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Propostas Huni Kui para proteger os "brabos" do Rio Humaitá

Página 20 - http://www.pagina20.com.br/
Autor: Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias
14 de jun de 2009

Papo de índio

Depois de um longo inverno na floresta, retorno a Rio Branco logo na primeira friagem de verão, que promete não ser tão rigoroso por esse canto mais ocidental da Amazônia. Lá se foram quase quatro meses de convivência diária com meus txai e amigos Yawanawá e Kaxinawá, de Tarauacá.

No Caxinauá, antiga aldeia Yawanawá no alto rio Gregório, passei as luas chuvosas de março e abril, época de grandes cheias nos rios, igarapés, paranãs e igapós, fazendo a minha iniciação espiritual com a batatinha sagrada e preciosa do "rare muka" (leia-se "rarê mucá"), sob a orientação espiritual, os ensinamentos e os cuidados do velho pajé Yawarani de sua esposa Helena Brasil e de dois de seus numerosos filhos, Taiana e Jô. A batata do muka, que significa amargo em várias línguas Pano, é tida como uma das mais sagradas plantas de poder da floresta, apesar de sua aparência frágil e delicada. Como todas as ervas medicinais também vivem em pequenas florestas que brotam debaixo das grandes árvores. Minha pouca experiência me diz que a batata do muka é acima de tudo a batata dos sonhos, onde "o sonhar é uma realidade igualmente a luz do dia", como diria Juramidã O grande valor do muka são os sonhos espirituais que se revelam como verdadeiras mirações oníricas. Através delas podemos ver, conversar e aprender com os espíritos de poder da grande floresta.

O pajé Yawarani - Meu guru Yawá, vamos assim chama-lo carinhosamente, é um ser humano especial, espirituoso e alegre, acima do bem e do mal. Não é de falar muito, mas tem um humor apurado e refinado. Tem o riso solto e gosta de interpretar sonhos, especialmente aqueles relacionados ao rare muka. Mas acima de tudo, ele gosta de trabalhar muito para manter sempre ocupada sua mente inquieta. Também não se faz de rogado, apesar de seus 80 anos, para cantar e bailar nas noites de mariri e de uni (cipó da ayahuasca) em sua aldeia. Ainda é um grande cantador e rezador de caiçuma, pimenta e jenipapo. Não fuma, não bebe mais álcool e só raramente toma rapé.

Yawá é um velho alegre e cheio de saúde. Acorda sempre de bom humor e de bem com a vida. Ta sempre cantando as músicas e rezas tradicionais de seu povo. Adora viajar e navegar pelo Wakawã (rio Gregório) em cheia, com seu pequeno casco de madeira e seu motorzinho Honda de 5 Hp novinho, que recebeu de presente de seu amigo Davi de Paula, padrinho da igrejinha do daime do Crôa, em Cruzeiro do Sul. E ele já viajou longe. Conhece bem o Novo México, São Francisco e outras cidades da costa oeste americana, graças ao seu amigo e parente Joaquim Tashkã, no tempo em que morou nos Estados Unidos.

Talvez ele seja um dos poucos a não se envolver nessa briga interna fraterna entre as duas principais facções políticas Yawanawá, manifestadas após a demarcação da revisão de limites da TI Rio Gregório em fins do ano passado. E isso em meio a um ambiente de muitas intrigas, fofocas, disse me disse e mal entendidos. Ao contrário de muitos, Yawá fala com todo mundo e visita regularmente todas as casas e aldeias de seu povo, inclusive a de seus parentes Katukina do Timbaúba.
Apesar de morar em Nova Esperança, ser cunhado do Biraci Brasil e um de seus maiores aliados, Yawá é amigo de todo mundo e vive visitando outras aldeias, especialmente Mutum, Escondido e Tibúrcio, que lhe são mais próximas. Quando tem um tempo, e ele sempre parece ter todo o tempo do mundo, gosta de trocar idéias com o Tatá, seu colega pajé do Mutum, e o Raimundo Luiz, velhos sábios de grande poder espiritual na floresta.

Só encontrei um defeito grave no meu velho pajé Yawa, que é o de soltar todos os bichos baleados que lhe são entregue. Foi assim com uma saracura que o Nainawá baleou e ele deixou fugir correndo para a mata, enquanto atiçava o fogo, pensando em beber o seu caldo. Foi assim também com uma nambu galinha e um tucano. No dia que fomos pescar juntos na boca do igarapé Caxinauá, eu peguei um surubim grande, mas ele novamente deixou fugir para a água.

