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Projeto integra saberes indígenas e amplia conceito de cuidado em saúde

Agência Cenarium - agenciacenarium.com.br
Autor: Bianca Diniz
19 de Abr de 2026

19 de abril de 2026

MANAUS (AM) - Neste Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, reflexões sobre saúde pública ganham novos contornos a partir de experiências que nascem nos territórios e nas práticas ancestrais. Indígenas, negros e pessoas LGBTQIAPN+ estão no centro de um projeto que propõe ampliar o conceito de cuidado ao integrar saberes tradicionais, práticas comunitárias e vivências de grupos historicamente marginalizados.

Intitulada "Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo", a iniciativa é coordenada pelo professor José Miguel Nieto Olivar, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), e conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O projeto reúne seis frentes de investigação distribuídas em territórios distintos, como da Amazônia às periferias urbanas, com a proposta de aproximar diferentes formas de conhecimento. A iniciativa destaca o diálogo entre saberes acadêmicos e práticas construídas em contextos populares, reconhecendo a legitimidade de experiências diversas de vida, cuidado e resistência.

Ao mesmo tempo, a pesquisa propõe uma revisão crítica dos modelos tradicionais de saúde pública, ao incorporar perspectivas que historicamente ficaram à margem do campo científico. A intenção é ampliar a compreensão sobre o cuidado em saúde, integrando o conhecimento técnico a práticas comunitárias e saberes não institucionalizados, de forma acessível e socialmente contextualizada.

De acordo com Nieto Olivar, da USP, a proposta parte da necessidade de revisar os fundamentos do campo. "Trata-se de levar a sério formas de cuidado elaboradas por grupos historicamente tratados como 'outros' e repensar a própria ideia de saúde, seus paradigmas e seus sujeitos", afirma.

Na região do Alto Rio Negro, no Estado do Amazonas, a pesquisa acompanha práticas de cuidado desenvolvidas por mulheres indígenas, que articulam conhecimentos sobre plantas medicinais, alimentação e espiritualidade. Durante a pandemia de Covid-19, essas práticas tiveram papel central na proteção das comunidades, combinando saberes tradicionais e estratégias biomédicas.

A trajetória de Elizângela da Silva Costa, pesquisadora indígena da etnia Baré e doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), reforça, na prática, a ideia de que o cuidado em saúde está profundamente enraizado no território e nas experiências coletivas.

Com formação em Sociologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Elizângela construiu uma atuação que articula educação, liderança comunitária e pesquisa. Foi coordenadora de escolas indígenas no Alto Rio Negro, liderou o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FORIN) e presidiu a Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN). Durante a pandemia de Covid-19, esteve à frente da campanha "Rio Negro, Nós Cuidamos!", mobilizando a distribuição de alimentos e itens de higiene para comunidades indígenas, além de atuar como educadora de saúde com os Médicos Sem Fronteiras.

Sua experiência também inclui participação em pesquisas internacionais, como a plataforma PARI-c, ligada à City University of London, voltada às respostas indígenas à pandemia, além de atuação em iniciativas de articulação na Amazônia com o Instituto Igarapé.

É a partir desse percurso que a pesquisadora sustenta que "roças, quintais e florestas funcionam como espaços de produção de saúde". A afirmação não é apenas conceitual: reflete vivências concretas em que o cuidado envolve alimentação, uso de plantas medicinais, redes de apoio e relações com o território e saberes que atravessam gerações e permanecem fundamentais para o bem-estar coletivo.

Ao levar essa perspectiva para o campo da saúde pública, Elizângela contribui para ampliar o debate acadêmico, defendendo o reconhecimento dos saberes tradicionais como parte legítima e indispensável na produção de cuidado, especialmente em contextos indígenas e amazônicos.

Se no Alto Rio Negro o cuidado em saúde passa pelas roças, no Alto Solimões ele ganha forma no terreiro. É ali que se concentram práticas que articulam tambor de mina, umbanda e candomblé e que, ao mesmo tempo, redefinem trajetórias, como a de uma mulher trans que se tornou mãe de santo.

