CB, Economia, p. 31
23 de Set de 2007
Poupança verde em alta
Plantio de árvores usadas na produção de papel, construção civil, móveis e até como lenha atrai produtores. Investimento é baixo e retorno pode chegar a 1000% em seis anos
Luciano Pires
Da equipe do Correio
O investimento inicial é baixo, os cuidados são mínimos e a rentabilidade é certa. Não por acaso, o eucalipto vem sendo apontado como a mais nova estrela do campo. 0 cultivo da árvore já ocupa 3,5 milhões de hectares em todo o Brasil-140 mil hectares a mais do que em 2005 -, se expande pelo Centro-Oeste e onde chega ganha adeptos. Assim como a cana-de-açúcar em alguns estados do país, o eucalipto disputa espaço com culturas tradicionais como milho, soja e feijão, além da pecuária.
A indústria de celulose é quem mais absorve a matéria-prima.
Com a expansão da economia, o setor está superaquecido e as grandes empresas ampliaram o plantio de subsistência. César Augusto dos Reis, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), explica que os benefícios são muitos. As companhias possuem áreas próprias, mas também trabalham em parceria com fornecedores independentes. "Para o produtor é vantajoso porque ele recebe as mudas de qualidade e tem a garantia de que terá para quem vender a madeira. Para a empresa a vantagem é que o eucalipto acaba criando uma rede de proteção no campo e ajuda a reduzir custos", resume. Reis confia que pelos próximos 10 ou 15 anos a atividade só produzirá boas notícias.
A lenha utilizada como fonte de energia-especialmente por siderúrgicas - também está valorizada e, por causa da escalada dos preços do petróleo, o óleo combustível perdeu espaço para a madeira. "Gastávamos R$ 100 mil por mês com a caldeira alimentada a óleo. Hoje, reduzimos esse custo para R$ 30 mil", confirma Valério Folador, diretor-superintendente da Brasília Alimentos (Basa), fabricante de ração para gatos, cães, cavalos, aves e suínos do Núcleo Rural de Tabatinga. A mudança ocorreu há três anos. A caldeira movida a lenha produz o vapor necessário para secar a ração. Por causa da madeira, a Basa contratou mais empregados e pensa em construir mais uma caldeira.
0 produtor rural Laércio Gonçalves da Silva, que possui terras no Núcleo Rural Rio Preto, está otimista. No lugar de soja, sorgo (utilizado para a ração animal) e feijão agora crescem eucaliptos. As plantas estão com
cinco meses de idade. "Plantei 3 mil eucaliptos por hectare em uma área de 10 hectares. Quero chegar a 200 hectares em cinco ou seis anos", planeja. Por hectare, será possível faturar R$ 20 mil bruto, um belo retorno perto dos R$ 2 mil investidos na mesma faixa de solo. "Há três anos queria plantar. Via que o negócio era bom. Vou fornecer lenho', diz. Em sua propriedade, Laércio fez duas experiências: reduziu o espaçamento entre as plantas e plantou as mudas bem antes do período chuvoso.
Multiuso, o eucalipto ainda atende à construção civil (com vigas e escoras), o setor de móveis, serve aos fabricantes de postes de eletricidade e é aceito por diversos segmentos rurais para a produção de cercas, por exemplo. Algumas variedades mais nobres tiveram valorização recorde de até 200% nos últimos cinco anos.
As novas florestas crescem principalmente sobre áreas degradadas. Como o eucalipto se adapta a qualquer tipo de solo, relevo e clima, pastagens empobrecidas servem de refúgio para a planta. 0 ciclo até o primeiro corte comercial é de sete anos. Mas há inimigos, principalmente as formigas. Em média, o eucalipto resiste a três cortes. "É uma poupança verde. Mas tem de ser explorado corretamente", resume Helton Damin da Silva,
pesquisador da Embrapa e coordenador do projeto Florestas Energéticas. "0 grande gargalo talvez seja a deficiência no fornecimento de sementes e mudas de qualidade. 0 produtor precisa ficar atento", completa.
Marcelo Ambrogi, engenheiro regional floresta da Aracruz Celulose, afirma que o eucalipto pode ser uma boa opção de renda para o produtor. A Aracruz é uma das gigantes no setor florestal com 250 mil hectares de área própria e outros 80 mil em terras de fomento. 0 apoio aos parceiros é total. "Fornecemos mudas, defensivos, insumos e damos a assistência técnico", finaliza.
Afetada por preconceitos
Alvo preferido dos ambientalistas, o eucalipto é acusado de causar erosão, consumir grandes quantidades de água, empobrecer o solo, expulsar a fauna e interferir na biodiversidade. 0 problema é que pouco ou quase nada nessa lista de ataques foi comprovado até agora. Mitos e verdades sobre a planta mereceram uma análise cuidadosa e detalhada por parte do jornalista Geraldo Hasse.
Autor do livro Eucalipto -histórias de um imigrante vegetal, lançado no ano passado, Hasse afirma que o eucalipto é visto como um vilão, mas nem tudo o que se diz contra a árvore é verdade.
"Na década de 1920, ele foi usado para drenar áreas em São Paulo porque existia essa lenda na Europa, mas ninguém sabe se isso resolveu ou não", lembra. 0 escritor afirma ainda que o senso comum exerce forte influência sobre os conceitos que costumam passar de pai para filho.
"0 homem do campo tem suas convicções", explica.
Há estudos que atestam, por exemplo, que a água necessária ao eucalipto é obtida da camada superficial do solo. Suas raízes dificilmente ultrapassam os 2,5 metros de profundidade e, portanto, não alcançam os lençóis freáticos. Igualmente controverso é apostar que a planta afugenta animais.
Por princípio, toda a monocultura - cana-de-açúcar, soja, milho, pasto - reduz a biodiversidade. 0 nível de agressividade depende da forma como essas variedades são introduzidas no ambiente. Os defensores do eucalipto argumentam que a produção consorciada ajuda a minimizar os impactos negativos sobre o ambiente.
Outra qualidade conferida ao eucalipto é sua incrível capacidade de capturar carbono: há pesquisas que apontam para o seqüestro de até 11 toneladas por hectare ao ano. Entre os vegetais mais eficientes neste quesito, o eucalipto seria um dos campeões. (LP)
Para saber mais
Chegada em 1860
Os registros de chegada ao Brasil das primeiras mudas de eucalipto são precários, mas a literatura especializada aponta o período de 1860 a 1870 como o mais provável. 0 Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro teriam sido os estados pioneiros no cultivo dessa árvore que é originária da Oceania.
0 plantio comercial ganhou força no Brasil a partir dos anos 1900. A monocultura, que chegou até Minas Gerais e Bahia, atendeu à demanda por lenha das locomotivas e ajudou a consolidar o setor ferroviário. A madeira também era usada para a fabricação de dormentes para trilhos, cercas, postes, vigas da construção civil e móveis. Graças à pesquisa e ao incentivo das grandes empresas, o país é destaque na produção de mudas e sementes. (LP)
CB, 23/09/2007, Economia, p. 31
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.