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Povos Indígenas do Xingu estarão na I Feira de Iniciativas Socioambientais

Y Ikatu Xingu - www.yikatuxingu.org.br
14 de out de 2008

Evento acontecerá em Canarana, no Mato Grosso, de 16 a 18 de outubro, e terá estandes com amostras do trabalho desenvolvido pelas etnias Kaiapó, Ikpeng, Xavante, Panará, Kisêdjê, Yudjá, Kaiabi e Kamayurá para a conservação dos recursos naturais da Bacia do Xingu.

Por Sara Nanni, do ISA

A I Feira de Iniciativas Socioambientais acontecerá em Canarana, no Mato Grosso, de 16 a 18 de outubro, e reunirá todos os setores da sociedade mobilizados pela campanha Y Ikatu Xingu, lançada há quatro anos, para a conservação dos recursos naturais da Bacia do Xingu, em especial a restauração das matas ciliares. As iniciativas socioambientais desenvolvidas pelos índios serão representadas nesse evento pelas etnias Kaiapó, Ikpeng, Xavante, Panará, Kisêdjê, Yudjá, Kaiabi e Kamayurá. Enriquecimento de quintais e pomares, coleta, beneficiamento e venda de sementes de espécies de árvores nativas, apicultura, artesanato e resgate da alimentação tradicional são alguns exemplos do que o público poderá conferir nos estandes.

Os Xavante levarão para a Feira de Iniciativas o Projeto UHÖ de manejo de queixada. O povo Xavante depende da carne dos animais silvestres para sua sobrevivência física, espiritual e cultural, e a queixada (UHÖ) é uma das espécies preferidas. Em 2005, a aldeia Wederã, localizada na Serra do Roncador, iniciou um estudo sobre a ecologia da queixada com técnicas de rastreamento e radiotelemetria, unindo conhecimentos tradicionais e científicos. O objetivo era realizar o manejo sustentável de caça de queixadas no território Xavante para promover a conservação do Cerrado e da cultura tradicional desse povo, além de estimular nos jovens a vontade de caçar, atividade que começou a ser esquecida desde o início do contato com o homem branco.

Através dos resultados desse estudo, os Xavante começaram a perceber que estavam exercendo uma pressão muito grande de caça sobre a queixada nas proximidades das aldeias. As medidas de fiscalização do território e o acesso a novas áreas de coleta enriqueceram o conhecimento e a dieta tradicional.
Coleta e comercialização de sementes florestais

Desde 2001, o Programa Xingu, do Instituto Socioambiental (ISA), desenvolve um trabalho de capacitação de jovens (agentes indígenas de manejo) para o manejo dos recursos naturais no Parque Indígena do Xingu (PIX). Vários cursos e oficinas foram realizados com a perspectiva de coletar e beneficiar sementes florestais para serem plantadas em áreas das próprias comunidades.

Com a constituição da campanha Y Ikatu Xingu, a demanda por sementes na Bacia do Xingu aumentou e foi identificada como uma oportunidade para gerar renda para as comunidades indígenas. Depois de esclarecimentos e conversas, a comunidade Yudjá tornou-se parceira da campanha, coletando e vendendo sementes florestais principalmente para os projetos de restauração florestal da região de São José do Xingu, no Mato Grosso. Antes a gente não se preocupava com o rio. A gente fica aqui no meio não percebe lá fora. Não sei se vamos sobreviver, mas estamos fazendo um caminho que talvez nossos filhos possam seguir”, comenta Tinini Juruna, cacique da comunidade Yudjá.

Na I Feira de Iniciativas Socioambientais os Yudjá mostrarão os resultados desse trabalho, que já coletou neste ano 286 quilos de sementes de 24 espécies. Parte dos recursos recebidos é destinado a atividades comunitárias.

Os Yudjá da aldeia Paksamba também estarão no evento mostrando seu projeto de banco de variedades de mandioca. Eles já conseguiram identificar 23 tipos de mandioca para farinha, 16 para polvilho e mingau doce e 7 tipos de macaxeira ou mandioca mansa. As ramas das variedades de mandioca são distribuídas para outras aldeias.
Sementes de mogno

Depois de 20 anos vivendo no PIX, para onde foram transferidos em 1975, o Povo Panará reconquistou parte de seu território tradicional. No rio Iriri, no limite do Mato Grosso com o Pará, construíram uma nova aldeia, a Nãsêpotiti, onde vivem 300 pessoas. Através do reconhecimento da importância da busca de alternativas econômicas sustentáveis, os Panará investem na apicultura, meliponicultura e comercialização de sementes de mogno.

