CB, Brasil, p.20
23 de Out de 2004
Profissão: sertanista
Cheios de idealismo, jovens adiam estudos e saem do conforto de casa para conhecer a realidade dos homens que defendem os povos isolados no país. Atualmente, só há três desses profissionais em ação
Hércules Barros
Da equipe do Correio
Oito jovens brasileiros deixaram família, estudo e trabalho para se guiarem por ideais. Ontem, eles embarcaram para a Amazônia, onde conhecerão na prática as atribuições de quem escolheu cuidar dos povos indígenas. Em comum, o grupo tem o mesmo sonho: tornar-se sertanista como os poucos hoje existentes.
Assim como os índios, a atividade de quem trabalha com as etnias que ainda permanecem isoladas está em extinção. Hoje, apenas três desses trabalhadores estão lotados na Fundação Nacional do índio (Funai), em Brasília. Outros dez se aposentaram.
Na tentativa de reverter esse quadro, a Funai começou um treinamento para formar novos aspirantes a técnicos indigenistas. Segundo o presidente do órgão, Mércio Gomes Pereira, os jovens não serão contratados depois da capacitação. "Vamos abrir concurso público no próximo ano", diz. 0 Plano de Classificação de Cargos da Funai está em discussão. Um dos pontos a ser revisto é o critério para que o técnico indigenista se torne sertanista, que é o responsável por fazer o primeiro contato com os povos isolados.
A falta de perspectiva profissional e experiência na área não invalidam o sonho dos aspirantes a defensores de índios. A turma que viajou para a Amazônia sonha em se tornar sertanista, mas não tem intimidade com o indigenismo. Metade dos selecionados entre os 19 inscritos no treinamento da Funai nunca entrou em uma floresta, nem teve contato com índios. Tampouco faz idéia do altíssimo risco quê sofre de pegar malária uma vez por ano.
Sonhadores
Os sertanistas que trabalham na sede da Funai também começaram como jovens sonhadores. Um deles, Wellington Gomes Figueiredo, atualmente presta consultoria para a Funai e vê nos jovens a mesma motivação da turma de sua época. "Não tínhamos experiência indígena. Só a vontade de lutar por um ideal."
Apesar da nostalgia, Figueiredo não pensa mais em viajar para frente de atração com índios. "Já peguei malária 28 vezes. Continuo a defender os índios, mas tenho outras prioridades". Para Figueiredo, chega de aventura.
Em 1980, por exemplo, ele correu quatro horas sem parar fugindo dos índios. Era um trabalho de pacificação dos Araras, no Pará. "Saímos do acampamento da Funai para caçar e fomos cercados. Conseguimos escapar correndo pela mata depois de horas de perseguição."
Figueiredo conta que a profissão de sertanista já foi mais valorizada. "Quando comecei como técnico indigenista, em três meses no mato ganhava o suficiente para comprar um carro". Até a década de 90, quem trabalhava com índios isolados contava o r tempo de aposentadoria em dobro, quando estava no meio do mato. 0 benefício foi retirado com a reforma da Previdência.
Sem contato Coordenador-geral de índios isolados da Funai, Sydney Possuelo é responsável pela capacitação dos indigenistas. Ele ressalta que o grupo não vai atrás de índio para fazer contato. "Diferentemente da época que fiz um curso parecido com esse, hoje a gente localiza os povos isolados, delimita a área de ocupação deles, protege o meio ambiente e os deixa viver a vida tradicional, sem contato com a gente."
Possuelo programou expedições de sete dias na selva, onde a turma vai viver de caça e pesca. Os alunos vão aprender a pilotar barco, estar junto com povos indígenas e fazer fogo na selva. Eles aprenderão, por exemplo, que, mais de 500 anos depois do descobrimento do Brasil, os homens brancos ainda deixam um presente no mato para facilitar a aproximação com os índios. Depois da pequena lembrança, os sertanistas esperam o contato das tribos descobertas. Nem sempre dão sorte. Há aqueles que nunca aparecem.
