CB, Brasil, p. 17
03 de Set de 2006
Proteção da natureza ameaçada
Sustentabilidade econômica de projetos é desafio para instituições que lidam com a preservação da fauna e da flora. Semas verbas de empresários, muitas iniciativas estariam fadadas à extinção
Hércules Barros
O verde no Brasil está longe da independência. Sema injeção de verba da área empresarial, as experiências brasileiras de desenvolvimento sustentável bem-sucedidas deixam de existir. A estimativa é da Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), que catalogou, em 1997, programas ambientais como modelos a serem copiados.
O levantamento foi entregue ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) para servir como intercâmbio de informações às ONGs sobre métodos e técnicas de gestão ambiental. Mas, passados nove anos, a sustentabilidade econômica dos projetos ainda é um desafio até mesmo para os especialistas no assunto.
O próprio Centro Nacional de Referência em Gestão Ambiental Urbana da Unilivre, em Curitiba (PR), responsável pela publicação com o ministério, está parado. Organização da sociedade civil de interesse público (Ocip), a Unilivre está com as funções do centro paradas por falta de orçamento. A Ocip espera recursos governamentais para voltar à ativa e atualizar o estudo. Para isso, depende de aprovação de projeto apresentado este ano no MMA. A Unilivre quer saber quais das experiências registradas em 1997 ainda sobrevivem.
De acordo com o coordenador de projetos da Unilivre, Reginaldo de Moura, os projetos ambientais não têm estratégias para atrair investimentos. "As organizações não sabem sensibilizar os agentes e patrocinadores para a causa que defendem. Mudam o discurso conforme o interesse do mercado", afirma. E ressalta a má aplicação de recursos e desvio de função como atestado de óbito das ONGs ambientais. "Perdem o foco, a eficiência e morrem", diz.
Tido como um dos maiores exemplos de desenvolvimento sustentável do Brasil, o Projeto Tamar, de proteção às tartarugas marinhas, está entre os 100 projetos destacados pela Unilivre. Mas também figura entre os motivos de preocupação. O Tamar é refém de patrocínio. Se o programa tivesse a parceria da Petrobras cancelada seria preciso reduzir um terço da proteção às tartarugas.
Tripé de recursos
O Tamar nunca se preparou para uma contenção drástica de despesas, caso venha a sofrer um corte emergencial de recursos. No projeto, são gastos por ano R$ 10 milhões para manter uma estrutura de proteção a tartarugas em 1.100km de praia.
Por meio de 22 estações de pesquisa, o Tamar preserva áreas de alimentação e reprodução de tartarugas marinhas em nove estados. A grandiosidade do programa é sustentada por um tripé de recursos: governo federal, Petrobras e de atividades de auto-sustentação.
Em caso de contenção de despesas, os centros de visitação do Projeto Tamar seriam os primeiros afetados. "Os cortes começariam no apoio a escolas e pesquisas. Projeto 100% sustentável é utopia", afirma a oceanóloga Neca Marcovaldi, presidente da Fundação Pró-Tamar. Os centros oferecem visitas orientadas para escolas de 1o e 2o graus e universidades. O principal deles fica na Praia do Forte, litoral norte de Salvador (BA). "Temos que avaliar melhor para saber o que é possível reduzir. Não temos dúvida da dimensão do impacto", avalia Marcovaldi. De acordo com a ambientalista, pesquisas também correriam risco de cortes.
Por meio de convênios com universidades brasileiras e estrangeiras, instituições como Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), o Tamar estuda o ciclo de vida das tartarugas marinhas.
A cada temporada de desova, mais de 150 estagiários de universidades brasileiras e estrangeiras são treinados e aperfeiçoam seus conhecimentos em áreas como Biologia, Engenharia de Pesca,Medicina Veterinária e Oceanografia.
Experiência de sucesso
O termo "sustentável" tem pouco mais de uma década. Destaca a necessidade de aliar desenvolvimento econômico à preservação do meio ambiente como forma de garantir qualidade de vida e uso apropriado dos recursos naturais.
Apesar da independência financeira ainda ser um grande desafio para as organizações que se aventuram no mundo da sustentabilidade, existem exemplos que parecem ter encontrado o caminho.
A Fundação SOS Mata Atlântica, que luta há 20 anos em defesa dos remanescentes da Mata Atlântica, acertou na fórmula de como garantir o funcionamento da instituição.
Começou apostando em uma ousada campanha em massa na mídia para conquistar filiados e depois foi pioneira na adesão ao cartão fidelidade na área ambiental. Hoje, sem depender de recursos governamentais e de um parceiro específico para se sustentar, a SOS Mata Atlântica admite que atirou no escuro, sem saber se daria certo ou não, e acertou.
A campanha na mídia da organização não-governamental foi há 19 anos. A propaganda na TV mostrava a Bandeira do Brasil perdendo a cor verde, denunciava o desaparecimento da floresta tropical e convocava as pessoas a salvar o que restava. A estratégia de marketing para sensibilizar as pessoas funcionou. Conseguiu arrebanhar muitos brasileiros e, atualmente, conta com 100 mil filiados que contribuem com pelo menos R$ 50 por ano.
A campanha também contribuiu para reunir uma série de redes e grupos de trabalho ambiental em torno da fundação, fortalecendo o nome da ONG. "Teve um período que a fundação quase fechou. A fonte de recursos secou", pondera a diretora de gestão do conhecimento da SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota.
Depois de descobrir o segredo para atingir voluntários e colher bons resultados, a SOS Mata Atlântica partiu em busca de quem tem dinheiro. Em 1993, filiou a causa ambiental a cartões de crédito.
Cada pessoa que adquiria um cartão, destinava parte da taxa de anuidade para a fundação.
A SOS Mata Atlântica acabou abocanhando 50% do valor da anuidade dos cartões. A estratégia tem dado tão certo que 25% dos R$ 13,5 milhões movimentados pela ONG, anualmente, vêm dos cartões. Por ano, a fundação dispõe de R$ 2,5 milhões para custeios da entidade e R$ 9 milhões para aplicar em projetos.(HB)
CB, 03/09/2006, Brasil, p. 17
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