CB, Economia, p. 24
24 de Jun de 2007
Produtores apostam na carne ecológica
Pecuaristas do Centro-Oeste investem na criação de gado orgânico, tratado em pasto sem agrotóxico, para conquistar o mercado externo
Luciano Pires
Da equipe do Correio
O conceito de que é possível produzir um alimento livre de resíduos químicos, em sintonia com o meio ambiente e dentro das mais rígidas normas trabalhistas e sociais chegou à pecuária comercial. As vantagens do boi orgânico são muitas e o apetite dos importadores, maior ainda. Mas não é só por isso que a agroindústria passou a investir a um ritmo que poucos setores ligados ao campo se atrevem. A aposta dos empresários também está na ampliação do mercado consumidor doméstico.
A criação de gado orgânico teve início no país há cerca de 10 anos. Quase que totalmente concentrado em Mato Grosso, o rebanho chega a 100 mil cabeças - a pecuária tradicional tem 200 milhões de animais. "É uma atividade que está consolidada, apresenta vantagens ao produtor e tem rentabilidade", diz Henrique Balbino, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Animais Orgânicos (Aspranor). "Nosso principal desafio é aumentar o rebanho", resume Balbino.
Com uma produção anual de 22,5 mil toneladas, a carne orgânica brasileira segue padrões internacionais. O pasto é livre de agrotóxicos, o gado não pode receber hormônios sintéticos e é tratado fundamentalmente com medicamentos homeopáticos - a exceção são as vacinas obrigatórias indicadas pelo Ministério da Agricultura a todos os bovinos. As peças não têm diferença de cor, textura ou sabor, comparadas às tradicionais. Todo o processo é certificado por empresas privadas, que fazem o monitoramento das fazendas. Essas companhias auxiliam pecuaristas que querem migrar para o modelo orgânico, transição que pode levar de um a três anos. Hoje, há 18 fazendas certificadas e aptas a produzir. Até dezembro, serão 28 propriedades.
Consumidor
Vendida nos supermercados das principais capitais do país, a carne ecológica e politicamente correta custa, em média, 20% mais ao consumidor. No Distrito Federal, a rede Pão de Açúcar comercializa o produto em caráter experimental. A procura tem sido positiva, apesar do preço. "É uma oportunidade que o consumidor tem de, indiretamente, ajudar na preservação do meio ambiente, no caso, o Pantanal, onde está a maior parte do rebanho", explica Michael Becker, coordenador do programa Pantanal para Sempre do WWF-Brasil. Segundo ele, o valor é proporcional ao que custa fazer com que a carne chegue à mesa das pessoas com todas as garantias que a escola orgânica exige. "A redução de preço não acontece de graça", completa.
O público que conhece e sabe dos benefícios da agropecuária limpa não se importa em pagar mais pelos produtos. Confiante nisso, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) estima que as vendas devem ultrapassar R$ 1,25 bilhão este ano - um crescimento de 25% em relação a 2006. A comercialização de produtos orgânicos se expande 30% ao ano e movimenta US$ 40 bilhões. Estados Unidos, Europa, Austrália e Argentina são os grandes pólos atualmente. No Brasil, os agricultores do DF são referência para o restante do país. Os brasileiros exportam 70% da produção orgânica - carnes e seus derivados, frutas e grãos, principalmente - para a Europa e os Estados Unidos.
Oferta é reduzida
A empresária Ana Lúcia Rodrigues bem que tentou, mas ainda não conseguiu incluir no cardápio de seu restaurante a carne orgânica. 0 preço e a instabilidade no fornecimento atrapalham os planos de incrementar o almoço e o jantar servidos no Tomate Cereja, que fica no shopping Casa Park. "0 corte orgânico custa três vezes mais. Além disso, não há tanta disponibilidade de carne assim", diz.
0 arroz, o feijão e as hortaliças são orgânicos e estão em praticamente todos os pratos. Ana Lúcia diz que fez pedidos a atacadistas de peças especiais, mas não obteve sucesso. "Ainda encontro dificuldades", explica. 0 restaurante, um dos poucos especializados nesse tipo de culinária, tem público cativo.
A escassez do produto tem explicação. Menos de 30% da carne orgânica nacional é destinada ao mercado interno. Ana Lúcia e outros empresários do ramo gastronômico sugerem aos frigoríficos que comercializem cortes pouco valorizados no exterior. "Poderíamos fazer hambúrgueres e picadinhos com partes mais baratas do boi orgânico", reforça. Os americanos e europeus, principais compradores da carne industrializada brasileira, pagam caro por cortes nobres como o filé mignon e miolos. (LP)
O perfil da pecuária orgânica brasileira
Produção: 22,5 toneladas / ano
Rebanho: 100 mil cabeças
Maior concentração: Mato Grosso
Tempo até o abate: 42 meses
Transição entre o modelo convencional e o orgânico: 1 a 3 anos
Custo de manutenção (incluindo impostos) do boi vivo:R$ 17/mês
Preço médio da carne: 15% superior ao corte não-orgânico
O que é
A carne orgânica é livre de quaisquer resíduos químicos como hormônios ou remédios estimulantes. O gado se alimenta de sal natural e pasto sem agrotóxicos. O modelo de produção respeita o meio ambiente, além das leis trabalhistas. Não há diferença de cor, textura ou sabor em comparação ao produto convencional
Sanidade
O boi é vacinado contra febre aftosa e algumas outras doenças, mas é tratado principalmente com medicamentos fitoterápicos e homeopáticos. O rebanho é rastreado e todas as informações estão ao alcance do consumidor. A garantia de procedência e qualidade é dada por empresas certificadoras privadas
No mundo
Europa, Estados Unidos e Austrália são grandes produtores e consumidores de carne orgânica há pelo menos três décadas
No Brasil
As primeiras fazendas brasileiras iniciaram os abates há cerca de 10 anos, mas a organização da cadeia produtiva só começou a ocorrer nos últimos cinco anos
Fonte: Entidades de produtores / WWF-Brasil
CB, 24/06/2007, Economia, p. 24
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