Na I Feira de Iniciativas, eles mostrarão como é feito esse trabalho de coleta, beneficiamento e venda das sementes de mogno. O trabalho de manejo de sementes florestais envolve uma série de atividades, que começam com a localização das árvores "porta-sementes". Essas árvores, que devem estar livres de fungos e insetos, são acompanhadas continuamente pelos índios. Após a identificação e seleção das matrizes, inicia-se a colheita dos frutos de mogno. Alguns jovens Panará são treinados por escaladores profissionais para subir até a copa das árvores. Com os frutos colhidos, eles realizam a etapa de processamento das sementes, incluindo a extração (de dentro dos frutos), a secagem e o beneficiamento.
Manejo de tracajás

O tracajá é uma importante fonte de proteína animal e tem expressivo valor cultural para os Kamayurá. Desde 2004, com apoio da FUNAI e do ISA, e atualmente com apoio da Embrapa e do IBAMA, os índios dessa etnia da aldeia Morena realizam o manejo de tracajás. A idéia desse projeto foi do índio Pablo Kamayurá. Ele notou que a população de tracajás estava diminuindo por causa de novas técnicas de captura utilizadas pelos índios.

Esse projeto consiste na proteção e no manejo das praias de rio selecionadas pela comunidade onde ocorre a desova de tracajás. As covas são protegidas até a eclosão com o uso de uma caixa telada para evitar a ação de predadores e a coleta dos ovos feita pelos kamayurá. Após a eclosão, os filhotes são coletados e levados para um criatório onde permanecem por cerca de um mês.
Resgate dos Recursos Naturais do Povo Ikpeng

Os Ikpeng foram para o Parque Indígena do Xingu em 1967, abandonando a área em que viviam chamada Jatobá. Trinta e sete anos após a transferência, em 2002, eles fizeram a primeira expedição ao Jatobá. Outras expedições foram realizadas em 2005 e 2006 para a identificação dos recursos naturais que ainda existem ali, o que precisa ser resgatado e pesquisado. No retorno das expedições, os Ikpeng projetavam em telão fotos para toda a aldeia conhecer melhor a área onde viviam os mais velhos. Cerca de 30 tipos de recursos foram identificados, entre madeiras e fibras para construção, frutas comestíveis, remédios e ecossistemas. Os Ikpeng ainda sonham em retomar a área do Jatobá e poder viver ali segundo seus costumes.Essas experiências dos Ikpeng serão mostradas durante a I Feira de Iniciativas.

O Movimento dos Jovens Ikpeng (MJI) também estará no evento para expor seus projetos de revitalização das práticas tradicionais indígenas na aldeia Moygu e que envolvem o trabalho coletivo na roçada, pescaria, construção de casas e realização das festas.
Povo Kisêdjê

Os Kisêdjê constituem um povo de tradição guerreira e o único de língua Jê que habitava o PIX. Sua determinação permitiu-lhes sobreviver a adversidades que enfrentaram nos últimos 45 anos. Em 1998, os Kisêdjê conseguiram a homologação de uma parte do seu território tradicional e, quatro anos depois, mudaram-se para a antiga aldeia Ngôjwêrê, na Terra Indígena Wawi, que habitavam antes do primeiro contato com não-índios em 1959. Porém, quando retornaram para seu território tradicional, notaram que muitos recursos naturais haviam sido destruídos.

Na I Feira de Iniciativas Socioambientais, os Kisedjê vão mostrar um pouco do que estão fazendo para recuperar os recursos naturais degradados na Terra Indígena Wawi. Em março deste ano, eles plantaram 154 mudas frutíferas nos quintais de 20 casas da aldeia Ngôjwêrê. E no início de julho, aconteceu uma oficina para cerca de 110 pessoas sobre plantio nos quintais, e possibilitou a coleta de sementes, a produção de mudas, o desenho de croquis dos quintais e a constituição de uma lista de espécies a serem plantadas.

A I Feira de Iniciativas Socioambientais acontecerá de 16 a 18 de outubro, no Parque de Exposições Cidade Jardim, das 14 às 20 horas. Trinta e cinco estandes irão compor a feira e estarão distribuídos nas seguintes categorias: restauração florestal, alternativas econômicas sustentáveis, adequação socioambiental, educação socioambiental e iniciativas socioambientais dos povos indígenas.
Informações para a imprensa:
Sara Nanni
Assessora de Imprensa - Programa Xingu
Instituto Socioambiental
sarananni@socioambiental.org
tel: (66) 3478 3491; 9231 3665
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