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Protesto no teto do mundo

O Globo, Ciência, p. 34
02 de Dez de 2009

Protesto no teto do mundo
Nepal convoca gabinete no Everest para protestar contra perda de geleiras

Protestos de governos contra o aquecimento global começaram no fundo do mar e agora chegam ao teto do mundo. Em outubro, as Maldivas fizeram uma reunião de gabinete no fundo do Oceano Índico para chamar a atenção para o drama de seu país, ameaçado pela elevação do nível do mar. E esta semana o primeiro-ministro do Nepal, Madhav Kumar, convocou seus ministros para uma reunião no Campo Base do Everest.

O objetivo é alertar para o derretimento de várias das geleiras dos Himalaias, a poucos dias do início da conferência climática de Copenhague, que começa dia 7.
Milhões de pessoas podem ser afetadas
Marcada para sexta-feira, a reunião acontecerá a 5.250 metros de altitude. Devem ir todos ministros com saúde para suportar a altitude.

Ambientalistas e escaladores têm advertido que nem mesmo o gelo do Everest, o ponto culminante do planeta, com 8.850 metros, está a salvo dos efeitos do aquecimento global.

As geleiras dos Himalaias, a mais alta cadeia de montanhas da Terra, são essenciais para a sobrevivência de pelo menos 1,3 bilhão de pessoas na Ásia. Elas alimentam alguns dos mais importantes rios que fornecem água para a mais populosa região do planeta.

Cientistas chineses já haviam alertado sobre o encolhimento de geleiras no Tibete. O Nepal, que depende das geleiras para obter água potável, será um dos países mais afetados, caso o degelo continue a aumentar pois o volume de água de degelo aumentará por pouco tempo para depois de decrescer de forma dramática, reduzindo a disponibilidade de água para consumo doméstico, agricultura e geração de energia. Além disso, com o gelo derretendo depressa, lagos têm se formado, pondo em risco de inundação a população de vilarejos nas encostas escarpadas dos Himalaias.

O governo nepalês acredita que pouca atenção tem sido dada à proteção das geleiras dos Himalaias.

A redução das geleiras das grandes montanhas da Terra é uma das consequências previstas do aquecimento global. Embora não existam estudos conclusivos de que o degelo é generalizado e progressivo, uma série de pesquisas têm indicado provas nesse sentido
Montanha mais alta da Europa encolheu
E o derretimento ocorre não apenas nos Himalaias, mas também nos Andes tropicais. Estudo recente indicou redução de geleiras no Peru e no Equador. Este mês, estudos ressaltaram também que a montanha mais elevada da Europa ocidental ficou mais baixa. O cume do Mont Blanc, na fronteira de França, Suíça e Itália, perdeu 45 centímetros nos últimos dois anos. E agora o Mont Blanc mede 4.810 metros.

O volume de neve e gelo no cume também perdeu cerca de 10%, de acordo com o topógrafo francês Bernard Dupont, que faz medições regulares da montanha. A parte mais elevada do cume também se moveu e agora está cerca de 30 centímetros mais perto da Itália, embora ainda permaneça na França. Dupont diz que é cedo para associar as mudanças ao aquecimento global, mas considera os dados preocupantes.

Antártica pode aquecer até 3 graus Celsius

A boa notícia: o fechamento do buraco na camada de ozônio sobre a Antártica deve ocorrer em até 60 anos, graças às restrições ao uso dos gases CFCs (clorofluorcarbonos), principais causadores do fenômeno.

A má notícia: isto pode fazer com que as temperaturas naquela região tenham um aumento médio de até três graus Celsius até o fim do século, contribuindo com uma elevação de mais de 1,4m no nível global do mar graças ao degelo. É o que revela um estudo do Comitê Científico de Pesquisas Antárticas (SCAR, na sigla em inglês), que reúne 450 pesquisadores.

- Nas próximas décadas, o buraco na camada de ozônio deve ser fechado, permitindo que os efeitos do aquecimento sejam sentidos plenamente através da Antártica - afirmam os pesquisadores.

Segundo eles, a publicação do relatório poucos dias antes da Conferência do Clima de Copenhague dá aos negociadores mais informações para que possam se basear.

- A Antártica parece distante, mas ela contém 90% do gelo do planeta, além de 70% da água doce da Terra - afirma Colin Summerhayes, diretor do SCAR. - Tudo está ligado.

O Globo, 02/12/2009, Ciência, p. 34

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