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Pressão excessiva no solo

O Globo, Economia, p. 17
20 de Mar de 2012

Pressão excessiva no solo
Chevron e Transocean poderiam ter evitado vazamento, mas executivos insistiram em perfurar, dizem PF e MP

Daniel Haidar, Bruno Rosa e
Ramona Ordoñez
economia@oglobo.com.br

Os 17 executivos e funcionários da Chevron e da Transocean, impedidos de deixar o Brasil pela Justiça Federal, poderiam ter evitado vazamento de óleo na Bacia de Campos se não tivessem insistido em perfurar o poço no campo de Frade com pressão superior à tolerada pelo solo. É o que apontam documentos do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. O envolvimento direto ou indireto desses executivos na perfuração foi o principal argumento do MP para obter a apreensão de seus passaportes na noite de sexta-feira.
Entre os executivos está George Buck, presidente da Chevron, petrolífera americana que opera o campo de Frade, e Guilherme Dantas Rocha Coelho, diretor-geral da Transocean, contratada para perfurar o poço onde houve um vazamento em novembro. O documento do MP cita as responsabilidades dos 17 funcionários envolvidos. O inglês Brian Mara, sondador da Transocean, por exemplo, "deixou de realizar procedimentos existentes para a contenção do vazamento". E alguns executivos disseram em depoimento que o risco de perfurar era "aceitável".
Em novembro, houve vazamento de 2,4 mil barris de petróleo no Frade. No dia 4 deste mês, foi detectada nova mancha de óleo, a três quilômetros do local anterior. De acordo com a Marinha, a extensão do derramamento chegou a um quilômetro. Foram identificados uma fissura de 800 metros e o afundamento do solo do oceano.
Segundo o documento do MP, que teve por base relatório da PF, a causa do primeiro acidente ocorreu por insistência de Chevron e Transocean em perfurar com pressão de 9,5 libras por galão, ultrapassando o limite suportável pela parede do poço. Estudos geológicos indicavam que o campo tinha pressão limite de 9,4. O poço não suportou e vazou óleo para o oceano. O segundo vazamento, agora em março, seria uma decorrência do primeiro, segundo especialistas.
ANP: cinco pontos de vazamento l
Para fechar o poço, os técnicos responsáveis pela sonda acionaram um tampão, que "não foi totalmente fechado por ineficiência da Chevron", destaca o relatório do procurador da República Eduardo Oliveira na denúncia enviada à Justiça. As empresas voltaram a abrir o poço para tentar controlá-lo e recuperar a chance de extração. A insistência, de acordo com as investigações, causou uma explosão e abalou a frágil formação geológica do campo. Só depois é que o local foi fechado e cimentado com sucesso, mas ainda permaneceu vazando em pequena quantidade por meses.
- Eles injetaram uma pressão absurda em cima de um reservatório que não aguentava. Este poço não podia e não devia ter sido perfurado por causa das condições ali presentes, as paredes do poço não aguentavam a pressão que seria suficiente para controlar o reservatório de petróleo, mas ao que tudo indica a ganância fez com que se pusesse em prática o risco proibido - ressaltou Fábio Scliar, delegado da PF responsável pelo caso.
O diretor de Tecnologia e Inovação da Coppe/UFRJ, Segen Estefan, fala em possibilidade de falha geológica, mas destaca a questão da pressão: - Quando se faz o processo de perfuração, dependendo da pressão do reservatório, é preciso colocar um contrapeso na broca. E aí pode ter fraturado a rocha, que é o que encapsula o óleo. Seria como um vaso quebrado.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) informou que, na última semana, encontrou cinco pontos de vazamento de pequenas gotas de óleo na rachadura no solo marinho. A identificação dos locais por onde está vazando petróleo foi feita por filmagens submarinas da Chevron. O diretor de Assuntos Corporativos da petrolífera, Rafael Jaen, informou que foram instalados nesses pontos equipamentos de segurança que absorvem as bolhas (cerca de sete por dia), os mesmos utilizados no acidente de novembro. Jaen explicou que a mancha de óleo no local é equivalente a1,5 litro, menor do que a de cinco litros informada inicialmente.
A produção no Frade foi suspensa no fim de semana, após a autorização dada pela ANP na sexta-feira. Foi criada uma equipe de 30 técnicos, formada por geólogos, geofísicos, engenheiros de petróleo das três empresas que integram o consórcio do campo: Chevron, Petrobras e Japão Frade. A equipe fará estudos para descobrir o que provocou a segunda fissura.
- Não encontramos nenhuma outra fissura. Por enquanto não há qualquer evidência de que essa rachadura tem alguma ligação com o problema anterior - disse Jaen.
O Tribunal Regional Federal (TRF) está analisando recurso do procurador Eduardo Oliveira que pede a suspensão imediata das atividades da Chevron no Brasil. Na primeira instância, a Justiça Federal do Rio havia negado a liminar. Amanhã, o procurador vai oferecer denúncia criminal à Justiça Federal de Campos contra as empresas e os 17 funcionários da Chevron e da Transocean. Com base no inquérito da PF e nos laudos da Marinha e da ANP, haverá denúncia por crime ambiental e falsidade ideológica.
Procurados, nem o ex-governador do Rio Nilo Batista, advogado da Chevron, nem Linneu de Albuquerque Mello, advogado da Transocean, quiseram se manifestar.
A Marinha confirmou para hoje seu segundo sobrevoo sobre a região do vazamento, em um helicóptero da Chevron.