Sua humildade é uma grande virtude. O que me faz pensar que os dois bandos de queixadas, que hoje seguem trilhas diferentes, poderão se reencontrar e caminhar juntos outra vez. E mesmo que surja uma nova maneira de se organizar, eles possam participar das discussões coletivas para a elaboração e implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Rio Gregório, recentemente revisada em quase o dobro de sua antiga extensão.
Assim é o Yawá, o avô paterno do pimpolho da minha amiga Ingrid Weber, o caboquinho carioca Artur Yawarani, de quem herdou o nome, os olhos orientais e a cara de queixada.

Nainawá, agente indígena de saúde de Nova Esperança, foi meu amigo inseparável e parceiro certo nesse tempo de retiro espiritual na floresta. Vivíamos literalmente sob as grandes árvores de uma capoeira velha, numa casinha de paxiúba e palha recém construída, dividindo o mesmo teto e o fogão com a família de Yawá. Quando cheguei ao Caxinauá, em início de março, já o encontrei cumprindo a sua rigorosa "dieta do muka".

Meu filho Irineu Yube Kaxinawá, que mora comigo desde dezembro passado, também nos ajudou muito, caçando, pescando e ajudando a faze farinha para que a gente não passasse muita necessidade. Junto com Jô, pegaram muitos peixes mansos para a gente tomar o caldo. Juntos ainda mataram uma veada e um tamanduá bandeira, e pequenas embiaras como nambu, tucano, saracura, capelão e guariba.

A dieta do muka - Desde então, venho cumprindo uma rigorosa dieta alimentar, que me impede até agora de comer qualquer coisa doce e carnes vermelhas de caças grandes, de boi e muito menos de porco. Até determinados tipos de peixes, especialmente aqueles que possuem esporões e dentes, ou que chupam lama e barro, ainda me são vedados. Também não posso tomar água pura. Só posso beber caiçuma de milho massa, vinho de açaí e sucos de limão e de frutas silvestres azedas.
Além disso, ainda estou em perseverante abstinência sexual. Se comer doce "enfraquece a dieta", uma única relação sexual "lava tudo" e o resguardo fica irremediavelmente comprometido e finalizado, conforme me asseverou o pajé Yawá. Por enquanto, estou seguindo religiosamente a "dieta do Papa", que prega a castidade mesmo entre os casados. Acato os conselhos do velho Papa alemão, mas de uma perspectiva temporária. Tudo tem sua hora e sua vez. Às vezes é preciso dá um tempo na coisa para elevar o espírito. Namorar agora só no ano da Copa na África do Sul, tempo de muitos gols e de muita alegria. Feito um camelo, preciso agora atravessar o grande deserto afetivo. Espero que Deus me ajude nessa jornada espiritual. Não penso em ser pajé, não Só quero mesmo ser um velho alegre, cheio de saúde e disposição para trabalhar e viajar como o meu velho amigo e txai Yawá. No mais, "é preciso preparar terreno, para não ficar espírito vagabundo", conforme nos ensina o velho Juramidã.
Emagreci um bocado, mas me sinto espiritualmente mais fortalecido e até mais feliz e tranqüilo. Pelo menos estou aprendendo a conviver em paz comigo mesmo, sem me preocupar muito com o que dizem os outros, o que acham disso, ou deixam de achar. Aprendi nessa "dieta do muka" que se não se pensa bem de barriga vazia, tampouco se cresce espiritualmente de barriga cheia. De vez em quando é preciso segurar a matéria para vivificar o espírito. Mas isso é assunto para outro papo...
As oficinas sobre os "brabos" - Reabrindo hoje o Papo, agora em nova fase marcada pelo retorno a Rio Branco do parceiro e compadre Marcelo Piedrafita, vou falar da viagem que fiz recentemente aos rios Murú e Humaitá, em Tarauacá, para participar da "Primeira Oficina de Informação e Sensibilização sobre Povos Isolados na TI Kaxinawá do Rio Humaitá".

