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Producao mais limpa e lucratividade

GM, Opiniao, p.A3
Autor: ALMEIDA, Fernando
10 de Ago de 2005

Produção mais limpa e lucratividade
Fernando Almeida
Ecoeficiência exige incorporação das médias, pequenas e microempresas.
As grandes empresas instaladas no Brasil têm dado exemplos muito significativos dos benefícios da ecoeficiência. Siderúrgicas como CSN e CST reaproveitam água e transformam calor em energia, reduzindo os gastos com insumo e o impacto do processo produtivo no meio ambiente. A Petrobras investe pesado na introdução do gás natural como fonte de energia, mais rentável e menos poluente, e em programas de biocombustível. Além de contribuir para conservar os recursos naturais, a conduta dessas empresas traz benefícios econômicos tangíveis e intangíveis.
Contudo, para que o setor empresarial brasileiro consolide de forma definitiva a cultura da ecoeficiência é preciso incorporar as médias, pequenas e microempresas. Afinal, esse segmento representa 99% dos 5,6 milhões de empresas do País e é a base da fonte de geração de emprego. Inseri-lo no contexto da sustentabilidade sempre foi uma preocupação do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).
Fundado em 1997 com a missão de liderar, junto aos grandes grupos empresariais, o processo de mudança para um novo modelo de desenvolvimento, o CEBDS articulou uma segunda vertente para atender às médias, pequenas e microempresas. Foi em parte uma resposta a perguntas que ouvimos com muita insistência de alguns interlocutores em nossas primeiras palestras sobre os benefícios econômicos, sociais e ambientais oferecidos pelo desenvolvimento sustentável: "Como as empresas menores, e portanto sem a mesma capacidade financeira, podem investir em ecoeficiência?".
Com apoio do Sebrae e coordenação nacional do CEBDS, foi criada a Rede Brasileira de Produção Mais Limpa, com objetivo bem definido: difundir o conceito de ecoeficiência e a metodologia de PmaisL (Produção mais Limpa) para as empresas de menor porte, baseado no modelo concebido pela ONU.
Na fase experimental do programa, entre 1999 e 2002, os resultados obtidos pelas empresas-piloto dos cinco primeiros núcleos estaduais (Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina) indicaram que estávamos no caminho certo. As cerca de 200 empresas participantes obtiveram, em três anos, uma redução de R$ 18 milhões por ano nos gastos com matérias-primas, água e energia. Para cada R$ 1 investido, houve um retorno de R$ 4.
Além dos ganhos econômicos, os benefícios ambientais foram animadores: redução anual de 6 milhões de toneladas de matérias-primas; economia de 350 mil metros cúbicos de água por ano; economia anual de três milhões de kWh; redução de consumo anual de 1 milhão de metros cúbicos de gás. Em relação aos impactos ambientais diretos, os números são, da mesma forma, positivos: menos 5,5 toneladas anuais de emissões atmosféricas; e menos 167 mil metros cúbicos/ano de efluentes líquidos industriais, 911 toneladas/ano de resíduos sólidos e 3,5 toneladas/ano de resíduos perigosos. Os processos de reciclagem tornaram possível o reaproveitamento de 230 toneladas/ano de resíduos diversos.
Estimulados pelos excelentes resultados da primeira experiência, Sebrae e CEBDS reforçaram a parceria e começaram a implantar, a partir de 2002, núcleos em outros 13 estados da Federação (Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santos, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Sergipe). Portanto, hoje temos no País núcleos em 18 estados, faltando muito pouco para atingirmos todas as 23 unidades da Federação. Nesta segunda fase foi necessário um investimento de R$ 2,4 milhões, proporcionando uma redução anual de R$ 5,6 milhões com gastos em matérias-primas, água e energia.
O desafio de implantar a cultura da ecoeficiência nas empresas de menor porte pode ser aferido pela última pesquisa contida no Relatório da Competitividade da Indústria Brasileira: 57,5% das microempresas não adotam qualquer prática de gestão ambiental, enquanto, entre as grandes empresas, esse percentual cai para 5%.
Para superar as dificuldades do nosso país nessa área – extensão territorial e pouca disponibilidade de recursos para investimentos – torna-se urgente aprofundar as parcerias entre empresas e governos. Um dos instrumentos capazes de impulsionar esse processo é o Grupo Interinstitucional de Produção Mais Limpa, criado pelo governo federal como reflexo de um compromisso político do Ministério do Meio Ambiente.
Ecoeficiência na estratégia e produção mais limpa na prática significam hoje maior competitividade, melhor gestão ambiental, melhor relacionamento com grupos de interesse, mídia e agências de controle ambiental. Significam também incremento tanto na auto-estima dos funcionários quanto na reputação da empresa com a sociedade.

Fernando Almeida - Presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), professor adjunto da UFRJ e autor do livro "O Bom Negócio da Sustentabilidade".)

GM, 10/08/2005, p. A3

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