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Porto Velho tem a chance de resolver velhos problemas

Valor Econômico - www.valoronline.com.br
30 de Jul de 2010

Pedreiros, seguranças, motoristas, mestres de obra, soldadores, domésticas, técnicos de toda a espécie. Não é apenas no canteiro de obras de Jirau, que atualmente recebe 16 mil trabalhadores por dia, que há vagas em aberto. Por onde se anda nas ruas de Porto Velho, há placas penduradas com vagas em aberto. Para chamar a atenção das pessoas, cada comércio usa uma placa maior. Até o ano passado, a capital de Rondônia tinha uma população de 378 mil habitantes. Neste ano, deve chegar a 420 mil e, pelas projeções da prefeitura, atingir 500 mil pessoas até 2012. Tudo isso é reflexo direto das instalações das usinas do rio Madeira, obras que nos últimos anos renderam muita polêmica envolvendo questões ambientais e interesses políticos da região.

"Passamos muito tempo discutindo os impactos ambientais que as usinas poderiam gerar para Porto Velho", disse o vice-prefeito da cidade, Emerson Castro (PMDB), após sua visita às obras de Jirau. "Algum impacto sempre existe, é claro, mas a verdade é que nós teríamos muito mais problemas se não tivéssemos firmado os acordos para as construções das hidrelétricas."

Castro, que foi o único representante de governo a comparecer no evento do consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), disse que, no ano passado, Porto Velho teve um orçamento de R$ 430 milhões, mas que sobraram apenas R$ 14 milhões para investimentos em infraestrutura. Agora, só com royalties pela liberação do Madeira, a prefeitura receberá R$ 50 milhões para investimento das hidrelétricas. A questão é saber se de fato o investimento será revertido à população e em quanto tempo. Hoje só 2% das casas de Porto Velho têm rede de esgoto. A água tratada só chega à metade da população. "Temos uma oportunidade única nas mãos de mudar as coisas por aqui", disse Castro.

Para empresários como Adélio Barofaldi, no entanto, o governo tem sido lento em aproveitar a chance de expansão da região. "A prefeitura recebe uma dúzia de ambulâncias e acha que isso está bom", diz ele. "É muito pouco. Estamos perdendo uma série de negócios porque não temos rapidez para tomar decisão e agir."

Barofaldi, que vive há 25 anos em Porto Velho, é o exemplo típico do empresário que tem sentido na pele os reflexos financeiros das hidrelétricas. Dono de uma empresa de locação de veículos, ele tinha 50 carros para aluguel até 2008. Em dois anos, sua frota pulou para 500 carros. Em Jirau, o empresário fechou um acordo para fornecer 140 veículos. Representante da marca Fiat, ele conta que até 2008 vendia cerca de 180 carros por mês na região. Agora são 320. "Estamos sem espaço para os funcionários. Eu tinha 250 pessoas comigo, mas hoje são 650 empregados", comenta.

Mesmo com o aumento do custo de mão de obra, as empresas têm dificuldades para preencher vagas. Com uma mecânica instalada dentro do canteiro da hidrelétrica de Santo Antônio, Barofaldi diz que hoje tem 50 vagas em aberto. "Não sei nada de usina, mas sei do que essas empresas precisam e corro atrás", diz ele.

Seu empreendimento mais recente foi gastar R$ 10 milhões em uma frota de 50 ônibus para o transporte de pedreiros que viajam entre Porto Velho e as usinas.

O setor hoteleiro também está no mapa. "Já estou negociando com a rede Accor para instalar um hotel Mercury na cidade", comenta ele. Para erguer um prédio com 140 leitos, o empresário diz que deverá gastar mais R$ 10 milhões.

Atualmente, segundo a prefeitura de Porto Velho, há 12 hotéis na cidade, com capacidade total de 524 leitos. Redes como Holiday Inn e Ibis, no entanto, já estão com projetos na região. "Em breve devemos ter mais 360 disponíveis na cidade", diz o vice-prefeito, Emerson Castro.

Quem quiser comprar um terreno, também precisa negociar um bocado. O metro quadrado em Porto Velho, que há um ano custava cerca de R$ 2,2 mil, já ultrapassa R$ 3 mil. Nas ruas do centro, o trânsito também chegou com força total. Na cozinha, 469 funcionários se revezam para produzir 30 mil refeições por dia

Quando soube que as construções de Jirau iam começar, em meados do ano passado, José Maria Martins, 58 anos, fez a mala, deixou o Pará e partiu para Porto Velho. Depois de uma semana, arrumou emprego como motorista de ônibus em Jirau. "Eu sou um especialista em usinas. Já trabalhei na hidrelétrica de Tucuruí (a cerca de 400 km de Belém). Hoje estou aqui, mas quando isso aqui acabar vou para Belo Monte", diz o motorista.

José tem ainda muito o que rodar em Jirau. A usina, pelas contas do presidente da ESBR, Victor Paranhos, atingiu até agora 25% de sua estrutura completa. Hoje, a hidrelétrica soma 16 mil funcionários, mas no pico das obras, até o início do ano que vem, estima-se que o volume possa ultrapassar 20 mil pessoas. Diariamente, parte desses funcionários toma o ônibus em um terminal montado ao lado do canteiro de obras e vai para casa, mas cerca de 10 mil deles - dos quais 2 mil são mulheres - moram em casas instaladas no próprio canteiro.

Para alimentar diariamente o batalhão, um time de 469 funcionários se reveza na cozinha, de onde saem 30 mil refeições por dia. De panelas industriais saem todos os dias cerca de dez toneladas. O pão, servido pela manhã, é enviado congelado por uma empresa de Curitiba. Vegetais como cebola e batata saem de caminhão, a partir de São Paulo. "A cada 24 horas, preparamos aqui 25 toneladas de alimento", diz Bruna Eliza Centenaro, nutricionista responsável pela alimentação em Jirau.

A mesma preocupação com a alimentação saudável está espalhada em cartazes de segurança que chamam a atenção dos trabalhadores por todos os lados, o que não significa que acidentes, inclusive fatais, deixem de ocorrer. Na semana passada, um rapaz de 23 anos que trabalhava com uma trituradeira de pedra morreu durante o trabalho, com a região do tórax esmagada. O caso, segundo a assessoria de comunicação da ESBR, está sob investigação do Ministério do Trabalho. A construção de uma usina possui nível de risco 4, o mais alto em periculosidade em obras de construção civil.

Recentemente, as obras de Jirau também enfrentaram paralisação após um movimento de greve por parte de funcionários de uma empresa terceirizada de prestação serviços. Os funcionários reclamavam de salário baixo e falta de assistência médica. A paralisação durou um dia. Empresas e funcionários chegaram a um acordo.

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