Ainda na cidade de Tarauacá, me integrei à equipe formada pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Jr., chefe da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira (FPERE), da Funai, e pelo colega antropólogo Eduardo di Deus, integrante da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC). Disseram-me que iria representar o governo do estado na organização e realização dessa oficina. Nossa equipe contou também com a presença do simpático professor Ceará Kaxinawá, representando a OPTAR (Organização dos Povos Indígenas de Tarauacá) e a Associação de Cultura Indígena do Rio Humaitá, e ainda do Nilson Sabóia, agente agroflorestal da aldeia São Vicente e atual presidente da Associação Kaxinawá do Rio Humaitá, que foi convidado pelo sertanista para registrar em vídeo as discussões, etividades previstas. nessas oficinas.
Promovida pela CPI/AC no contexto do projeto "Fortalecimento dos Povos Indígenas e Conservação da Biodiversidade na Fronteira Acre/Brasil-Peru", apoiado pela Rainforest Foundation da Noruega, a oficina, na realidade, várias delas, foram realizadas nas cinco aldeias da terra indígena entre os dias 12 e 21 de maio: Finalizando com uma grande reunião de três dias no kupixawa na aldeia São Vicente, onde lideranças Huni Kui, professores, agentes de saúde, agentes agroflorestais, velhos, mulheres e outros comunitários discutiram e elaboram as 13 propostas destinadas a proteger efetivamente os "brabos" ainda isolados da TI Kaxinawá do Rio Humaitá.

O "velho do rio" - Viajar novamente com o "velho do rio", como Meirelles é conhecido por aqui, foi um grande privilégio. No início da década de 80 já havíamos viajado juntos pelas aldeias da TI Kaxarari, no noroeste de Rondônia, onde peguei uma malária facíperum braba, daquela que mata os glóbulos vermelhos do sangue. Já havíamos também navegado juntos pelo rio Envira, ocasião onde ele permaneceu na TI Kaxinawá de Nova Olinda, ajudando os Kaxi a organizar a sua cooperativa de borracha, enquanto fui conhecer a antiga aldeia Ashaninka da foz do igarapé Xinane, mesmo local onde anos depois, não sem uma certa ironia, ele viria a instalar e coordenar, como sertanista do órgão indigenista federal, a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira.
Diferente de outras oficinas, essa agora foi mais itinerante. Passamos mais de um dia em cada uma das cinco aldeias Kaxinawá: Vigilante, Boa Sorte, Boa Vista, São Vicente e Novo Futuro. Todas elas concentradas no baixo curso do rio Humaitá. Nelas, todas as noites invariavelmente o nosso sertanista falava da política indigenista oficial em relação aos isolados, explicando que sua missão não é fazer contato com os "brabos", mas proteger suas populações e garantir o reconhecimento oficial e a regularização fundiária de seus territórios. E que graças ao seu persistente trabalho como sertanista nos últimos 20 anos, ele havia feito o "dever de casa", contribuindo para a identificação e demarcação de três terras indígenas nas proximidades da fronteira com o Peru, Dentre elas as terras Kampa e Isolados do Rio Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira, as duas últimas destinadas exclusivamente aos isolados.

Todas as noites, com a prestimosa ajuda do Eduardo di Deus, Meirelles mostrava mapas e fotos dos "brabos", registradas pelo fotógrafo Gleilson Miranda, da Assessoria de Imprensa do governo do estado, nos últimos sobrevôos de 2008. Fotos dos vizinhos "brabos", que muitos deles estavam vendo pela primeira vez, e de seus enormes kupixawa e grandes roçados. Os Kaxi certamente adoraram essas fotos e as sessões de filmes de Vídeo nas Aldeias, que o di Deus organizava em cada aldeia. "Eles são muito trabalhadores, fazem grandes roçados e kupixawa", costumavam dizer no final de cada sessão de fotos dos "brabos".
Foi uma viagem demorada e sem pressa. Levamos pouco mais de quatro dias subindo o Murú até as aldeias Huni Kui do rio Humaitá e dois dias de baixada de lá até a cidade de Tarauacá. Em todas as aldeias fomos recepcionados e homenageados com cantos e danças tradicionais ao redor e dentro de seus respectivos kupixawa.

Além de escutar atentamente os Kaxi do Humaitá, Meirelles falava sobre a situação atual dos quatro povos isolados, que ocupam hoje as florestas colinosas de terra firme das proximidades do Paralelo 10o Sul, no lado acreano de nossa extensa fronteira com o Peru. Com ajuda de mapas e fotos o sertanista explicava as pressões socioeconômicas e ambientais que esses diferentes grupos isolados, já identificados na região do alto rio Envira, estão sofrendo atualmente em decorrência da intensificação da exploração madeireira, petrolífera e garimpeira, bem como do narcotráfico e do asfaltamento e pavimentação das BR 364 e 317 e ainda da rodovia Interoceânica, em ambos os lados da fronteira internacional, especialmente na selva peruana. De certa forma, essa mesma velha política liberal de concessões de grandes extensões de terras a empresas petrolíferas multinacionais, muitas delas sobrepostas aos territórios das comunidades nativas e até mesmo de reservas territoriais destinadas a povos indígenas em isolamento voluntário, é a responsável pelo recente massacre de índios no Peru. Um novo genocídio contra os povos indígenas perpetrado pelo atual governo peruano, que lembram as velhas "correrias" e matanças de índios organizadas pelos caucheiros peruanos, no início do século passado.

