OESP, Agricola, p.G6-G7
21 de Set de 2005
Cuidados ambientais e sociais valorizam produção de café
Com a Produção Integrada de Café, País investe na ampliação de mercados internacionais
Beth Melo
O Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, coordenado pela Embrapa Café, lançou, no início do mês, a Produção Integrada do Café (PIC), um conjunto de normas com critérios a serem observados respeitando o desenvolvimento sustentável da cafeicultura. "É uma espécie de código de conduta que deverá ser seguido por todos os elos da cadeia agroindustrial do café interessados na certificação do seu produto", afirma o gerente-geral da Embrapa Café, Gabriel Ferreira Bartholo. "Prevê a sustentabilidade econômica, social, ambiental e o gerenciamento da atividade cafeeira."
Na região de Cabo Verde, no sul de Minas, várias propriedades certificadas por uma norma brasileira e outra estrangeira são fortes candidatas a entrar na PIC. Uma delas é a Fazenda das Almas, de Virgolino Adriano Muniz, que produz café desde 1942 e conquistou, em setembro de 2004, os selos da UTZ Kapeh (de origem holandesa) e o da BSCA (nacional).
TRÊS PILARES
Segundo Muniz, a certificação é sustentada por três pilares: social, ambiental e gestão. No social, ele destaca os cuidados com a saúde do trabalhador, com a conscientização sobre o uso de equipamentos de proteção individual (EPI) e aplicação de defensivos. "Ninguém aplica defensivos ou opera máquinas sem EPI e sem treinamento", diz. "Há o reconhecimento pelas tarefas, por meio de elogio, do bom relacionamento e o pagamento de comissão."
Quanto ao ambiente, a fazenda respeita a reserva legal, a preservação permanente e vai além: criou corredores ambientais entre as reservas para facilitar a movimentação dos animais. "Eles ajudam na distribuição de sementes de espécies silvestres, o que aumenta biodiversidade." Conforme ele, o conjunto de iniciativas melhorou o equilíbrio ecológico e contribuiu para aumentar a população de inimigos naturais das pragas do cafezal, como a vespa que controla o bicho-mineiro.
Vale lembrar que a broca e o bicho-mineiro, duas importantes pragas na região, são monitoradas por meio do Manejo Integrado de Pragas (MIP). "Com o MIP, reduzimos o uso de defensivos em mais de 50%."
O cafeicultor faz, também, o controle e a reciclagem do lixo - o orgânico vai para a compostagem e volta para a lavoura, os restos de palha do café, também. Faz, inclusive, a regulagem de tratores e bombas injetoras para evitar a poluição do ar; o monitoramento da água, para evitar desperdício - parte da água usada é reciclada e volta para o sistema -, e da energia. "O secador de café só é usado quando está chovendo ou quando o terreiro está cheio."
Já a gestão, destaca Muniz, garante a sobrevivência da fazenda. "Proporciona decisões mais acertadas e o controle das tarefas." Ele observa que a gestão adequada, os cuidados com o ambiente e o social evitam problemas futuros, além de dar um retorno econômico com o uso dessas práticas. "O uso racional de insumos, aliado a práticas de análise do solo e foliar e o uso do MIP, reduzem os custos e melhoram o ambiente."
A Fazenda de Muniz possui 93 hectares em produção de café tipo exportação. Na safra 2004/2005 colheu 3 mil sacas de café beneficiado - 37 sacas por hectare - 50% das quais são exportadas.
DOIS PROCESSOS
A Fazenda Palmital, também em Cabo Verde, de Carlos Augusto Rodrigues de Melo, que também é vice-presidente da Cooxupé, está em processo de certificação pela UTZ Kapeh e pela BSCA. "Basicamente, as certificações envolvem rastreabilidade do produto (origem) e a sustentabilidade, dentro de um projeto social, que abrange o aspecto econômico, ambiental e social. Para adequar-se às exigências, ele teve de fazer adaptações físicas - com relação a normas de segurança, nas áreas de preparo de café - e processos (procedimentos de operações de colheita e secagem. A Palmital tem 250 hectares de café arábica, tipo exportação.
Programa ajuda a reduzir custos
Além disso, nível de satisfação dos funcionários aumenta e benefícios ambientais também
Os fundamentos da Produção Integrada de Café tiveram origem na Produção Integrada de Frutas (PIC), criada pelo Ministério da Agricultura, para a certificação de frutas para exportação. Segundo o gerente geral da Embrapa Café, Gabriel Bartolo, com a PIC, o produtor perceberá que, gerenciando bem a atividade, dentro das normas, ele terá um caminho para a certificação do café. "Agregará valor ao produto e reduzirá custos."
"Partimos da PIF porque já está estruturada, e juntamos idéias de outros programas", diz o pesquisador-voluntário do Instituto Agronômico (IAC) e consultor da Embrapa Café, Bernardo Van Raij. "O objetivo da PIC é estabelecer parâmetros para uma norma brasileira, que deverá substituir as estrangeiras vigentes no País", afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Mário Malta, favorável à PIC. No País já existe a certificação BSCA, para o café tipo exportação, e Café dos Cerrados, de âmbito regional, além das estrangeiras.
