CB, Opinião, p. 16
30 de Abr de 2007
Produção responsável
A série de reportagens que o Correio Braziliense publicará até quarta-feira comprova um fato: o de que o Centro-Oeste está trocando a pecuária pelo plantio da cana-de-açúcar. É uma notícia alvissareira, já que o etanol deve se tornar, em breve, uma commodity tão importante quanto o petróleo. Mas, ao olhar para o retrovisor da história, o fenômeno traz uma preocupação relevante: estariam esses produtores conscientes de que o desenvolvimento do campo não pode ignorar leis e hábitos de proteção ao meio ambiente? Hoje, a maioria das usinas, a despeito dos protestos dos ambientalistas, queima as plantações para facilitar a colheita manual.
As queimadas indiscriminadas, além expor ao risco a fauna e as matas ciliares que protegem nascentes de rios, já estão cientificamente associadas ao aumento do aquecimento global. E não é só: as queimadas se tornaram um problema de saúde pública.
No ano passado, o secretário do Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg, proibiu temporariamente a queima da palha da cana-de-açúcar em lavouras paulistas por causa da forte estiagem e da baixa umidade relativa do ar. E, por fim, elas revelam a existência de outro grave entrave competitivo: apenas 30% da colheita é mecanizada, o que dispensaria a queima e seus nefastos efeitos à atmosfera.
Os produtores sucroalcooleiros são, obviamente, bem-vindos à região - um universo plano de terras cultiváveis e boa oferta de mão-de-obra. Mas é necessário, por exemplo, também definir previamente outras questões relevantes: derruba-se a vegetação nativa existente ou apenas ocupa-se a área já devastada para a pecuária? Há, ainda, outro fantasma - que os produtores do Nordeste e do interior paulista demoraram séculos para exorcizar: o que fazer com os rejeitos da produção do etanol? A vinhaça, o pior deles, é um subproduto que, jogado nos rios, mata peixes e plantas. Esse mesmo rejeito é rico em potássio e pode ser usado na irrigação e adubação das lavouras.
Por fim, governos, produtores e sociedade devem ser comedidos e responsáveis em outra variante: a oferta de água para irrigação.
Todos os novos projetos de usinas prevêem sua fixação em lugares onde há relativa oferta de água - esse, sim, comprovadamente, um bem escasso na região. Por isso, o temor de que a concentração excessiva dessas indústrias em determinadas regiões possa comprometer a oferta de água para as populações das cidades. Na era da globalização, não é mais admissível o uso do tradicional cobertor curto, que cobre o rosto e descobre os pés
CB, 30/04/2007, Opinião, p. 16
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