OESP, Economia, p. B7
28 de Ago de 2011
Produção do etanol tem pior momento em 11 anos
A quebra na safra ocorre, principalmente, por causa da crise de 2008, que diminuiu os recursos dos produtores para renovar o canavial
Chico Siqueira
Mais que a queda de produção, as seguidas revisões para baixo da safra 2011/2012 revelam que a cadeia produtiva da cana-de-açúcar vive o pior momento dos últimos 11 anos. E a recuperação do setor para atender o descompasso entre demanda e oferta do mercado depende de um novo ciclo de desenvolvimento, semelhante ao ocorrido na década passada, ao custo de R$ 80 bilhões.
Ao contrário da crise de 1999/2000 - quando o setor enfrentava forte desregulamentação e o desafio era conter a oferta por causa da produção excedente e dos preços baixos - desta vez, o problema é oposto. A falta de matéria-prima eleva os preços dos produtos no Brasil e no exterior, colocando em dúvida a capacidade do setor de atender um mercado pressionado pela alta demanda de açúcar e de álcool combustível.
A possível quebra de 8% a 15% na safra de cana e de até 20% na produção de etanol na região Centro-Sul - responsável por 50% da cana e 60% do álcool produzido no País - embora atribuída diretamente ao envelhecimento do canavial, às adversidades climáticas e à queda de qualidade da matéria-prima, é fruto da conjuntura econômica pós-crise de 2008. "Vivemos hoje a soma de todos os males. Houve problemas de clima, de falta de investimento nas plantações e de falta de planejamento. A crise de 2008 não foi uma marola, mas uma onda gigante para surfistas profissionais, que surte até agora seus efeitos", afirma o vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa de Carvalho.
"Com a crise, os produtores e a indústria ficaram sem recursos para financiar a renovação do canavial", explica Carvalho, também sócio da Consultoria Canaplan, que recentemente divulgou revisão da safra com quebra de 14,38%. Ele lembra que o setor precisaria crescer de 7% a 8% ao ano e construir 15 novas usinas de médio porte por ano até 2020 para abastecer a frota de flex e o crescimento vegetativo 2% do consumo mundial de açúcar.
Representante da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto, Sérgio Prado, diz que o setor vinha de um crescimento de 10% ao ano com a instalação de 90 indústrias entre 2003 e 2008, mas que, após a crise de 2008, os investimentos acabaram por falta de crédito. Mesmo assim, a quebra de safra não era esperada. "Ainda em 31 de março de 2011, estimávamos um crescimento de 2% na safra deste ano", diz.
Na sua última revisão, a Unica previu uma queda de safra de 8,4%, de 557 milhões de toneladas de cana da safra passada para 510 milhões para a safra atual. A entidade estima que a produção de álcool hidratado caia em 20% e a de açúcar em 8%. "O problema é que pela primeira vez na história a produtividade da região Centro-Sul será superada pela do Nordeste", diz Carvalho.
"Em 60 anos de atividade, poucas vezes passamos por uma fase tão ruim como essa. Os últimos três anos foram de sofrimento, de total falta de recursos. Com isso, os produtores não cumpriram com suas obrigações com a renovação dos canaviais e não fizeram o manejo adequado", diz o agricultor José Coral, presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo, entidade que reúne 5 mil fornecedores independentes.
Para Coral, das 43 milhões de toneladas produzidas pelas 22 usinas e 5 mil produtores da região há três anos, a produção cairá, na safra atual, para 32 milhões de toneladas. "Isso demonstra que o desânimo e a falta de investimento no campo vêm caindo faz três safras", explica.
"O lado bom é que esta crise reajustou os preços da cana, melhorando a remuneração, o que dá um ânimo para que os produtores possam renovar os canaviais", diz. Segundo ele, o preço pago aos produtores, em torno de R$ 47,00 a tonelada na safra passada, deverá subir para R$ 65 a R$ 70 a tonelada na safra atual.
Para profissionais
Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, presidente da Abag
"Houve problemas de clima, falta de investimento nas plantações e falta de planejamento. A crise de 2008 não foi uma marola, mas uma onda gigante para surfistas profissionais."
