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Porto Velho: criação de pirarucu e agricultura se complementam em projeto sustentável

Portal Amazônia - http://www.portalamazonia.com.br
Autor: Vanessa Moura
10 de Ago de 2014

Um projeto que alia a criação de pirarucu com a fertirrigação do plantio tem mudado a vida do agricultor, Domingos Mendes da Silva, 55 anos. Silva mora no reassentamento Santa Rita (distante a 54 km de Porto Velho) e o projeto sustentável, pioneiro em Rondônia, deve servir de modelo.

A sustentabilidade desenvolvida no sítio de 11 hectares elevou a renda da família de agricultores de um salário mínimo para cerca de R$ 1,5 mil. Silva quer aumentar ainda mais a renda e acredita que o projeto pode ganhar mais projeção. ''A renda antes do projeto era a mínima possível, meu sonho é chegar até R$ 5 mil, mas a realidade está entorno de R$ 1,5 mil. Já é um grande avanço'', considera.

O agricultor e piscicultor chegou ao reassentamento em 2011. ''Quando chegamos aqui só tinha a casa e mais nada. O projeto surgiu depois, e se chamava Piraçaí. Eu já tinha plantado açaí e vi que o projeto seria ideal: criar o peixe e plantar o açaí'', conta. A ideia foi apresentada por um amigo ao agricultor que viu o modelo em um país estrangeiro.

''Um parceiro, uma pessoa que entende da área, veio dar palestras de como criar peixe e mostrou o modelo deste projeto que é de fora; não sei se dos Estados Unidos ou México, e ele explicou que a água dos tanques de peixes era ótima para irrigar qualquer tipo de planta'', conta.

Estrutura

O projeto sustentável e também o plantio de frutas e verduras ocupam um total de seis hectares da propriedade rural, três deles para criação do pirarucu. ''Comecei praticamente com um tanque, depois vieram as caixas e fui ampliando. Hoje nós temos quatro tanques para 250 peixes, três tanques menores para os alevinos e oito caixas de mil litros cada'', afirma. Investimento avaliado em R$ 200 mil.

Um trabalho de parcerias que envolve o consórcio Santo Antônio Energia (SAE), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural(Emater) e iniciativas privadas. ''Se não fossem as parcerias, sozinho eu não teria condições. É preciso incentivo dos órgãos governamentais e que órgãos privados também colaborem'', avalia Domingos. A ideia do agricultor é que o projeto incentive outros proprietários rurais e que o negócio vire uma grande cadeia para exportação dos pirarucus.

''As águas que saem dos tanques passam alguns dias nos reservatórios escavados para ser estabilizada e usada na irrigação. Essa água é rica em nutrientes de resto de ração e dos excrementos dos peixes. Com isso a gente minimiza o uso de fertilizantes e tem uma produção de muita qualidade. A coloração da água esverdeada indica que ela é rica em matéria orgânica e nutrientes'', informa o engenheiro agrônomo da Emater Janderson Dalazen.

Criação

A escolha pelo pirarucu é devido, principalmente, por ser uma das espécies mais resistentes. Domingos conta que a fase de alevinos é a mais sensível para a criação. "É preciso todo um cuidado para que ele não venha a dar prejuízo", disse. Esse cuidado é feito principalmente pela esposa de Domingos, Maria do Socorro de Jesus, 53 anos. Ela conta que criar peixe era o sonho do casal.

"Quando nós começamos não tínhamos experiência. Fiquei um pouco apreensiva, mas depois quando pegamos o jeito de como tratar os alevinos, aí ficou tudo bem. Acho que estamos nos saindo bem. A produção ainda não é o suficiente para vender para firmas grandes, mas se os outros moradores do reassentamento pegarem essa nossa experiência e começarem a produzir vai ficar melhor para todos, pois teremos uma grande produção para oferecer'', avalia Socorro.

O casal dividiu as tarefas da propriedade rural. ''Eu cuido da criação do pirarucu que é uma tarefa mais leve e o meu marido da agricultura'', explica. Socorro acorda todo o dia por volta das 6h para cuidar dos pirarucus. A rotina começa com a troca de água dos tanques, depois é a vez da alimentação. ''Quando ainda são alevinos recebem alimentação de duas em duas horas, quando crescem o intervalo é de três horas. Cada vez que tenho jogo 3kg de ração", disse. Socorro já tem até um jeito próprio de chamar os peixes para comer a ração. É um tipo de assobio.

O engenheiro agrônomo da Emater Janderson Dalazen explica que a criação dos pirarucus exige adaptação. ''Eles chegam alevinos e o seu Domingos tem o trabalho de ensinar o peixe a comer, a viver neste ambiente domesticado. Daí, ele vende esse peixe criado quando está com aproximadamente 20 cm para outros criadores da região. Esse é um dos nichos de mercado que ele trabalha: a venda de peixes juvenis. A outra parte vai para tanques de engorda onde com um ano os peixes atingem 15 kg", informa Dalazen. O índice de perda da produção não ultrapassa 10%, segundo o engenheiro.

Produção

Com apenas dois anos do projeto já foram comercializados mais de 4 mil peixes em idade juvenil e outros 3,5 toneladas estão prontas para atender o mercado. ''Como o projeto é novo estamos vendendo conforme a demanda, 10k, 20k, 1k depende do comprador'', disse. Por enquanto, a produção atende apenas a comerciantes de Porto Velho.

"Podemos vender os peixes que temos aqui para qualquer lugar, totalmente legalizados. Tenho a licença do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], Sedam[Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental], de todos os órgãos competentes", afirma. Domingos acredita que o mercado consumidor é grande, mas a produção ainda não acompanha a demanda.

Fertirrigação

A água utilizada nos tanques de criação dos pirarucus é reaproveitada pelo agricultor, Domingos Mendes, para irrigação não só do plantio de açaí [ideia inicial], mas também dos pés de abacaxi, coco, manga, graviola, mamão, goiaba, abóbora, feijão e maxixe. A troca de água dos tanques é feita diariamente e a água já utilizada vai para dois tanques reservatórios, um de 12 metros de altura por 18 metros de largura e outro de 12 metros por 28 metros e dar para irrigar uma média de quatro hectares.

"Eu jogo em média 200 mil litros de água na plantação. Esse reaproveitamento gera uma economia de água porque não preciso tirar água do igarapé e de energia porque se eu tivesse que irrigar isso tudo eu teria que colocar bombas mais potentes. Além disso, a água que já é rica em nutrientes substitui a despesa que eu teria com a compra de adubos", aponta.

Nos tanques reservatórios também são criados pirarucus. "Isso aconteceu por acaso, um peixe escapou e a gente percebeu que sobreviveu e foi colocando mais e estão vivendo. Esse é um tipo de peixe muito resistente", considera Domingos.

Reassentamento

O piscicultor faz parte das 135 famílias transferidas do assentamento Joana d´Arc, há cerca de três anos, para o reassentamento Santa Rita. De acordo com o coordenador fundiário do consórcio Santo Antônio Energia (SAE) Ivan Silveira, as famílias transferidas foram aquelas que tiveram suas áreas atingidas pelo reservatório da usina de Santo Antônio.

O projeto que alia a criação de pirarucu com a fertirrigação foi apresentado por Domingos a SAE. ''Foi chamado a Emater e, a partir daí, se constitui um projeto técnico para que nós pudéssemos apoiar. A SAE comprou material para construção dos tanques e deu contribuição para a constituição do projeto'', afirma. Silveira disse ainda que outras famílias que tiverem interesse em desenvolver o projeto poderão recorrer às linhas de financiamentos que o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) dispõe.

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