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Preservação de papel

O Globo, Razão Social, p. 6-7
31 de Jan de 2012

Preservação de papel

Martha Neiva Moreira
martha.neivamoreira@oglobo.com.br

O Brasil tem o equivalente a 350 mil campos de futebol de área verde preservada por empresas, ou 350 mil hectares. O dado é do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e revela, como mostrou a reportagem "Reservas que preservam", da edição passada do Razão Social, que já é uma tendência entre as corporações criarem Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) no país. Mesmo assim, por mais que a prática pareça disseminada, o empresariado nacional ainda está longe de atingir, segundo ambientalistas, um estágio de consciência sobre conservação da biodiversidade.
A afirmação faz sentido se levarmos em conta a relação entre a área total de unidades de conservação - 695 mil hectares - e a área devastada não só por pessoas físicas ou pequenos agricultores como por grandes empreendimentos. A estimativa do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), dá conta de que entre 2010 e 2011 foram desmatadas, só na Amazônia, cerca de 625 mil hectares (ou 6.238 km²).
Amparado por dados como este, o veterinário e zoólogo Cloves Borges, que atua há 30 anos em projetos de preservação da biodiversidade, diz que a superfície preservada por iniciativa de empresas ainda é irrisória diante do que seria necessário.
- O Brasil foi um dos signatários do Protocolo de Nagoya ( firmado por 193 países durante a Conferência da Diversidade Biológica, em 2010, no Japão, que prevê que até 2020 os países terão que ampliar o percentual de áreas conservadas dos atuais 10% para 17%), mas a quantidade de área preservada talvez não chegue, ainda, perto dos 13% do território nacional. A participação das empresas nisso é mínima diante do potencial financeiro que teriam para investir em conservação - contou Borges, que esteve no Rio há duas semanas para participar do "Encontro de Ideias", evento promovido pelo Instituto EBX para debater como as cidades podem ser tornar mais inclusivas (ver box).
Borges ressaltou que as corporações costumam registrar RPPNs muito mais por obrigação legal, para compensar danos ambientais, do que pela consciência de que é importante preservar a natureza. Em 30 anos de trabalho, Borges tem observado que, no Brasil, criar uma área de preservação ambiental significa "botar uma cerca em torno de um espaço verde, muitas vezes em locais que não necessariamente precisam ser preservados, e não investir em projetos de pesquisa de conservação das espécies".
- Há muita falta de planejamento sobre onde criar áreas de preservação. Só recentemente temos acesso aos dados de georreferenciamento, mas a verdade é que faltam dados para fazer um planejamento de onde é melhor criar unidades de conservação. Por isso, algumas áreas registradas são em locais que não exigem preservação. Além disso, das unidades de conservação que existem, poucas têm projetos de pesquisa. Depois de 30 anos de trabalho, não consigo encher uma mão com exemplos de empresas que, de fato, investem em projetos de manejo e pesquisa de áreas de conservação - completou.
Um dado da Confederação Nacional de Reservas Particulares de Patrimônio Natural, que reúne todos os proprietários de RPPNs de todas as regiões do país, reforça a percepção do ambientalista. A presidente da entidade, Ana Maria Juliano, informa que, embora seja uma exigência legal criar planos de manejo, apenas em 20% delas são desenvolvidos, de fato, projetos.
Mas por que embora sejamos uma potência verde deixamos a desejar no quesito preservação e, mais do que isso, as empresas que têm potencial financeiro para investir em conservação ainda não o fazem? Cloves Borges responde lacônico:
- A natureza impressiona pela beleza por cinco minutos. Depois, as pessoas esquecem.
E completa com uma explicação mais consistente:
- Hoje a questão climática e o combate à pobreza parecem mais urgentes do que qualquer debate sobre preservação da biodiversidade. Fala-se mais em aquecimento global nos debates sobre sustentabilidade do que em preservação da biodiversidade, e pouco ainda se relaciona os temas com uma perspectiva econômica.
Para Borges, a preservação das florestas é um forte instrumento de combate ao aquecimento global, pelo sequestro de carbono, e, também, de inclusão social, pela possibilidade de geração de renda pela venda de serviços ambientais. Mas o zoólogo acredita que o Brasil está acordando para a visão estratégica que alia conservação da biodiversidade e ganho financeiro.
É o que pensa também a bióloga Irene Garay, do Departamentode Botânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Embora seja otimista e cite que projetos de compensação ambiental já são "melhor que nada", ela observa que para disseminar a ideia de que conservação tem a ver com ganhos financeiros será preciso que empresários façam muito mais do que cercar áreas verdes e registrar com RPPNs. Eles precisam, segundo ela, ter interesse em conhecer a região entorno de seus empreendimentos.
- As empresas têm o hábito de criar áreas protegidas em regiões próximas de seus empreendimentos. Cercam para compensar eventuais danos ambientais de suas operações. Se os gestores gastassem algum tempo para conhecer as comunidades e a natureza da região, certamente entenderiam que poderiam ter retorno financeiro e de imagem desenvolvendo projetos de responsabilidade social consistentes de geração de renda para comunidades, a partir da preservação.

O Globo, 31/01/2012, Razão Social, p. 6-7

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