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Populações unidas pela desigualdade

O Globo, Prosa & Verso, p. 5
Autor: CAMPOS, Andrelino
10 de Dez de 2005

Populações unidas pela desigualdade

Professor da Uerj lança tese na qual estabelece com rigor as relações históricas e sociais entre quilombos e favelas
Em alguns momentos do livro "Do quilombo à favela, a produção do 'espaço criminalizado' no Rio de Janeiro" (Editora Bertrand Brasil), que Andrelino Campos, professor da Uerj, lança quarta-feira, às 14 horas, na Saraiva Mega Store do Centro, tem-se a sensação de que se fala do presente. Mas são relatos do século XIX sobre uma caçada a quilombolas, por exemplo. Algo mudou? "A exploração dos favelados hoje é maior", afirma o autor em entrevista. A obra é a tese de mestrado de Andrelino e faz uma ponte, com rigor, do que sempre foi do senso comum. Além da semelhança de tratamento do Estado para quilombolas e favelados, o autor resgata outras relações que ligariam ambos.

Como a Lei de Terras, de 1850, proibindo a propriedade para os negros, pode ter reflexos até hoje?

Andrelino Campos: A tese não abordou isso, mas as leis também impediam os negros de ter acesso à educação. Eles foram excluídos em tudo. Se a partida foi desigual e não houve atitudes para equilibrar, a chegada, aos dias de hoje, será desigual. A lei de terras foi uma conseqüência das discussões da época da Independência sobre o que fazer com os negros. O projeto era mandar todos de volta para a África. Como era caro, a exclusão se concretizou de outras formas. A violência nas favelas hoje é o prosseguimento da política de 1822.

A questão da terra vem sendo tratada de forma policial, para você. Como deveria ser?
Andrelino: A terra foi a força motriz das classes dominantes e ganhou um valor atribuído, de mercado. Quem não está no sistema fica desacreditado. A acumulação primitiva foi desigual e o problema seguiu no mercado de trabalho, quando foi importada mão-de-obra para a indústria. Não é, então, polícia na favela que vai resolver.

Mas o que fazer então? Você é a favor da tese do economista peruano Hermano de Soto de dar título de propriedade a favelados para que houvesse desenvolvimento?

Andrelino: A propriedade é uma armadilha. Numa cidade como o Rio, onde não há mais áreas de expansão, as áreas faveladas têm um valor imobiliário imenso. Com a propriedade, como resistir às ofertas do mercado? Isso é tudo o que o mercado imobiliário quer para disponibilizar para as classes mais altas estes espaços.

E isto seria ruim?
Andrelino: Acho que sim. Não sou contra o mercado. Mas não há eficácia nessa medida. O valor pago pelo imóvel não vai tirar as populações da pobreza e nem dar a elas condições mais dignas porque vão morar longe do trabalho. O que faz as pessoas morarem na favela é estarem próximas do trabalho. É assim desde os quilombos.

Você diz no livro que havia relações comerciais entre os quilombos e as sociedades vizinhas. Imagino que com menor ganho para os negros. Houve mudança nesta relação em relação aos favelados?

Andrelino: Na verdade, não havia exploração dos quilombos. Eles dominavam a produção da floresta e a troca era de igual para igual. E era interessante que a relação fosse assim porque a economia destas áreas era dinamizada pelo quilombo e fazia com que as sociedades protegessem os quilombolas avisando de operações da polícia, por exemplo.

E hoje, é tão igualitária?

Andrelino: A exploração se aprofundou nas trocas entre favelados e a sociedade. A remuneração hoje é humilhante. A exploração hoje é muito mais grave porque as pessoas são exploradas nas relações de trabalho. É mais difícil contestar.

Sua aproximação dos quilombos com as favelas é mais pelas funções sociais destes locais que pelos espaços que elas ocuparam. Como estas funções se apresentam hoje?

Andrelino: Eles são o mesmo ser. Há uma continuidade entre um e outro. Os quilombos resistiram ao Império e as favelas, à República. O quilombo não era só para negros. Era para todos os injustiçados, inclusive brancos. Assim como a favela, que abriga negros, nordestinos, excluídos. Não vamos tratá-los como injustiçados, mas são os que, de acordo com a largada, não conseguiram ganhos para enfrentar a vida moderna.

