OESP, Esporte, p. 7
16 de Mar de 2014
Projeto social coloca indígenas para praticar o arco olímpico de olho em 2016
Jovens da região do Alto Rio Negro estão fazendo a transição do arco nativo e se aperfeiçoando
Paulo Favero - O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - No meio da mata, o índio mira para cima e consegue acertar uma arara em pleno voo. Ele também consegue mandar uma flecha para cima, que faz uma parábola e desce com ângulo e força suficientes para caçar uma tartaruga que nada no rio. Isso não é cena de filme, mas a pura realidade presente em aldeias espalhadas pelo Alto Rio Negro, região ao noroeste de Manaus. A habilidade dos indígenas com o arco e flecha levaram Vírgilio Viana a idealizar o projeto Arqueria Indígena, que selecionou garotos para treinar o tiro com arco, modalidade olímpica, na capital do Amazonas.
"Quando eu estava naquela região, me chamou atenção o alto grau de falta de esperança dos indígenas. Muitos partem para o alcoolismo e isso é um problema sério. Existe falta de perspectiva. Como já sabia do talento deles com o arco, comecei a pensar no projeto. Eu vi a movimentação da Olimpíada e as críticas de que o Brasil não estava se preparando muito bem, então pensei no que poderíamos oferecer", afirma Virgílio. Ele contatou Roberval dos Santos, que tinha se mudado para Manaus e já tinha sido campeão brasileiro de tiro com arco. Ideia lançada, o projeto foi tomando forma.
Mesmo sem recursos, ele foi buscar jovens nas aldeias indígenas, com idade mínima de 14 anos. Foram selecionados 80 garotos e atualmente nove crianças fazem parte do projeto. Quem participou ativamente desse processo foi Márcia Lot, que é responsável pelo projeto na Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Ela foi a olheira de equipe e fez questão de ter uma menina no grupo, tamanho o talento encontrado quando viu a garota com o arco na mão. "Quando vi a menina atirando daquele jeito, com força e segurança, me surpreendi bastante. Eu fiquei uns seis meses envolvida na caça, me infiltrei nas aldeias e organizei seletivas. Era como um convite. Eu chegava e apresentava o projeto. Em algumas aldeias eu tive uma recepção negativa das mães, o medo era muito grande e alguns talentos acabaram ficando lá", revela.
O técnico Roberval começou a trabalhar os jovens ouvindo sempre de Virgílio que o sonho seria ganhar ouro, prata e bronze na Olimpíada. É quase uma utopia. "A gente percebe que eles são muito fortes e não reclamam do treinamento. Mas tem uma grande diferença entre o arco indígena e o olímpico. A transição é complicadíssima. O arco nativo é totalmente lúdico, pois a postura é muito diferente. O instinto de atirar não ajuda no arco de competição, que é muita repetição. Tem de se apegar aos detalhes e acredito que seja muito cedo para falar em 2016, pois não dá tempo para atingir o nível técnico e psicológico", avisa Roberval.
Apesar do viés esportivo, todos no projeto garantem que a meta é inclusão social e resgate da autoestima dos indígenas. Márcia atua como tutora dos jovens, procura escola para eles e até ajudou a conseguir que o Ministério do Esporte aprovasse uma Lei de Incentivo para poderem captar recursos. "Tem ainda uma longa caminhada. O Brasil tem pouca história nessa modalidade e queremos ajudar a construi-la. Já que vamos passar pela Olimpíada em 2016, vamos ver o que acontece. Na hora da competição, é a flecha que fala", conclui.
OESP, 16/03/2014, Esporte, p. 7
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