Além de declarar aberta "a nova temporada de caça aos índios pelo governo peruano", Meirelles enfatizava em suas falas que essa mesma política é também responsável pela ocorrência de "migração forçada" recente de índios isolados do lado peruano da fronteira para as florestas dos altos rios acreanos, especialmente para as cabeceiras do igarapé Xinane, afluente da margem esquerda do alto rio Envira, na TI Kampa e Isolados do Rio Envira, onde passaram a construir novas malocas e cultivar grandes roçados. Fatos esses amplamente comprovados por inúmeras fotos registradas no último sobrevôo de 2008. No entanto, com base em outros sobrevôos que vêm sendo realizados nessa mesma região desde 1998, o sertanista assevera que houve, nos últimos vinte anos, um crescimento demográfico significativo entre as populações de grupos isolados no Acre.
Os Huni Kui também informaram ao sertanista que os "brabos" do Humaitá têm feito grandes pressões sobre suas famílias, com repetidas tentativas de saquear suas casas e tapiris, bem como as residências dos moradores brancos do entorno. Arriscando assim suas próprias vidas em busca de novas tecnologias agrícolas, como terçados e machados de aço, além de panelas de alumínio e redes, dentre outras. E muitos deles já dispõem desses valiosos instrumentos, inclusive daqueles machados e terçados que foram jogados de avião pelo próprio sertanista sobre os roçados dos "brabos" em sobrevôo realizado, há dois anos, nas matas dos divisores de águas do Humaitá e de vários igarapés afluentes da margem esquerda do alto rio Envira.

Ainda informaram que pelo menos três grupos diferentes de "brabos" andam por sua terra e no seu entorno, incluindo as cabeceiras dos rios Murú e Iboiaçú. Dentre eles, "os brabos de cabelos compridos" que usam arco e flecha, andam nus e estão sempre pintados de urucum e jenipapo; os "brabos de cabelo curto" das cabeceiras do igarapé Xinane, recém chegados do Peru às florestas acreanas, fugindo de "correrias" patrocinadas por madeireiros ilegais peruanos e ainda pelo início da prospecção e exploração de petróleo e gás em áreas tradicionalmente ocupadas pelos isolados; e finalmente os "brabos mansos", provavelmente índios Kulina do alto rio Envira, que tiram a roupa e "viram brabos" para saquear suas casas e tapiris.
Inicialmente, os Kaxi propuseram ao sertanista que "amansasse os brabos" de sua terra indígena, mas logo compreenderam que o trabalho dele a frente da FPERE não é de fazer contato com os isolados, mas protegê-los e garantir os seus territórios.
Atnomapeamento dos "brabos" - Dos três dias passados em São Vicente, um deles foi reservado a mapear as ações dos "brabos" na TI Kaxinawá do Rio Humaitá nos últimos 20 anos, as quatro aldeias Huni Kui abandonadas pelos repetidos ataques dos "brabos", suas casas e tapiris que foram saqueados e roubados pelos "brabos", os lugares onde eles foram vistos e os locais onde foram encontrados vestígios, como rastros, tapiris, camas e restos de comida. Também foi mapeada a área destinada exclusivamente aos isolados dentro da TI Kaxinawá do Rio Humaitá, a partir dos igarapés Boa Esperança e Maronal para cima, até as cabeceiras do Humaitá e a "conta partida", como eles dizem, é a proposta de revisão de limites da terra indígena, para incluir as cabeceiras do Murú e a bacia do Iboiaçú, áreas hoje tradicionalmente ocupadas pelos "brabos".
Proposta Huni Kui para os "brabos"- Enfim, o papo de hoje é esse consistente documento dos Huni Kui, contendo as 13 propostas de proteção aos isolados da TI Kaxinawá do Rio Humaitá. E a primeira delas é digno de note, porque registra a generosidade com que os Kaxi do Humaitá estão tendo em relação aos seus "parentes isolados", reservando-lhes quase um terço da extensão de sua terra indígena. O que corresponde a pouco mais de 40 mil hectares de sua extensão atual de 127.383 hectares. E não é só isso! Estão propondo ainda a revisão de limites da TI Kaxinawá do Rio Humaitá, de modo a incluir as cabeceiras dos rios Murú e Iboiaçú, áreas que vêm sendo tradicionalmente ocupadas pelos "brabos".