Memória
Villas-Bôas, o mestre
Orlando Villas-Bôas foi o mais famoso indigenista do país. Morreu em dezembro de 2002, aos 88 anos. Junto com os irmãos Leonardo e Cláudio, desbravou o Brasil na década de 40 e criou o Parque Indígena do Xingu (MT). Os três contribuíram para salvara cultura de diversas nações indígenas.
Apesar de terem feito contato com povos isolados, os irmãos Villas-Bôas eram contra a incorporação do índio à sociedade. A partir dessa filosofia, formaram alguns discípulos hoje em atuação. Os sertanistas Izanoel Sodré e Sydney Possuelo, por exemplo, iniciaram carreira trabalhando com os irmãos Villas-Bôas.
Orlando, influenciado por ideologias humanistas, via as sociedades indígenas como mais justas e humanitárias do que as não-índias. Sempre criticou a distância entre a realidade dos índios e a visão burocrática da política indigenista.
Em 19 de abril de 2004, os Correios lançaram o selo Orlando Villas-Bôas - em reconhecimento ao trabalho realizado pelo sertanista. O selo está à disposição de quem utilizar os serviços postais nas correspondências que saírem das regiões nas quais os irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas percorreram nas expedições nos anos 50.
Perfil: Izanoel dos Santos Sodré
O substituto de Apoena
A afinidade de Izanoel dos Santos Sodré, 53 anos, com a causa indígena vai além da dedicação. Os traços da fisionomia, a pele bronzeada, os olhos levemente puxados e os cabelos escuros e lisos lembram um pouco as características dos índios. Nascido e criado no Mato Grosso, viveu próximo à aldeia Bakairy, com a qual teve os primeiros contatos e conhecimentos sobre a cultura indígena.
Aos 20 anos de idade, no início da década de 70, tentando ganhar a vida em Cuiabá, viu um cartaz da Fundação Nacional do Índio (Funai) com anúncio de curso em Brasília para técnico indigenista. Veio ao Distrito Federal acreditando que voltaria para trabalhar no Mato Grosso. Terminou no Amazonas.
0 sertanista pertence ao primeiro grupo de técnicos indigenistas formados pela Funai em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), em 1971. Nostálgico, lembra do nome de todos os mestres que lhe deram aula. Nessa época participou da frente de atração que fez os primeiros contatos com os índios Waymiri-Atroary em Roraima, na divisa do Amazonas com as Guiarias. "Até hoje, só participei de duas expedições de primeiro contato com povos isolados", ressalta Sodré, com expressão no rosto de empolgação de quem gostaria de voltar no tempo para participar de mais aventuras.
Quando, enfim, voltou para o Mato Grosso, em 1985, trabalhou com 38 etnias. Retornou a Brasília em 1996 para trabalhar na sede da Funai. "Me aposentei em 1997, pensei em parar, mas os índios me pediram para continuar". Em 2001, instalou-se em Cuiabá para coordenar a área de políticas indigenistas da Funai no Mato Grosso.
Sodré conseguiu manter a família unida, feito raro entre os que passam a maior parte do tempo no mato. Casado com Adelaide, historiadora da Funai, tem três filhos e quatro netos. Ele lembra como foi difícil a família acompanhá-lo. "Meus filhos fizeram o ensino fundamental em aldeia. Tinham férias, mas queriam ficar na reserva. Hoje, estão todos formados e falam pelo menos uma língua indígena."
No Brasil hoje existem 47 povos sem contato com outras culturas. Sodré tem a confiança do povo indígena e do governo brasileiro para trazer e levar propostas dos dois lados. Por isso, foi escolhido pela Funai para dar continuidade ao trabalho de Apoena Meirelles - assassinado em 9 de outubro - na delicada tarefa de apaziguar o conflito entre os índios cinta-larga e garimpeiros, em Rondônia. "0 nome dele foi unanimidade entre os indigenistas da Funai", ressalta o presidente da Funai, Mércio Gomes Pereira. (HB)
Curiosidades
Hoje existem menos de 15 sertanistas no Brasil
Sertanistas com mais de 30 anos de carreira já pegaram malária pelo menos 25 vezes
O sertanista passa uma média de quatro meses sem ir à cidade
É preciso saber caçar, fazer fogo e pescar para sobreviver na floresta
CB, 23/10/2004, p. 20
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