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Preço baixo da terra atrai produtor

OESP, Economia, p. B10
07 de Set de 2008

Preço baixo da terra atrai produtor
Em Roraima, hectare de terreno fértil custa até R$ 1,5 mil, valor muito abaixo do cobrado em áreas tradicionais

Roldão Arruda
Enviado especial
Boa Vista

A área onde surge o primeiro grande projeto de produção de biocombustível em Roraima, ao longo da BR 401, fica no hemisfério norte, próxima à linha do Equador. É coberta por vastas planícies. Tão vastas que lembram o pampa gaúcho. Ao fundo, avistam-se cadeias de montanhas que seguem corcoveando em direção à Guiana. A terra é coberta por gramíneas, arbustos e árvores de pequeno porte, que fazem lembrar outro cenário brasileiro: o do cerrado de Goiás e Tocantins.
Investir e plantar aqui tem vantagens e desvantagens. Na opinião do fazendeiro e ex-secretário de Agricultura Álvaro Callegari, que veio para a região nos anos 80, seguindo os passos do pai, um pecuarista gaúcho, a maior vantagem da área é a topografia. "O solo é muito plano, ideal para a mecanização", observa.
Com base nessa vantagem, todo o projeto de abastecimento da usina, em fase de implantação, será mecanizado: do plantio à colheita. "Vamos utilizar pouquíssima mão-de-obra", prossegue o fazendeiro.
Outra vantagem, destacada por mais de um produtor, é o preço da terra - muito menor que o das regiões produtoras tradicionais. Um hectare de terra titulada nas proximidades da BR 401, propício tanto para a produção de soja quanto para a de cana-de-açúcar,custa no máximo R$ 1,5 mil. Em Rio Verde, município goiano cuja economia cresce velozmente no embalo da soja, o hectare pode bater em R$ 15 mil.
"Lá em Rio Verde eu era arrendatário de terras", diz Afrânio Vebber, um dos maiores plantadores de soja de Roraima. "Aqui sou proprietário."
CHUVAS
Outro fator positivo destacado por fazendeiros é a abundância de água no subsolo e o regime de chuvas:bem definido,permite planejar o cultivo com segurança. A taxa de insolação também é sempre lembrada. "O sol constante garante um teor de açúcar muito elevado e um ciclo de produção mais curto", diz Callegari. "Aliás, quase todas as culturas têm ciclos curtos por aqui. Enquanto nas regiões Sul e Centro-Oeste o milho precisa de 120 dias para completar seu ciclo, aqui 90 dias bastam."
Na lista de desvantagens pode ser mencionada, em primeiro lugar, a baixa fertilidade do solo-o que exige investimentos na sua recuperação. Em Roraima, onde tudo tem de ser comprado em regiões muito distantes, isso significa uma elevação considerável nos custos.
"O hectare plantado fica na faixa dos R$ 5 mil", registra o ex-secretário da Agricultura.
"Isso é muito alto, se comparado com outras regiões do País.
A notícia boa é que esse custo tende a baixar, assim que aumentarmos a escala de compras"
A lavoura também necessita de sistemas bastante eficientes de irrigação para enfrentar o longo verão local: um período de quase seis meses sem chuvas. Por essa época são freqüentes as ocorrências nas regiões de lavrado e de savanas que cobrem boa parte de Roraima.
"Com os canaviais, teremos uma proteção maior, que vai ajudar a evitar esses incêndios", prevê Callegari.
TÍTULOS
Outro problema crônico de Roraima - e da maior parte dos Estados da Amazônia- é a falta de titulação legal das propriedades. A faixa onde Callegari se instalou é uma das poucas onde os títulos estão de acordo com as normas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Ao lado dali, terras não legalizadas podem ser compradas por R$ 500 o hectare.
A propósito: o pequeno grupo de grandes arrozeiros que insiste em ficar no interior da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, demarcada em 2005 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e situada a quase 200 quilômetros da fazenda de Callegari, não possui títulos legais de propriedade.
Outra desvantagem são as restrições ambientais. No caso da Fazenda Livramento, de Callegari, só metade dos seus quatro mil hectares pode ser utilizada para a agricultura. A área restante deve permanecer inexplorada, ocupada por áreas de reserva legal e de preservação permanente.
O processo de implantação da usina da Biocombustível está sendo analisado e fiscalizado pela Fundação Estadual do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia. Segundo o presidente da instituição, Daniel Gianluppi, o processo encontra-se em período de audiências públicas e, se não surgirem problemas, em outubro deve ser concedida a autorização para o início das obras, na cidade de Bonfim.

OESP, 07/09/2008, Economia, p. B10

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