Outro ponto digno de nota, e provavelmente o mais polêmico, é que os Kaxi querem distribuir ferramentas e outros utensílios aos "brabos" para diminuir a pressão que eles fazem sobre suas famílias e casas. E também para marcar espacialmente o limite da área que lhe foi destinada. Para os Kaxi do Humaitá os "brabos" estão em busca de novas tecnologias.agrícolas, como terçados e machados, para colocar seus grandes roçados e construir suas malocas e kupixawa.

Ainda é muito boa essa proposta de implantação imediata de dois postos de vigilância da FPERE no alto rio Murú, nos fundos da TI Alto Tarauacá, destinada exclusivamente aos isolados, e o outro na foz do igarapé Boa Esperança, no limite da área proposta aos isolados da TI Kaxinawá do Rio Humaitá.

Esse conjunto de propostas foi recentemente apresentado e discutido pelo sertanista Meirelles e o Nilson Sabóia, representante Huni Kui do rio Humaitá, junto à presidência do órgão indigenista federal e sua Coordenação Geral de Índios Isolados, sendo bem avaliado por ambas como propostas exeqüíveis e possíveis de serem implementadas nas ações do Programa de Valorização dos Povos Indígenas do Acre, do governo do estado para os anos 2009/10. Graças a uma emenda parlamentar apresentadas pela nossa brava senadora Marina Silva ao Orçamento Geral da União, com uma pequena contrapartida do governo do estado, a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira dispõe de recursos no valor de pouco mais de 600 mil reais a serem disponibilizados na proteção de índios isolados e seus territórios.

E para não passar mais uma vez em branco tão importante documento indígena, vamos divulgá-lo na íntegra neste Papo. Para encerrar, faço um apelo ao parceiro Piedrafita que escreva o próximo papo para justamente divulgar o Programa de Valorização dos Povos Indígenas do Acre, que ainda é pouco conhecido e discutido nas aldeias indígenas do Acre. E vamos à leitura desse documento dos Huni Kui!
1ª Oficina de Informação e Sensibilização sobre Povos Isolados
Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá
Maio de 2009

