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Promessa nuclear

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: MÜLLER, Antônio
07 de dez de 2011

Promessa nuclear

Antônio Müller

Estudo da Energy Information Administration (EIA), órgão de estatística energética ligado ao governo americano, revela que o consumo mundial de energia deverá registrar um crescimento acumulado de 53% entre 2008 e 2035. O Brasil também deverá quase dobrar sua demanda por energia, saindo dos atuais 456,5 mil GWh para 730 mil GWh em 2020, segundo levantamento da Empresa de Pesquisa Energética. Apesar do crescimento das fontes renováveis, o estudo da EIA aponta que os combustíveis fósseis deverão permanecer como principal fonte de energia mundial, previsão alarmante para uma sociedade que luta para combater o aquecimento global. Não poderemos prescindir de uma matriz energética diversificada, com uso de todos os tipos de opções.

No entanto, há grandes problemas no desenvolvimento da geração de energias mais limpas. Por um lado, fontes alternativas, como eólica e solar, pecam pela pouca eficiência, com geração limitada. Hoje, o Brasil gera 1.436 MW de eólica - e poderia chegar a 6.041 MW em 2020 -, mas isso representaria apenas 3,59% do total de energia de que o país precisará naquele ano. Por outro lado, as hidrelétricas, apesar de limpas e eficientes, enfrentam forte oposição. Essa pressão tem levado o Brasil a optar por projetos a fio d'água, que reduzem o tamanho dos reservatórios e o impacto socioambiental, mas diminuem também a capacidade de geração das usinas. O melhor exemplo é a Hidrelétrica Belo Monte, que, apesar de ter capacidade instalada superior a 11 mil MW, vai gerar em média 4.500 MW, exatamente por apresentar reservatório reduzido, em atendimento à política ambiental.

Neste cenário, a geração nuclear desponta como uma das mais promissoras, tanto pela eficiência quanto pela baixíssima emissão de gases causadores do efeito estufa. Estudos têm revelado que asUsinas nucleares são também viáveis economicamente, estando lado a lado com hidrelétricas e eólicas em termo de custos. E as nucleares ainda apresentam a vantagem da confiabilidade na geração, não dependendo de aspectos climáticos como chuva, sol ou ventos.

O acidente de Fukushima, no Japão, em março deste ano, ressuscitou velhos fantasmas, afetando o ritmo de expansão da geração nuclear. Mas, com exceção da Alemanha e da Bélgica, que mesmo antes do acidente já haviam anunciado a interrupção de seus programas nucleares, nenhum país interrompeu planos para manutenção e construção de novas usinas. Isso ocorre porque os reatores estão cada vez mais seguros, e o risco de vazamentos nucleares nunca foi tão baixo. No caso da Alemanha, o país passou de exportador de energia elétrica a importador, beneficiando países vizinhos, como Polônia e Lituânia, que irão construir novas unidades nucleares para exportar eletricidade para a Alemanha.

Apesar das medidas de segurança que devem ser tomadas a partir daquele acidente, é importante ressaltar que, mesmo com a impressionante capacidade destrutiva do tsunami, não houve mortos ou contaminados pela radiação. As unidades nucleares resistiram, enquanto barragens, prédios e cidades inteiras foram destruídos. A usina de Fukushima foi afetada, mas o plano de emergência funcionou e a população foi protegida.

Esta experiência mostra que, apesar da seriedade dos cuidados que devem ser tomados, não há motivos para interromper programas nucleares. Por isso, é importante que a sociedade e os governos não tomem decisões precipitadas. Demandas por ações imediatas contra as usinas não são baseadas em critérios técnicos. O episódio recente nos ensinou lições importantes sobre segurança que serão aplicadas nos reatores já em atividade e naqueles que serão construídos. Mas o mundo não pode e não deve abrir mão desse potencial. Hoje, existem 433 usinas em operação em todo o mundo, e outras 65 em construção, com potência total de 62.592 MW - o que representa um acréscimo de 15% no número de unidades nos próximos anos.

O mesmo se aplica ao Brasil. O país conta com as mais seguras tecnologias tanto nas usinas em operação (Angra 1 e 2) como naquela em construção (Angra 3). No entanto, o medo e a desinformação podem impedir que usemos esta forma segura e limpa de produzir energia e garantir o desenvolvimento brasileiro. Uma nação com dimensões continentais como o Brasil não pode descartar nenhuma opção energética que se mostre eficiente, segura e viável economicamente.

Antônio Müller é presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN).

O Globo, 07/12/2011, Opinião, p. 7

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