CB, Brasil, p. 14
15 de Nov de 2008
Projeto une artesanato e preservação ambiental
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Um punhado de flores secas, uma boa dose de talento e muito amor pelo cerrado. Com esses ingredientes, a artesã Rozélia Mendes, 46 anos, fez sua própria receita de sucesso. Dela e de outras mulheres de Samambaia, que trocaram o título de donas-de-casa pelo de empreendedoras. O trabalho que desenvolvem com a vegetação típica do Centro Oeste já rendeu prêmios e foi o destaque de Brasília na VII Expo Brasil Desenvolvimento Local, evento que terminou ontem em Cuiabá e é o maior do mundo sobre desenvolvimento integrado à inclusão social.
Com suas flores que viram roupas, painéis, broches, cortinas e o que mais a imaginação permitir, Rozélia quer dividir com expositores do todo o Brasil, além de visitantes de 13 países, um assunto que acha bem mais importante do que as vendas. "O que quero deixar como herança para os meus filhos é este cerrado, que me propiciou tudo o que tenho. Hoje, fala-se muito em buscar renda, mas as pessoas têm de pensar, primeiramente, na responsabilidade com o meio ambiente", ensina.
Filha de nordestinos que vieram construir Brasília, Rozélia nasceu em Taguatinga, numa época em que a devastação do bioma não era tão perceptível.
"Acompanhei muito de perto esse cerrado natural e hoje vejo tudo isso acabando", lamenta.
Apesar da desaprovação da família, quando menina, dizia que seria artista. Não conseguiu apoio, mas, sozinha, começou a fazer flores. E foi com elas que conseguiu ajudar o marido a sustentar a casa e os três filhos. "O artesanato é a minha profissão. Nunca foi somente um hobby", diz.
Rozélia expôs na Torre de TV, mas logo começou a pensar mais alto. "As coisas eram todas muito parecidas, e quando eu fazia algo diferente era copiada. Eu queria ter uma identidade própria, trabalhando com o conceito de sustentabilidade com responsabilidade, sem danificar o cerrado", conta. Com a ajuda do Sebrae, começou a pesquisar para descobrir como poderia fazer uso das flores e, ao mesmo tempo, manter a vegetação.
Há 10 anos, ela decidiu dividir o conhecimento com outras mulheres. Foi quando surgiu a marca Flor do Cerrado. "Eu queria mostrar que era possível mudar a realidade social de uma cidade." Hoje, 20 famílias trabalham com Rozélia e produzem 12 mil peças por mês, que vão de chaveiros a roupas.
As criações das artesãs, que incluem sisal e crochê nos trabalhos, já apareceram nas passarelas das semanas de moda do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também são exportadas para os Estados Unidos, o Japão, a Itália e a França.
"E fazemos isso tudo sem desmatar o cerrado. Hoje, tenho orgulho de dizer que a Flor do Cerrado é a cara de Brasília", conta Rozélia. Graças à marca, ela é convidada para dar palestras em escolas, já foi tema de dissertação de mestrado e, assim, pode divulgar a campanha de conservação do bioma.
"Com isso, acho que estamos ajudando a conscientizar as pessoas sobre a necessidade de não acabar com o cerrado."
CB, 15/11/2008, Brasil, p. 14
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