Que exemplos você citaria desta aproximação?

Andrelino: O quilombo era uma rede de solidariedade para tudo. Onde se encontra isso hoje? Em favelas. Há uma solidariedade que não é bandida, como muitos imaginam, que busca a vida, o bem-estar de todos e a fraternidade.

Você recuperou de um livro de Maurício Abreu o relatório de uma perseguição da polícia do Império aos quilombolas que se assemelha com os relatórios de caça a traficantes de hoje. Os quilombolas também usavam obstáculos para dificultar a ação do Estado. Há uma herança de resistência herdada por estes grupos?

Andrelino: Vejo esta herança na guerrilha dos anos 70. A resistência dos traficantes acontece mais devido à desproporção no uso da força pelo Estado. Pode ser que alguém faça uma ligação entre os quilombolas e os traficantes de hoje. Mas existe uma fratura imensa entre ambos.

Hoje a fratura é grande. Mas em cem anos, com outros valores, traficantes poderão ser comparados a quilombolas?

Andrelino: Hoje a reclamação é o tráfico. Em cem anos vamos reclamar de outras coisas se perpetrarmos a mesma sociedade colonial. Hoje achamos que garotos de 15 anos são bandidos perigosíssimos. Mas quem é mais perigoso: alguém que vende drogas ou quem fornece em consignação?

Desde o quilombo, as áreas dos mais pobres eram as vistas como áreas de crime ou do não-legal. Quais os reflexos desta herança para nós hoje?

Andrelino: As pessoas não encaram a favela como a cidade. E se o Estado não é neutro, esta visão desemboca em políticas púbicas desiguais, investimento desigual.

Estamos atrasados no investimentos nestas classes?

Andrelino: Nem começamos. Em 1930 houve a largada para o trabalho, com o sindicalismo. Em 70 anos, chegamos a ter um metalúrgico presidente.

O poder econômico sempre ditou a política de remoção das favelas para ocupações consideradas mais nobres?

Andrelino: As remoções começaram em 1860 para incorporar estas áreas às classes privilegiadas. Havia quilombos desde 1632 na Lagoa Rodrigo de Freitas e lá foram feitas as primeiras remoções na década de 1960. O local foi melhorado para as classes mais altas, com muitos investimentos, e hoje a Lagoa é a área com maior poder aquisitivo da cidade.

Combate-se mais o crescimento das favelas na Zona Sul que na Oeste hoje. É a continuidade da política para as primeiras favelas, quando foi permitido que negros alforriados após a guerra ocupassem terrenos nos morros do Centro?

Andrelino: A terra se valoriza de acordo com a expressão que a sociedade quer dela. Até 1840 tomar banho de mar era considerado porcaria. Morar na orla era ruim. O problema é que, quando as classes dominantes valorizam os lugares, os mais pobres acompanham por causa das potencialidades de mercado de trabalho. Quando isso não acontece, fica difícil.

O estudo mostra que os quilombos se movimentavam para sobreviver. O que fazer para que as pessoas que moram em favelas vivam de forma mais digna onde estão?

Andrelino: Um dos projetos mais importantes do Favela-Bairro era o de geração de renda. Mas ele foi esquecido pelo assistencialismo. E falta democracia. É preciso ver o que as pessoas querem, oferecer soluções. Se for o caso até de remoção. Elas decidem se querem ou não e em que condições.

Pelo que aconteceu em Paris, a marginalização das periferias parece um fenômeno global. Lá fora é um processo histórico, como aqui, ou é fenômeno do nosso tempo?

Andrelino: O processo é contemporâneo, mas com raízes. A eclosão dos pobres na França está escrita no não reconhecimento deles. Os mais velhos se conformavam. Mas os mais jovens não aceitam. Talvez seja uma ponte entre eles e nós: os jovens não aceitam mais a exclusão.

Quando um ônibus foi queimado com pessoas lá dentro, no Rio, os traficantes foram chamados de terroristas. Esta aproximação pode gerar problemas para os favelados?

Andrelino: No mundo todo se caça terroristas sem piedade. Esta equiparação pode expor a população a atuações que não podemos imaginar. A falta de respeito com os pobres é monstruosa e vem de longe.

O Globo, 10/12/2005, Prosa & Verso, p. 5

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