OESP, Agricola, p.G3
12 de Out de 2005
Projeto melhora renda do produtor
Sistema chamado de Bragantino, difundido pela Embrapa, está ajudando a conscientizar agricultores no Pará
Niza Souza
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do País falar em análise de solo, rotação de culturas e plantio direto não é novidade. Mas para agricultores do Pará o conceito de agricultura sustentável está longe de ser realidade. Na região, ainda é bastante comum o uso do processo de derrubada de árvores e queima antes do plantio. Para tentar mudar esse conceito, há dois anos a Embrapa Amazônia Oriental vem difundindo entre os produtores o sistema bragantino (as primeiras lavouras experimentais estão no município de Bragança) e já começa a ganhar espaço no nordeste do Estado.
O objetivo do sistema é mostrar ao produtor que há outras formas, sustentáveis, de produzir sem agredir o ambiente. O sistema bragantino alia, basicamente, três práticas: fertilização do solo, rotação e consorcialização de culturas. O primeiro passo, explica o pesquisador da Embrapa, Manoel da Silva Cravo, é recuperar a fertilidade do solo, com uso de calcário e fertilizantes. "Mas antes fazemos a análise para descobrir as deficiências e calcular as necessidades de fertilizantes."
A região é tradicional produtora de feijão caupi, cuja safra vai de junho a outubro. Na época da chuva, em janeiro e fevereiro, as terras são normalmente improdutivas. Com o sistema, nesses meses o produtor entra com o plantio de uma cultura de ciclo curto, entre 100 e 120 dias. "Pode ser arroz ou milho", diz o pesquisador. Depois da colheita, feita em abril, é só preparar a terra com roçagem e fazer o plantio da safra principal, ou seja, do feijão.
Entretanto, com o sistema bragantino o plantio não é apenas de feijão. "Fazemos o plantio da mandioca consorciada com o feijão", ressalta Cravo. Segundo ele, desta forma o produtor garante uma renda extra. "Se ocorrer algo errado com o feijão, alguma intempérie durante a safra, uma cultura opcional pode reduzir os prejuízos."
Para fazer o plantio consorciado, os espaçamentos de plantio são diferentes do sistema convencional. A mandioca normalmente é plantada em espaçamento de 1 metro. Neste caso, são 10 mil plantas por hectare. No sistema bragantino, o espaçamento de uma planta para outra é de 60 centímetros. Mas o grande diferencial é a distância entre as fileiras: 2 metros. Neste espaço, entre as fileiras de mandioca, planta-se o feijão caupi. "Temos cerca de 24% menos plantas de feijão, mas a vantagem é produzir duas culturas", afirma o pesquisador. Essas medidas são para a agricultura familiar. Mas o sistema também pode ser aplicado em lavouras empresariais. Neste caso, a distância entre as fileiras aumenta para 3 metros. "Em lavouras mecanizadas, é preciso mais espaço", explica Cravo.
O sistema começou a ser difundido em 2002. Este ano são 200 hectares de lavouras experimentais no Estado. Para o ano que vem, prevê o pesquisador, a expectativa é de que o sistema bragantino seja adotado em uma área de 20 mil hectares.
Se depender do produtor Benedito Dutra Luz de Souza, de Bragança, a área plantada com o sistema só vai aumentar. Ele é um dos produtores que têm lavoura experimental e aprova a iniciativa. "Acima de tudo é um projeto social, vai evitar as queimadas e ainda gerar mais empregos", acredita. Ele produz feijão caupi desde 1990. Tem 650 hectares plantados. No ano passado, separou 10 hectares para o sistema bragantino. "Colhi uma média de 1 tonelada por hectare de feijão, enquanto a média nacional é de 400 quilos", comemora. Além disso, diz o produtor, foram mais 25 toneladas por hectare de mandioca. O arroz e o milho plantados no período chuvoso não tiveram um bom resultado. "Mas o plantio dessas culturas é fundamental para o solo não ficar descoberto."
Para a próxima safra, Souza diz que pretende plantar pelo menos 20% de sua lavoura com o sistema bragantino. "Precisamos aumentar gradativamente, para somar conhecimento. Daqui três anos, espero fazer todo o plantio dentro do sistema. Não existe mais condições de plantar o feijão solteiro. Precisa consorciar com outra cultura."
SAIBA MAIS:
Embrapa Amazônia Oriental, tel. (0--91) 3204-1000
OESP, 12/10/2005, p. G3
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