Entre os dias 12 e 21 de maio de 2009 estiveram reunidos na Terra Indígena (TI) Kaxinawá do Rio Humaitá lideranças e representantes das cinco aldeias do povo Huni Kui, a propósito da 1ª Oficina de Informação e Sensibilização sobre Povos Isolados. Esta oficina foi uma realização da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC), em parceria com a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira (FPERE/FUNAI) e o Governo do Estado do Acre, sendo custeada no âmbito do projeto Fortalecimento dos Povos Indígenas e Conservação da Biodiversidade na Fronteira Acre/Brasil - Peru, apoiado pela Rainforest Foundation Noruega (RFN).
Resultado de uma demanda dos próprios Huni Kui, a oficina teve o objetivo de apresentar e levantar informações a respeito dos povos indígenas em isolamento voluntário que habitam áreas vizinhas a seu território, e também sobre a política indigenista oficial relacionada a estes povos. Além disso, buscou-se estreitar relações entre os Huni Kui e a equipe da FPERE/FUNAI, de maneira que seus representantes possam participar das ações destinadas à proteção dos índios isolados que vêm sendo realizadas no Estado do Acre nos últimos 20 anos.
Foram realizadas reuniões preparatórias em cada uma das cinco aldeias da TI Kaxinawá do Rio Humaitá, nas quais a equipe da FUNAI, CPI-AC e Governo do Estado exibiu fotos e mapas a respeito dos povos isolados, além de estimular discussões envolvendo lideranças, professores, agentes de saúde, agentes agroflorestais e também os comunitários, que tiveram oportunidade de relatar suas opiniões e percepções a respeito dos vizinhos isolados.
Em seguida, uma oficina de três dias foi realizada na aldeia São Vicente, na qual o povo Huni Kui amadureceu sua discussão a respeito dos seus vizinhos isolados, mapeando informações sobre saques e roubos realizados em suas casas e acampamentos de caçadas e pescarias, encontros com isolados, vestígios e rastros, além de antigas aldeias e colocações abandonadas por conta destes conflitos. Além de complementar informação sobre o etnomapeamento já realizado na TI Kaxinawá do Rio Humaitá, em 2005, esta oficina contribuiu para a elaboração de uma proposta de trabalho a ser desenvolvida em parceria com a FUNAI/CGII e Governo do Estado do Acre, que recentemente celebraram convênio visando a proteção dos isolados. Eis as propostas:
1. Destinar aproximadamente um terço da extensão da TI Kaxinawá do Rio Humaitá para o uso exclusivo dos povos isolados, que há muito tempo habitam as cabeceiras deste rio. Em decorrência disso, os Huni Kui do Humaitá reafirmam o compromisso de não mais utilizar parte de seu território situado acima dos igarapés Marunáu e Boa Esperança até as cabeceiras do rio Humaitá.
2. Grandes obras de infra-estrutura que estão sendo implementadas atualmente em ambos os lados da fronteira Brasil/Peru (asfaltamento das rodovias BR-364 e Interoceânica, intensificação das atividades madeireiras, petrolíferas e garimpeiras no lado peruano da fronteira) têm provocado fortes impactos sobre os povos isolados. Uma das conseqüências é a migração forçada de grupos isolados do território peruano para as cabeceiras do rio Envira e seus afluentes. Além disso, a população Huni Kui e dos isolados tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Por esses motivos e como forma de compensação pela redução de seu território, os Huni Kui propõem a revisão de limites da TI Kaxinawá do Rio Humaitá. A oeste, incluindo a área compreendida entre a margem direita do rio Muru e o atual limite da terra indígena e, a leste, a bacia do igarapé Iboiaçu, áreas parcialmente ocupadas pelos povos isolados.
3. Implantar, em parceria com os Huni Kui, um posto de vigilância da FPERE/FUNAI no alto rio Muru, no limite da TI Alto Tarauacá.
4. Capacitar representantes Huni Kui nas especificidades do trabalho indigenista junto aos índios isolados das cabeceiras do rio Humaitá.
5. Criar e estruturar um posto de apoio na foz do igarapé Boa Esperança, no alto rio Humaitá, com os seguintes objetivos:
a. Monitorar a movimentação dos índios isolados na terra indígena;
b. Disponibilizar ferramentas e outros utensílios que os índios isolados vêm roubando há vários anos nas casas dos Huni Kui e de moradores do entorno, e;
c. Fazer a vigilância e fiscalização de invasões de madeireiros, caçadores e pescadores que acessam a terra indígena pelos afluentes da margem direita do rio Muru.
6. Indenizar as famílias Huni Kui que forem comprovadamente roubadas pelos índios isolados, de forma a evitar conflitos decorrentes das tentativas de recuperar os objetos roubados.
7. Dotar as aldeias da TI Kaxinawá do Rio Humaitá de meios de comunicação confiáveis (radiofonia, telefonia e internet). Atualmente há apenas um rádio funcionando precariamente na aldeia Vigilante, e um telefone público na aldeia São Vicente. Esta medida também fortalecerá as articulações políticas relacionadas ao Plano de Gestão da terra indígena a ser implementado no contexto do Programa de Valorização dos Povos Indígenas do Acre, do governo do estado.
8. Realizar oficina sobre índios isolados junto aos moradores do rio Muru e igarapé Iboiaçu, vizinhos da TI Kaxinawá do Rio Humaitá.
9. Garantir a participação de representantes Huni Kui nos sobrevôos para monitoramento dos índios isolados realizados pela FPERE nas cabeceiras do rio Humaitá.
10. Garantir a participação de representantes Huni Kui do rio Humaitá nos encontros e fóruns de discussão sobre os índios isolados.
11. Incluir a questão dos índios isolados como prioritária nas discussões e decisões sobre fronteira e integração regional Brasil-Peru.
12. Garantir a participação de representantes Huni Kui nas oficinas de informação e sensibilização sobre povos isolados que serão realizadas nas demais terras indígenas vizinhas a estes povos.
13. Realizar outras oficinas de informação e sensibilização sobre povos isolados na TI Kaxinawá do Rio Humaitá.

Diante dessas propostas, os Huni Kui reafirmam o compromisso de colaborar e participar ativamente dos trabalhos de proteção aos índios isolados, que vêm sendo realizados pela FPERE/FUNAI nos últimos 20 anos. E de incluir as áreas destinadas pelos Huni Kui aos índios isolados nas cabeceiras do rio Humaitá no Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Kaxinawá do Rio Humaitá.
Aldeia São Vicente, TI Kaxinawá do Rio Humaitá, 21 de maio de 2009.

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