VOLTAR

Programa nuclear pode custar R$ 55 bi

OESP, Economia, p. B6
01 de Jul de 2007

Programa nuclear pode custar R$ 55 bi
Valor leva em consideração a construção de oito centrais nucleares até 2030; com quatro usinas, o custo seria de R$ 31 bilhões

Irany Tereza e Nicola Pamplona

O programa nuclear do governo até 2030, deflagrado nesta semana com o aval do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para a conclusão de Angra 3, deve representar investimentos entre US$ 15,5 bilhões e US$ 27,5 bilhões (R$ 31 bilhões a R$ 55 bilhões, pelo câmbio atual). Os cálculos levam em consideração o cenário mais conservador, de Angra mais quatro usinas de 1 mil megawatts (MW) cada; e o mais agressivo, com o complemento de oito usinas. A versão usada atualmente como referência do programa pela Empresa de Planejamento Energético (EPE) é a mais conservadora.

Ainda neste semestre o governo inicia a pesquisa para a escolha da região no Nordeste que abrigará uma central nuclear. Depois, um novo complexo surgirá no Sudeste, provavelmente em São Paulo. Cada um dos dois pólos abrigará entre duas e quatro usinas, cada uma com potência de 1 mil megawatts. De acordo com as estimativas preliminares da Eletronuclear, cada unidade custará cerca de US$ 3 bilhões, considerando a referência internacional de custo, de cerca de US$ 3 mil dólares por quilowatt instalado.

Para garantir a viabilidade econômica de Angra 3, o governo já avalia uma redução, quase à metade, da taxa de retorno financeiro do projeto, calculada inicialmente entre 12% e 15%, que pode passar para algo em torno de 7% ou 8%. O objetivo é compensar o possível aumento no custo de US$ 7,2 bilhões estimado para obra. Todos os contratos firmados há mais de 20 anos passarão pelo crivo de auditorias independentes para revisão de valores e reconhecimento ou não de sua validade.

Para evitar atrasos nas obras, que serão iniciadas tão logo a licença ambiental seja concedida, a Eletronuclear pretende pedir à sua controladora, a Eletrobrás, um empréstimo-ponte de R$ 200 milhões, que garantirá a construção civil até a conclusão da auditoria em, no máximo, um ano. Com isso, o governo espera manter inalterado o cronograma para início do funcionamento da nova usina, previsto para 2013. Também haverá uma revisão nas tarifas que serão cobradas em Angra 3, inicialmente previstas em R$ 138,14 o MW/hora.

"A tarifa que será calculada para Angra 3 nunca será efetivamente cobrada, pois terá de haver um mix com Angra 1 e 2. Em Itaipu, por exemplo, não há uma tarifa para cada turbina, mas para a empresa toda. Estamos, na verdade, calculando que tarifa a Eletronuclear vai ter, como qualquer outra geradora. Esse mix vai ficar seguramente abaixo de R$ 140 e, provavelmente, abaixo de R$ 135.

O governo pretende, ainda, instituir para o programa nuclear um índice de nacionalização na produção de bens e serviços semelhante ao que está em curso na indústria de petróleo. Os estudos da Eletronuclear indicam um porcentual de 71% a 72% de investimento nacional. "Vamos incentivar as empresas, mesmo as estrangeiras, a montar aqui a sua base de fabricação. Será difícil fornecer os equipamentos se eles não forem produzidos aqui", afirma o presidente da estatal.

Nas prateleiras, equipamentos e peças comprados há mais de 20 anos

"Quero mais é ver isso aqui vazio." Dirceu Miglioli responde de bate-pronto à pergunta sobre uma possível relação afetiva com aquele amontoado de equipamentos com os quais convive há 22 anos. "E, se Deus permitir, vou ver isso tudo montado, pronto para funcionar", completa.

Estamos em um enorme galpão na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, onde imensas prateleiras acondicionam equipamentos eletrônicos e peças de fundição adquiridos há mais de duas décadas para Angra 3.

Miglioli é um dos 35 funcionários da Eletronuclear cujo trabalho é manter em bom estado os equipamentos comprados nos anos 80. São cerca de US$ 750 milhões, que correspondem a 70% da parte importada da usina.

Os funcionários vistoriam as peças, que, uma vez por ano, são checadas por representantes dos fornecedores e seguradoras. Algumas precisam de acondicionamento especial, para evitar que sejam prejudicadas por excesso de umidade. Outras - peças mais brutas de fundição - podem ficar expostas ao tempo.

A Eletronuclear tem quase 10 mil toneladas de equipamentos, divididos em galpões e pátios que, somados, têm área total de 37,5 mil metros quadrados. Parte está em Angra e parte nas instalações da Nuclep, a estatal responsável pelos equipamentos pesados, em Itaguaí, região metropolitana do Rio. Lá estão os principais equipamentos, como o reator, os turbogeradores e os geradores de vapor.

"É muita caixa para abrir, não?", brinca Miglioli, apontando as prateleiras. A manutenção do maquinário custa à Eletronuclear cerca de US$ 20 milhões porano. Logo na entrada do galpão, um equipamento exibe a placa com dados técnicos e a data de chegada ao Brasil: 1985. Desconsiderando o design antigo, parece ter sido comprado recentemente. Minutos após o fim da visita, já estava embalado em invólucro especial, que indica o nível de umidade do equipamento.

O presidente da Eletronuclear, Othon Pinheiro, diz que o contrato com os alemães na época da compra das usinas Angra 2 e 3 foi mal feito, mas acabou beneficiando o País. O acordo previa o faturamento a peso, o que fez com que os vendedores enviassem primeiro os equipamentos mais pesados.

O computador responsável por processar as informações da usina ficou no fim da lista e, com a suspensão do contrato da terceira usina, acabou não vindo. "Foi o item com maior evolução tecnológica no período", conta o executivo. Agora, em vez de um processador da década de 80, do tamanho de um armário, a empresa poderá usar modernos laptops para fazer o mesmo serviço.

As obras para a fundação de Angra 3 foram iniciadas ainda na década de 80, mas suspensas após a constatação, pelo governo, de que não haveria condições financeiras para construir duas usinas ao mesmo tempo. Mesmo Angra 2, que chegou a estágio um pouco mais avançado, acabou suspensa, e foi retomada apenas no final do governo Itamar Franco.

Na Central Almirante Álvaro Alberto, Angra 1 e 2 estão lado a lado. O espaço para Angra 3 está mais adiante, após os galpões de equipamentos que, em sua maioria, serão demolidos após as obras. A empresa planeja manter apenas algum deles para as peças de reposição.

OESP, 01/07/2007, Economia, p. B6

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.