protetora dos índios
Filha de sertanista mora na Floresta Amazônica, como chefe de posto em área de indígenas que vivem isolados, na fronteira com o Peru. Aos 31 anos, Paula Meirelles conta que gosta da distância da civilização

Edson Luiz

Por quatro meses, o único contato de Paula Meirelles com o restante do Brasil foi o noticiário da Rádio Nacional. Com 31 anos, a bela loira de olhos verdes vive em uma casa de madeira no meio da floresta, na fronteira do Brasil com o Peru. A cidade mais próxima é alcançada com sete dias de viagem de barco, o único meio de transporte da região. Paula é talvez a única indigenista mulher do Brasil que tem uma profissão diferente: ela é chefe de um posto que cuida de índios isolados e ameaçados pelos brancos, com quem ainda não tiveram qualquer contato.

"Cansei da cidade", afirma Paula, justificando seu isolamento. Filha do sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, ela sempre acompanhou o pai quando criança, mas nunca esteve à frente de uma missão. Sua tarefa, agora, é manter a população branca longe dos "homens e mulheres invisíveis", como costuma se referir quando fala dos povos isolados no Foz D'Ouro, uma área de 142 mil hectares, mais próxima do Peru do que de alguma cidade brasileira.

Seu passatempo, quando não dorme às 19h, como sempre costuma fazer, é ver filmes que compra quando vai à cidade a cada quatro meses. Para isso, liga o notebook na energia gerada à bateria. Além disso, devora livros de diversos autores e de assuntos variados. Todos os dias acorda às 5h, quando começa a fazer a inspeção da área. Quando viaja, sempre é acompanhada por três mateiros que moram com suas famílias em casas próximas. Acampam na beira do Rio Jordão, onde os homens se revezam na segurança, seja para protegê-la dos índios isolados, de caçadores clandestinos ou de animais.

Funcionária da Fundação Nacional do Índio (Funai), Paula Meirelles nunca enfrentou grandes perigos, a não ser quando desce o Rio Envira com o barco cheio de tralhas. Seu pai e os demais integrantes da Frente de Proteção Etno-Ambiental, ao contrário dela, já foram alvejados por flechas atiradas pelos índios que protegem.

Recentemente, dois mateiros que trabalham com o pai da indigenista foram alvejados por tiros de espingarda vindos da área onde estão os arredios. No entanto, ele duvida que o ataque tenha partido dos índios. A possibilidade é que tenha sido alvo de caçadores ou de madeireiros. Paula sabe que, breve, pode passar por isso, pela proximidade da fronteira.

Ainda assim, ela não teme nada. "Pelos índios, com certeza não serei atacada", afirma a indigenista, ressaltando que os grupos não estão distantes. "São só aproximadamente 30km. Isso no meio da floresta não é nada", observa. Ela mantém um olhar tímido, principalmente quando está na cidade. Em Brasília, onde passa alguns dias, está preocupada em saber como anda seu pessoal e seu povo, referindo-se aos seus auxiliares e aos índios isolados que até hoje ninguém sabe a qual grupo pertencem. Paula calcula que o número de índios seja grande. "Acho que deve haver uns 200, mas a tendência é crescer porque eles ainda estão sem ninguém por perto", afirma. Se depender de Paula Meirelles, continuarão assim por muito tempo.

CB, 16/12/2007, Brasil, p. 14

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.