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'Prêmio Nobel ajudará a convencer os políticos'

OESP, Vida, p. A20
Autor: MUNASINGHE, Mohan
17 de Out de 2007

'Prêmio Nobel ajudará a convencer os políticos'
Para especialista cingalês, prioridade agora não é manter debate científico, mas persuadir os tomadores de decisão

Cristina Amorim

O economista e físico Mohan Munasinghe foi um dos vencedores do Prêmio Nobel da Paz de 2007. Ele é vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e, na condição de natural do Sri Lanka, sabe que reunir mitigação de efeito estufa, sustentabilidade e desenvolvimento é um dos principais desafios deste século.

Na semana que vem, ele participa, no Rio, de um encontro de especialistas do IPCC para debater como países em crescimento podem lidar com a crescente emissão de gases-estufa. Realizado pela Secretaria de Estado do Ambiente do Rio e pela Companhia Vale do Rio Doce, o evento debaterá maneiras de transformar as discussões em políticas públicas no Brasil. Munasinghe acredita que o Nobel possa colaborar nesse sentido, por dar "grande força no convencimento dos tomadores de decisão".

O Prêmio Nobel calou os críticos do aquecimento global?

Ele ajudará a convencer os políticos. Mas esta não é uma competição entre o IPCC e os críticos, porque 99% da comunidade científica concorda com o IPCC, e os chamados "críticos" são muito poucos. Estamos interessados não em um debate científico mas em convencer os tomadores de decisão. O 4o Relatório do IPCC coloca muita ênfase, primeiro, em ciência de qualidade, mas em segundo lugar na disseminação, em levar essa mensagem àqueles que tomam a decisão. O prêmio foi concedido pela descoberta do fato, mas também por expô-lo.

O Nobel deu peso político ao consenso científico em relação ao aquecimento global?

Sim, claro. Ele diz que a comunidade internacional reconhece o trabalho e o ponto de vista do IPCC, então nos dá grande força no convencimento dos tomadores de decisão e da população em geral.

Como o Nobel impacta o debate sobre um futuro acordo sobre o gerenciamento das emissões de gases-estufa, em substituição ao Protocolo de Kyoto?

Ele terá um impacto muito positivo nas discussões em Bali (onde ocorre, em dezembro, a conferência anual da ONU sobre mudanças climáticas), porque até agora não houve movimentação suficiente nas discussões prévias sobre o que pode vir depois do Protocolo de Kyoto. Eu espero que o prêmio forneça vigor para essas discussões e nos permita chegar, em Bali, a um entendimento preliminar. Assim, quando o protocolo expirar, em 2012, bem antes disso tenhamos um novo acordo. E não estamos falando apenas do Protocolo de Kyoto mas também de um (acordo) de longo prazo. O fato de o prêmio ter sido dado ao IPCC pelo comitê da paz enfatiza que mudanças climáticas não são um tema científico isolado, nem uma questão política isolada, mas uma questão de segurança para todo o planeta. Porque envolve os seres vivos, os recursos naturais, o bem-estar humano, condições econômicas e mais.

O presidente dos Estados Unidos ligou para o IPCC para comentar o prêmio?

Não. Acredito que a Casa Branca tenha feito algum comentário sobre Al Gore ter recebido o prêmio. Você pode tirar suas próprias conclusões.

Aqui, fala-se muito sobre mitigação por meio do mercado de carbono. Essa é mesmo a principal ação mitigatória que o Brasil pode tomar, sem sacrificar o crescimento social e econômico?

O principal desafio, ao lidar com a mudança climática, é permitir o desenvolvimento sustentável das nações. Isso significa que, quando você assume ações de mitigação e adaptação não é preciso abrir mão do crescimento. Você precisa ajustar os padrões de crescimento econômico para também lidar com as mudanças climáticas. Isso vale para o Brasil. Há um dispositivo específico na Convenção de Mudanças Climáticas da ONU sobre responsabilidades comuns, porém diferenciadas. É responsabilidade comum que todos nós devemos mitigar, porém é diferente - e isso é parte do Protocolo de Kyoto - que as nações industrializadas, que carregam a responsabilidade maior pelas emissões de gases-estufa no passado, têm uma responsabilidade especial na mitigação.

Como os países pobres podem lidar com o crescimento de suas emissões de gases-estufa?

Países como o Brasil claro que podem se desenvolver e suas emissões crescerão, e terão de encontrar métodos para mitigar. Porém, hoje em dia, existe o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Suas emissões são, de forma geral, baixas, não há obrigação de se reduzir. Países industrializados devem fornecer, pelo MDL, meios de os países pobres evitarem a mesma história.

Uma das ações mitigatórias preferidas do governo brasileiro é o etanol e, recentemente, houve uma discussão sobre o plantio de cana na Amazônia - que, por sua vez, ajuda a combater o efeito estufa. No debate climático, qual tema tem mais peso: o etanol, como substituto de combustíveis fósseis, ou a floresta, como sumidouro de carbono?

Essa é uma pergunta técnica que não cabe em uma resposta curta. Mas, de forma geral, você tem a adaptação, a mitigação e o desenvolvimento. Se consegue-se reunir esses três fatores, obtém-se uma política de ganho triplo.

O Brasil não aceita metas obrigatórias de redução das emissões de gases-estufa. O País deveria mudar de posição?

As emissões per capita são um importante parâmetro para se decidir como mitigar. Se você pega um país como China, Índia ou Brasil, as emissões per capita são ainda muito baixas. Mas isso não significa que, no futuro, alguma obrigação não se faça necessária. É preciso ter cuidado com a taxa de crescimento de emissões.

Quem é: Mohan Munasinghe
Natural do Sri Lanka, é um dos três vice-presidentes do IPCC, ao lado do russo Yuri Izrael e do queniano Richard Odingo

É fundador e presidente da ONG Munasinghe Institute for Development (Mind)

É pós-graduado em física, engenharia e economia. Estudou na Universidade Cambridge e no MIT, entre outros

OESP, 17/10/2007, Vida, p. A20

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