Uso de alta tecnologia diminui impacto da crise
Dona de 8 mil hectares de cana no interior de São Paulo, a Agro-Pastoril Paschoal Campanelli, sediada em Bebedouro (SP), escapou da crise ao fazer uso de alta tecnologia na colheita e de agricultura de precisão na correção do solo e no manejo das plantações de suas propriedades, espalhadas pela região Noroeste do Estado.
"Vamos ter uma quebra de apenas 5% com a quebra da safra", diz o engenheiro agrônomo e diretor da empresa Victor Campanelli. Segundo ele, isso possível devido à introdução de técnicas de manejo modernas que incluem a fertilização variada do solo.
A empresa também contou com ajuda do satélite para reduzir as perdas na colheita. "Todas nossas colheitadeiras funcionam com piloto automático", diz Campanelli.
O uso do piloto automático faz com que a máquina siga um trajeto de colheita, estabelecido por meio de informações enviadas ao satélite, que não prejudique a área de infiltração das raízes da cana.
Investimentos necessários para recuperação chegam a R$ 80 bi
Para entidades do agronegócio, empresas e governo precisam discutir formas de retomar expansão do setor
Para consultores, produtores e empresários ouvidos pela reportagem, a recuperação somente será possível comum novo ciclo de desenvolvimento semelhante ao da década passada, quando produção e o número de unidades dobraram, mas foram insuficientes para atender à demanda. "Para equilibrar a oferta e demanda nos mercados internos e externo, precisaremos moer 400 milhões de toneladas de cana em dez anos", diz Sérgio Prado, representante da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica)em Ribeirão Preto. Para isso, diz, será o necessários R$80 bilhões para serem investidos no campo, na renovação e no plantio de novas áreas de canaviais e na expansão e instalação de novas unidades industriais.
"Isso equivale à instalação de dez usinas com capacidade para moer4milhõesdetoneladas por ano", diz. Nasafra 2011/2012, estava prevista a instalação de cinco novas unidades. Três delas tiveram de ser transferidas para a próxima safra (2012/2013). Segundo o consultor Luiz Carlos
Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileiro do Agronegócio, essa recuperação precisa começar com a imediata renovação dos canaviais,que demoram entre dois e três anos para produzir novamente e cuja área de envelhecimento ainda não é possível de ser calculada.
Para a pesquisadora Míriam Bacchi, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), "o momento é de repensar a política para o setor". Segundo ela, governo e iniciativa privada precisam estabelecer uma agenda para a retomada dos investimentos que dê segurança aos investidores e que haja investimentos em tecnologia para aumentar ganhos de produtividade e reduzir custos de produção.
"É preciso uma política eficiente de estoques, uma revisão da política tributária com desoneração do ICMS em alguns Estados, investimentos em novas unidades e expansão do plantio, com vistas a reduzir ao menor custo a produção do etanol. É preciso também uma política clara de combustível para dar segurança ao investidor e que as intervenções governamentais não se deem diretamente, como ocorreu este ano, quando o governo usou a BR Distribuidora para controlar preços", diz.
Diálogo. Mas, para chegar a um consenso, é necessário que as lideranças da cadeia se unam e tenham diálogo com o governo federal, o que não vem ocorrendo de forma satisfatória.
"É preciso que o setor encontre uma união, porque hoje ele está dividido por interesses individuais- não no caso de São Paulo, mas de outros Estados", diz Celso Junqueira, presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop),quereúne70unidades de seis Estados.
"Há necessidade de se estabelecer diálogo mais eficiente com o governo federal, que ainda julga o setor como sendo 'do mal'", diz."Um exemplo são essas revisões de safra, encaradas pelo governo como se o setor estivesse omitindo informações, o que não é verdade", diz. Outro problema, segundo Junqueira, está na falta de democratização dos financiamentos oficiais. "Apenas as grandes empresas tiveram acesso ao BNDES e Banco do Brasil, as mesmas que têm acesso aos financiamentos de outros bancos.".
Escassez
400 mi de toneladas de cana precisariam ser moídas num prazo de 10 anos para equilibrar a oferta e a demanda, de acordo com cálculos da Unica
OESP, 28/08/2011, Economia, p. B7
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