Esse é o foco da chamada Parcela 2 do projeto, que conta com a participação do pesquisador Michel de Oliveira Furquim dos Santos, doutorando da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação de José Miguel Nieto Olivar. O estudo investiga a formação de redes de acolhimento por e para pessoas LGBTQIA+ em terreiros de umbanda em Tabatinga, no Alto Solimões, região de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Santos analisa os modos de cuidado praticados em uma comunidade religiosa de matriz afro-brasileira marcada pela presença de homossexuais, pessoas trans e travestis. "É uma rede de cuidado muito peculiar, que inclui o corpo e o espírito, a alimentação e a sexualidade, o dinheiro e o prazer", afirma à Agência Fapesp.

O principal campo da pesquisa é o Terreiro do Pai Jairo, que reúne cerca de 60 pessoas, mas cuja influência ultrapassa seus frequentadores diretos. Em ocasiões específicas, o espaço chega a ser frequentado por moradores de toda a cidade, incluindo católicos e evangélicos. A partir dele, surgiram outros terreiros na região, como o de Mãe Dany Salles, em Benjamin Constant, e o de Mãe Samara, uma das personagens centrais do estudo.

A trajetória de Samara evidencia a complexidade dessas redes. Travesti, trabalhadora sexual e mãe de santo, ela construiu seu caminho a partir de experiências que articulam espiritualidade, corpo e autonomia. "Por meio do trabalho sexual, Samara juntou dinheiro e, segundo relata, orientada por sua guia, a Pomba Gira Maria Padilha, foi para São Paulo 'fazer o corpo', colocar silicone, próteses. Depois voltou, cumpriu suas obrigações rituais e se tornou mãe de santo", relata o pesquisador à Agência Fapesp.

Segundo Santos, identidades que costumam ser tratadas como incompatíveis em outros contextos coexistem ali sem conflito. "Samara não abre mão do erotismo. É travesti, é prostituta, é macumbeira, é mãe de santo, tudo junto ao mesmo tempo. Em São Paulo, é muito difícil encontrar uma mulher trans mãe de santo. Mas, no Alto Solimões, isso acontece", afirma.

Nesse universo, as próprias entidades religiosas parecem deslocar categorias tradicionais de gênero e sexualidade. "As entidades não fazem distinção. Quando perguntei sobre isso durante um ritual, a resposta foi direta: 'isso é um problema dos humanos'", relata o pesquisador.

Para além do aspecto espiritual, o terreiro também opera como espaço concreto de acolhimento. Pessoas em situação de vulnerabilidade encontram ali abrigo, alimentação e suporte cotidiano. O local ainda funciona como ponto de circulação de saberes e de mediação com o Sistema Único de Saúde (SUS), facilitando o acesso a serviços como testagem rápida de HIV e a presença de profissionais de saúde.

A chamada Parcela 3 do projeto amplia esse olhar ao mergulhar no universo das trabalhadoras sexuais e nas redes autônomas de cuidado construídas por essas mulheres. "O Brasil tem um dos movimentos de trabalhadoras sexuais mais antigos e articulados do mundo, com mais de 40 anos de história", conta Olivar.

Ao longo desse período, essas redes estruturaram formas próprias de organização, linguagem e proteção, muitas das quais se tornaram referência internacional. Durante a pandemia de Covid-19, demonstraram capacidade de resposta diante da ausência de políticas públicas eficazes. "O que vimos foi a potência de uma rede que, mesmo à margem, cuida de si como o Estado jamais cuidaria", afirma o coordenador.

Em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+, coordenado por Maria Amélia Veras, a equipe realizou um levantamento sobre mulheres em situação de prostituição em diferentes estados brasileiros. Em São Paulo, a pesquisa se articula com o Coletivo Mulheres da Luz e a Associação Mulheres Guerreiras; no Rio de Janeiro, com o Coletivo Puta Davida.

As investigações também alcançaram Manaus, onde ainda não há tradição de estudos sistemáticos sobre trabalho sexual, e avançam sobre dimensões menos visíveis do cuidado, como memória e vínculos afetivos. Um dos estudos acompanha a trajetória de uma estudante que revisita sua infância a partir da relação com uma tia, ex-trabalhadora sexual. "Foi essa tia, negra, prostituta, estigmatizada, que cuidou dela. É a partir dessa memória que ela tenta compreender essas formas de cuidado e como foi justamente essa tia que a humanizou", relata Olivar.

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