Carta Maior-São Paulo-SP
Autor: Edson Gillet
22 de Jan de 2003
A avaliação foi feita durante a mesa redonda "Guerra como mecanismo de governança global", destaque no II Fórum Social Pan-Amazônico, em Belém. Cerca de mil pessoas lotaram o ginásio Altino Pimenta, no centro da capital paraense, para acompanhar a discussão.
Os países amazônicos correm o risco de perder a soberania sobre sua biodiversidade e seus recursos energéticos com a crescente cobiça das nações desenvolvidas pela região, principalmente os Estados Unidos. Isso se manifesta através da influência norte-americana em projetos como o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), o Plano Colômbia e Acordo Espacial Brasil-EUA sobre a Base de Alcântara, no Maranhão, que ainda está sendo discutido.
A avaliação foi feita durante a mesa redonda "Guerra como mecanismo de governança global", destaque no penúltimo dia de debates do II Fórum Social Pan-Amazônico, em Belém. Cerca de mil pessoas lotaram o ginásio Altino Pimenta, no centro da capital paraense, para acompanhar a discussão.
Para a jornalista e diretora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Maria Luísa Mendonça, o interesse dos EUA pelos recursos amazônicos se manifesta pela crescente escalada militar do país na América Latina. "Por trás da crescente dominação militar do governo americano estão interesses em recursos como água, o petróleo e a biodiversidade", alertou.
No calendário, o ponto de partida dessa escalada foram os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington. A partir daí, o governo do presidente George W. Bush aumentou o orçamento do Pentágono para U$ 460 bilhões e recusou participar da convenção internacional contra armas biológicas.
Segundo Maria Luísa, a estratégia norte-americana inclui a instalação de novas bases militares e o reforço de bases já existentes; o treinamento de militares latino-americanos; a venda de armas; a instalação de sistemas de vigilância e espionagem; e a influência sobre o poder judiciário em países latino-americanos.
No Brasil, uma das "portas" de entrada dos EUA na Amazônia seria a Base Aeroespacial de Alcântara, diz a diretora da Rede Social. O contestado Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, negociado entre os governos dos dois países, prevê o aluguel da área para os norte-americanos, mas o Brasil teria de enfrentar várias restrições na hora de gastar os U$ 30 milhões pagos anualmente.
Maria Luísa afirma ainda que outra forma de controle articulada pelos EUA e seus aliados é o Sivam. Na sua avaliação, o sistema de vigilância, que envolveu recursos na ordem U$ 1,4 bilhão e foi executado por empresas norte-americanas, monitora cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados e garante informações sobre a região para países não-amazônicos.
Segundo ela, documentos do governo argentino revelam que "o objetivo do treinamento de militares latino-americanos, semelhante ao que aconteceu na Operação Cabanas, envolvendo 1.500 oficiais norte-americanos, seria criar um comando militar unificado para combater as guerrilhas na Colômbia, além de um campo de batalha composto por civis, organizações não governamentais e agressores potenciais".
O Plano Colômbia
De acordo com o engenheiro Hildebrando Vélez, professor da Universidade da Colômbia e dirigente da Confederação dos Amigos de La Tierra, o Plano Colômbia, pelo qual os EUA garantem ajuda econômica e militar no combate ao narcotráfico, incentiva a militarização na Amazônia e os conflitos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Entre as bases militares que os EUA já mantêm controle estão Três Esquinas e Letícia.
Com Plano Colômbia, elaborado durante o governo do presidente Andrés Pastrana, o país garante recursos de cerca de US$ 7,5 milhões. No papel, o objetivo seria a luta pela paz na Colômbia, a delimitação do cultivo de plantas ilícitas e a promoção do desenvolvimento econômico. O governo colombiano entraria com US$ 4 milhões e conseguiria US$ 3,5 milhões através de ajuda internacional.
Vélez assegura que a presença do governo Lula na região é um fator que pode contribuir para a construção da paz regional. "Espero que no Brasil a esquerda faça as transformações sociais e atenue as pressões sociais do campo e da cidade. O presidente Lula, pelo seu passado de luta, tem capacidade de demonstrar que é possível encontrar novos caminhos de luta, excluindo o conflito armado. O povo brasileiro amadureceu politicamente e com certeza vai empurrar outros povos a buscar a paz", diz.
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