Conforme Raij, a PIC visa a atender aos consumidores quanto à segurança do alimento, principalmente no que diz respeito aos resíduos de agrotóxicos e à redução de suas aplicações. De acordo com Raij, que é o coordenador da PIC, além de buscar a qualidade dos produtos, hoje, os exportadores querem saber a sua origem (rastreabilidade), exigindo qualidade do sistema de produção, com sustentabilidade. Esse item está de acordo com a Agenda 21, que defende resultado econômico com preservação ambiental e interesse social.
"A adesão à PIC é voluntária. O produtor só vai entrar com a certeza de valorizar seu café", diz Malta. Raij sugere que os produtores comecem a se ajustar aos princípios, buscando o apoio da instituição de pesquisa mais próxima. Para chegar a essa versão, foram feitos 20 encontros com produtores e a equipe da PIC, cujo texto (Veja quadro) poderá ser solicitado por e-mail (pic.cafe@ embrapa.br).
Vantagens
Embora ainda não tenha conhecimento detalhado sobre a PIC, o cafeicultor Eduardo Lima de Souza, da Fazenda Ponto Alegre, de Cabo Verde, está disposto a aderir ao programa, por causa das vantagens da certificação. A propriedade, que ele dirige com o seu irmão Renato, é certificada pelas normas BSCA e UTZ Kapeh. Segundo Souza, a gestão da fazenda melhorou bastante, a satisfação dos funcionários também, graças a uma maior preocupação com saúde, bem-estar e capacitação. "Conseguimos gerenciar o tempo, aprimorar a qualidade da mão-de-obra e reduzir os custos com produtos", diz.
"Com o uso do Manejo Integrado de Pragas diminuímos em mais de 70% o uso de agrotóxicos, chegando, em alguns casos, a realizar aplicações isoladas em apenas 10% da área."
Os irmãos Souza estão na cafeicultura há três gerações e garantem que a preocupação com a produção sustentável tornou-se mais acentuada há três anos, quando eles decidiram preparar a propriedade para a certificação. Para adequar-se, foram realizadas mudanças, visando à maior segurança, como a construção de corrimões em escadas e rampas. "Hoje, há um EPI para cada função, seja para quem trabalha com defensivos, nas máquinas, na oficina, na colheita", diz. "Quem vai colher café tem de usar óculos telados e touca árabe, com uma proteção auricular." Os Souza possuem 273 hectares de café em produção e, na safra 2004/2005, colheram 5.300 sacas de 60 quilos de arábica especial, sendo 30% para exportação.
4c em pauta
O presidente da Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), Carlos Paulino, diz que a criação da PIC levanta a discussão sobre o Código Comum da Comunidade Cafeeira, os 4C, que ele considera uma pressão dos países europeus, e que também exige sustentabilidade na produção. Paulino afirma que os produtores brasileiros não querem, porém, adotar os 4C. "Somos favoráveis à PIC, que é de acordo com a nossa realidade", diz. "Se o 4C fosse obrigatório para todos os países, o Brasil estaria em vantagem. Nossas leis trabalhistas e as ambientais são severas."
O superintendente-comercial de Café da Cooxupé, Lúcio Araújo Dias, considera a PIC interessante, porque põe em pauta os 4C, visando a fazer algo comum. "O preocupação do setor é a de que a certificação se torne uma barreira", alerta.
A norma preliminar da PIC está em fase de discussão e apreciação por parte de entidades representativas de produtores de café, além de cafeicultores. Após essa validação, passará por testes no campo e a instalação de projetos pilotos, que funcionarão como unidades demonstrativas.
Saiba mais: Cooxupé, tel. (0--35) 3696-1001; Embrapa Café, tel. (0-61)3448-4551
Normas contemplam todas as atividades
PRINCÍPIOS: A Produção Integrada do Café (PIC) está organizada em 16 princípios. São eles: 1- Implementação da PIC por meio de uma organização legalmente constituída; 2 - Auditoria de rastreabilidade dos procedimentos, do talhão ao produto beneficiado; 3 - Ocupação ordenada da terra, respeitando a legislação ambiental e preceitos técnicos; 4 - Manejo da flora e fauna, protegendo a biodiversidade e criando refúgios para os inimigos naturais de pragas do café; 5 - Manejo correto do cafezal e da cobertura vegetal para conservação do solo; 6 - Escolha adequada de variedades e mudas; 7- Manejo adequado do solo e da adubação para preservar ou melhorar a fertilidade do solo e reciclar materiais orgânicos; 8 - Proteção do cafeeiro de pragas e doenças de forma a reduzir o uso de pesticidas; 9 - Irrigação quando necessária, evitando o desperdício de água; 10 - Colheita com cuidado, para preservar a qualidade do café; 11 - Pré-processamento pós-colheita com higiene e de forma a garantir a qualidade do produto; 12 - Cumprimento da legislação trabalhista e ações para assegurar saúde, bem-estar e desenvolvimento do homem; 13 - Gestão ambiental em toda a propriedade; 14 - Capacitação de trabalhadores e pessoas envolvidas na PIC. 15 - Situação financeira acompanhada e mantida sobre controle; 16 Auto-auditoria para certificação pelo menos uma vez por ano.
OESP, 21/09/2005, p. G6-G7
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.