VOLTAR

Por que 19 de abril e o Dia do Indio

JT, Artigos, p. A2
Autor: TUPAN-AN, Nicolau
18 de Abr de 2004

Por que 19 de abril é o Dia do Índio?

Nicolau Tupan-An

Ao comemorarmos mais um Dia do Índio, deveríamos nos perguntar quem são os donos desta terra e qual ensinamento nos trazem. Os índios, que há séculos vêm sendo massacrados e submetidos à dominação cultural de nossa sociedade, num desumano processo de integração e perda de identidade, são nossos antepassados; e não criaturas exóticas que perecem em aldeias, na periferia de São Paulo, como por exemplo é o caso dos guaranis. Quando os portugueses realizaram o "achamento" do Brasil, aqui viviam 900 povos, com uma população em torno de 5 milhões de pessoas, isto é, cinco vezes a população de Portugal.
Por causa dos massacres e das doenças trazidas pelos europeus, hoje esses grupos estão reduzidos a 525 mil pessoas. Com esse genocídio, perdemos boa parte de nossa riqueza cultural. Felizmente hoje, sobrepujando o preconceito de superioridade, iniciamos um reencontro com nossas origens para descobrir que os índios têm um sistema de uso da terra baseado no social, não no particular. Foi com a invasão do português que se estabeleceu o conceito de propriedade particular. Para o índio a terra é vida. Assim dizia o sábio chefe dos caingangues: "A terra, para o povo caingangue, significa uma mãe.
É ela que dá o alimento e a água, igual à mãe que oferece o alimento de seu corpo para seu filho. Enquanto isso, o 'civilizado' pensa que a terra é um instrumento para gerar riqueza. Por isso ele não reconhece seu irmão, o seu semelhante, e discrimina cada vez mais aquele que é mais fraco e não tem condições de enfrentá-lo, de concorrer com ele."
Toda economia indígena é baseada nas necessidades do povo, não no lucro. A organização social das aldeias visa a garantir a sobrevivência e os direitos de todos, e não os privilégios de alguns. A organização do poder não é tirânica ou despótica, mas sim compartilhada. Dessa forma, o cacique não é aquele que manda, é o sábio que aconselha o que deve ser feito; organização das aldeias é feita em perfeita harmonia com o meio ambiente.
Não há registros de tribos que tenham destruído a fauna e a flora de qualquer região por elas habitada. Mas, enfim, por que 19 de abril é o Dia do Índio?
Durante a realização do 1o Congresso Indigenista Interamericano no México, em 1940, os congressistas decidiram convidar os índios. Afinal, eles seriam o tema central do congresso. A comissão encarregada de fazer o convite, porém, encontrou resistência por parte dos índios que, habituados a constantes traições, não acreditavam no interesse dos antropólogos. O Congresso teve início em 14 de abril. Alguns dias depois, os índios se reuniram e convencidos da importância do congresso, na luta pela garantia de seus direitos, decidiram comparecer.
Então, essa data (19/4/1940), por sua importância na história do indigenismo das Américas, foi dedicada à comemoração do Dia do Índio. E, hoje, dando voz ao índio, venho prestar a seguinte homenagem: "Ó Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos e cujo alento dá vida a todo o mundo, ouça-me! Sou pequeno e fraco, necessito de sua força e sabedoria.
"Permita-me andar em beleza e faz com que meus olhos possam sempre contemplar a sua luz. Faz com que minhas mãos respeitem tudo o que foi feito por sua vontade e meus ouvidos estejam aguçados para sempre ouvir sua voz.
Faz-me sábio para que eu possa compreender as coisas que você ensinou ao meu povo. Permita-me aprender as lições que você escondeu em cada folha, em cada rocha. Busco força não para ser maior que meu semelhante, mas para lutar contra meu maior inimigo - eu mesmo.
"Faz-me sempre pronto para chegar a você com as mãos limpas e olhar firme a fim de que, quando a vida apagar, como se apaga o poente, meu espírito possa estar consigo, sem me envergonhar da vida que tive."
Em memória de Orlando Villas-Boas, cuja contribuição à antropologia e à ecologia é ainda um capítulo a ser escrito na História do Brasil.
Orlando dedicou 45 anos de sua vida em auxílio de nossos irmãos indígenas.
E, aos queridos parentes, da tribo Villas-Boas, Marina, Vilinha e Noel.
Nicolau Tupan-An é professor universitário de História da Cultura Indígena, História da Cultura Brasileira e autor de "Nheengatu-tupi Vocabulário" e "Gramática da Língua Tupi-Guarani"

JT, 18/04/2004, Artigos, p. A2

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.