O Globo, O Pais, p.4
21 de Abr de 2005
Protesto contra Raposa Serra do Sol reúne cinco mil pessoas em Roraima
Manifestantes pedem que Lula reveja decreto de demarcação de reserva
Cinco mil pessoas, segundo cálculos da Polícia Militar, participaram no início da noite de ontem, na praça do Centro Cívico, em Boa Vista, de um protesto contra a homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol em terras contínuas. Durante a manifestação, políticos, empresários e índios ligados a produtores de arroz fizeram duros ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à Igreja Católica, a organizações não-governamentais e à Polícia Federal.
Com discursos inflamados e de tom nacionalista, eles acusaram o governo federal de decretar a homologação da reserva em terras contínuas para atender a interesses internacionais, especialmente dos Estados Unidos, pelas riquezas da Amazônia. A demarcação da Raposa Serra do Sol e de outras grandes reservas em áreas de fronteira seria o primeiro passo para uma intervenção estrangeira na região, acusaram.
Estão esmagando Roraima. Vamos reagir. Vamos transformar Pacaraima no centro da resistência da nacionalidade brasileira afirmou o prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartieiro, dono da maior plantação de arroz na reserva homologada por Lula na sexta-feira passada.
Quartieiro reclamou ainda das barreiras que a PF instalou em pontos estratégicos do estado para impedir que produtores rurais obstruam as pistas de acesso a Boa Vista com tratores e caminhões, como fizeram ano passado. Mas o discurso mais incendiário da noite foi o de Miracélio Floriano Peixoto, cacique da aldeia Entroncamento. Após diversos impropérios, o cacique disse que tem ganas de matar o presidente.
Tenho vontade de meter esta flecha aqui nele afirmou Miracélio.
Adesão popular foi pequena
O protesto foi organizado pela Associação de Produtores de Arroz, pela Federação das Associações Comerciais e por um grupo de políticos ligados ao senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR). Os empresários contrataram 70 ônibus para transportar moradores de bairros mais distantes até a praça. A pedido da federação, as lojas começaram a fechar as portas por volta das 15h.
Mesmo assim, a adesão popular ficou abaixo do esperado pelos organizadores. Eles queriam encher a praça e parar Boa Vista. Mas, até as 19h30m, mais da metade da praça ainda estava vazia.
É uma manifestação pequena, aliás, média disse o major Rosael da Silva, chefe do policiamento.
O presidente da Associação dos Produtores de Arroz, Luiz Afonso Faccio, disse que a tendência do movimento é crescer. Segundo ele, a maioria dos índios também é contra a demarcação em terras contínuas:
É só fazer um plebiscito e você vai ver que quase todos os índios estão contra o decreto afirmou.
Empresários e até políticos do PT querem que Lula revise o decreto e exclua vilas, fazendas e estradas da área de 1,7 milhão de hectares destinadas a pouco mais de 16 mil índios. Mozarildo Cavalcanti disse que o presidente desprezou a opinião dos eleitores de Roraima e vai pagar por isso nas próximas eleições. Irritado com o decreto, George Melo, o único vereador do PT em Boa Vista, desligou-se do partido.
Vamos mostrar que 250 mil eleitores fazem a diferença disse Mozarildo.
Mais uma tentativa
VENCERAM A Funai e as organizações defensoras da chamada causa indígena. E agora, depois de formalizada a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol em área contínua, é esperar pelos desdobramentos.
COM EXCEÇÕES, essas experiências não têm sido felizes. O tempo passa e as gigantescas extensões de terra terminam exploradas por garimpeiros e madeireiros, quase sempre em sociedade com índios, acobertados por funcionários da Funai, todos protegidos por policiais corruptos.
EM RORAIMA, há ainda o agravante de a reserva não ter apoio unânime sequer entre os índios. Poderá existir apenas no papel. Como outras.
O Globo, 21/04/2005, p. 4
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