'WSJ': Frade era aposta de risco
Presidente da Chevron para a AL determinou pressa em 2008

As perfurações no campo de Frade eram consideradas uma aposta arriscada, conforme admitiu o próprio presidente para América Latina e África da Chevron, Ali Moshiri, ao "Wall Steet Journal", em uma reportagem publicada em outubro de 2008. Essa reportagem foi citada pelo delegado da Polícia Federal Fábio Scliar em seu relatório sobre o vazamento ocorrido em novembro do ano passado. Moshiri, na ocasião, justificou os riscos lembrando que acabou o tempo das grandes reservas de petróleo fáceis de explorar, conhecidos na indústria como elefantes. "Se você só for atrás de elefantes, nunca vai caçar", disse Moshiri ao "Journal".
A reportagem conta que Moshiri estava envolvido com o campo de Frade desde 2001, quando assumiu o cargo após a fusão de Chevron e Texaco. "Era um projeto que foi contestado desde o primeiro dia", contou. A Texaco pretendia construir uma grande plataforma no local, o que Moshiri descartou por ser muito caro.
Moshiri, segundo o "Journal", esperava que o campo de Frade se tornasse um padrão para exploração em locais semelhantes. Mas tinha pressa: para ganhar tempo e dinheiro, ele vetou abordagens convencionais, mais demoradas, e reciclou equipamentos antigos.
A Chevron tentava desenhar um plano de baixo custo quando descobriu que o petróleo não estava em uma "colmeia" de pequenos reservatórios. A colmeia teria tornado a exploração economicamente inviável. A equipe que trabalhava no campo de Frade queria perfurar mais poços para melhor entender o local. Mas Moshiri disse que isso era muito caro e demorado e defendeu a perfuração de menos poços, mais simples e baratos.
Muitos dos engenheiros envolvidos no projeto estavam habituados a locais de fácil exploração e achavam o campo de Frade perda de tempo. Moshiri lembrou-os de que esse tempo acabara.
Plataforma tinha 30 anos e foi adaptada para águas profundas
Em agosto de 2004, um diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) criticou a empresa, dizendo a uma publicação setorial que a Chevron não estava se esforçando para desenvolver o local. Moshiri e uma equipe de engenheiros e geofísicos da Chevron foram ao Rio para uma série de reuniões com a agência. Ele disse ao "Journal" que os técnicos se convenceram.
O plano original da Chevron era perfurar metade dos 19 poços planejados, começar a produzir petróleo, depois estudar os dados por 18 meses antes de perfurar os restantes. Era uma abordagem conservadora. Se os primeiros poços não parecessem bons, a empresa poderia desistir dos outros e reduzir as perdas.
Mas, enquanto os geólogos da Chevron aconselhavam a ir devagar, Moshiri decidiu, em meados de 2005, apostar alto no campo de Frade. Eles perfurariam todos os poços, um atrás do outro, sem intervalo. "Este é nosso trabalho, assumir riscos", afirmou Moshiri.
Temendo perder a oportunidade de explorar o local, Moshiri decidiu correr. A Chevron foi atrás de uma plataforma. Em novembro de 2005, conseguiu uma para adaptação.
A Sedco 706, construída em 1976, não era adequada para a moderna exploração em águas profundas e nem estava operando. A Chevron propôs à dona da plataforma, a Transocean, um contrato de três anos, de US$ 315 mil por dia, se esta adaptasse a Sedco - citada no relatório da PF - para o serviço. A Transocean concordou. Para levar a plataforma ao local, a Chevron recorreu a outra quase-sucata: o navio-tanque Lu San, cuja vida útil começara nos anos 1970, com o armador grego Aristóteles Onassis.
No fim, o "Journal" lembra que permaneciam dúvidas sobre o campo de Frade. "Apesar de anos de modelação computacional, a Chevron não sabe quanto óleo as rochas contêm ou a localização exata do reservatório."

O Globo, 20/03/2012, Economia, p. 17

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