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Promotoria quer ampliar area investigada por contaminacao

OESP, Metropole, p.C8
25 de Ago de 2005

Promotoria quer ampliar área investigada por contaminação
MPE diz que vai montar equipe própria, com técnicos que já trabalharam em Cubatão
Natália Zonta
Colaborou: Azahara Martín
O Ministério Público Estadual (MPE) vai montar uma equipe de especialistas para analisar a suspeita de contaminação da água na região de Interlagos e Santo Amaro, zona sul. E pretende ampliar o raio de 500 metros de investigação a partir da fábrica da Gillette na Avenida Eusébio Stevaux, possível foco da contaminação. "Vamos fazer um estudo profundo, com técnicos que atuaram em Cubatão", disse o promotor do Meio Ambiente Geraldo Rangel.
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) interditou sete poços artesianos em junho na região. No início da semana, o MPE abriu inquérito civil para apurar o caso. "As investigações já começaram. O que aconteceu foi muito grave, as substâncias detectadas não se encontram em qualquer lugar", afirmou Rangel.
A Cetesb ainda não começou a fazer análises mais profundas na região. Só na semana que vem a empresa pretende definir a estratégia para realizar testes no aqüífero da região e nos prédios e casas do entorno da Gillette que têm poços artesianos. "Estamos nos preparando para conseguir atender à demanda nos nossos laboratórios", disse o diretor de Controle de Poluição Ambiental da Cetesb, Otavio Okano.
A Vigilância Sanitária Municipal recebeu ontem a notificação da Cetesb para interditar dois poços artesianos no Shopping SP Market, próximo da Gillette. Segundo o shopping, os poços já foram fechados por iniciativa própria e a empresa só tem usado água tratada fornecida pela Sabesp. Mas a Vigilância deve interditar formalmente os poços do SP Market.
As empresas Grupo Viena, MWM International Motores, Baxter Hospitalar e a Sandvik do Brasil, que tiveram os poços lacrados em junho, garantem que desde a interdição só utilizam água fornecida pela Sabesp. Mesmo antes, segundo elas, a água dos poços não era usada para consumo humano.
A Vigilância Municipal e a Estadual definiram ontem um conjunto de medidas para normatizar o uso de água subterrânea na cidade. Segundo a Assessoria de Imprensa do órgão municipal, o texto será encaminhado à Secretaria da Saúde para ser publicado como portaria.
Também por causa das denúncias de contaminação, o deputado Donisete Braga (PT) pretende apresentar na Assembléia, no dia 2, um projeto que prevê a criação do Fundo Estadual de Prevenção e Remediação. A intenção é que empresas responsáveis por áreas contaminadas contribuam na arrecadação de fundos para combater danos ambientais, para que seja possível uma ação mais rápida em casos como o da zona sul.
Moradores de bairros próximos da fábrica da Gillette afirmaram ontem que não têm medo de ser afetados pela contaminação, pois suas casas são abastecidas pela Sabesp. "O único contato que tenho com essa água é quando jogo bola na quadra, regada com água de poço", disse o desenhista José Francisco de Souza. A professora Erika Márcia de Oliveira, que mora na região há 20 anos, nunca teve poço. "Compro água potável." Mas alguns moradores ficaram preocupados com a situação do SP Market. "Não estou tranqüilo, vou lá há muitos anos", disse o comerciante Leandro Veríssimo.

Citar empresa foi erro, diz ministério
Para departamento, Cetesb não poderia divulgar marca de fabricante de água
Marisa Folgato, Bárbara Souza e Natália Zonta
O chefe do 2o Distrito do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do Ministério de Minas e Energia, Enzo Luís Nico Júnior, condenou ontem a conduta da Cetesb no caso de contaminação do aqüífero na região de Santo Amaro pela Gillette . "Foi uma irresponsabilidade da Cetesb divulgar a marca da água mineral apenas por causa de uma suspeição e sem ter registrado índices que mostrem contaminação. Isso fecha uma fábrica", alertou Nico.
Segundo ele, o DNPM deveria ter sido informado quando a companhia constatou a existência de cloretos na água mineral. "O departamento é o gestor dessa atividade e solicitaria provas e contraprovas de exames no material." Nico afirmou que o DNPM acompanha de perto a qualidade da Petrópolis e "não encontrou nenhum índice considerado impróprio".
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Águas Minerais (Abinam), Carlos Alberto Lancia, também defendeu a empresa. Segundo ele, por determinação da entidade, a Petrópolis repete análises da água do seu reservatório. "São feitas análises bacteriológicas diárias na fonte", disse.
Geólogos divergem sobre a probabilidade de contaminação de reservatórios profundos na região. Mas salientam que a medida tomada pela Cetesb com relação aos poços é importante como prevenção.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Águas Subterrâneas, Uriel Duarte, professor do Instituto de Geociências da USP, seria pouco provável a contaminação além de um raio de 40 metros da área da Gillette. "Dificilmente o contaminante teria condição de se espalhar. Precisaria de algo que empurrasse esse material", diz.
O geólogo Rivaldo Mello, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Diagnóstico e Remediação de Solos e Águas Subterrâneas (Aesas), diz que o bombeamento dos poços da região - cerca de 30 são outorgados - pode apressar sua contaminação. "Por isso é preciso cessar o bombeamento."
A Cetesb voltou a afirmar que vai pedir um acompanhamento de qualidade da água do poço da fonte Petrópolis. A companhia afirma que a área deve ser mais estudada por estar numa região industrial. A Petrópolis Paulista Ltda. informou que ainda não foi procurada pela Cetesb.
Cetesb terá telefone para agendar análise de água de poços
SERVIÇO: Para ajudar a população no combate à dispersão dos poluentes encontrados na região de Interlagos e Santo Amaro, a Cetesb pretende, a partir da semana que vem, divulgar um número de telefone para que os moradores de prédios e casas da região que tenham poços artesianos possam pedir análise da qualidade da água. Esse serviço será restrito aos imóveis localizados na área que está sob suspeita de contaminação. A Cetesb garante que todas as ações tomadas na região serão alinhadas com vistorias da Vigilância Sanitária e Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica (Daee), que autoriza a perfuração do solo.

OESP, 25/08/2005, p. C8

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