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A população evoluiu nessa questão, o governo, não

OESP, Vida, p. A17
Autor: CARVALHO, José Murilo de
23 de Jan de 2008

'A população evoluiu nessa questão, o governo, não'

Entrevista: José Murilo de Carvalho: historiador Estudioso acredita que pessoas compreenderam a importância da vacina, mas ainda não confiam no discurso das autoridades

Lígia Formenti, Brasília

Para o historiador José Murilo de Carvalho, a recente corrida da população pela vacina contra a febre amarela reflete um grande avanço da sociedade brasileira. O mesmo não se pode dizer, porém, do governo. "A população evoluiu, o governo não." Murilo de Carvalho, que estudou o conflito no Rio em 1904 conhecido como "revolta da vacina", observa que, nos dois momentos, a população demonstrou uma profunda desconfiança diante do discurso feito pelas autoridades. Tal descrédito é fruto da própria atitude do governo. A seguir, principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Vivemos o inverso da "revolta da vacina"?

O movimento de agora reflete uma grande mudança da postura popular em relação à vacina. No começo do século passado, havia uma decisão tomada legalmente pelo Congresso para vacinar pessoas, visitar casa por casa. Uma prática com a qual o povo não estava acostumado, que provocava grande desconfiança e descontentamento. Ninguém queria que o governo entrasse em sua casa. Além disso, havia um medo grande em torno das reações que a vacina poderia provocar.

E hoje, o que ocorre?

A desconfiança com relação à vacina obviamente acabou. Isso é um enorme progresso da opinião pública. As pessoas sabem que a vacina é um instrumento importante, que ela é segura. Mas a desconfiança de antes se mantém. Agora, o governo diz que não há epidemia, que não é preciso que todos se vacinem, mas o povo não acredita. Avalio que a opinião pública progrediu. Hoje as pessoas pedem, entendem o poder da vacina e cobram do governo. Mas se mantém uma percepção de que políticos não são confiáveis.

A que atribui essa desconfiança?

Uma longa tradição do governo, confirmada pela história recente. E isso vale para todos os poderes. No Executivo, por exemplo. Antes se garantiu que não ocorreria caos aéreo. E o caos aéreo se instalou. Depois se garantiu que não haveria aumento dos impostos. O governo diz e logo depois se desmente. O que mostra haver uma enorme distância entre poder público e povo.

Como se dá essa distância no caso da febre amarela?

Ela existe mesmo num governo eleito democraticamente. E as pessoas têm essa percepção, demonstram claramente que a desconfiança é enorme. Para resumir: é uma fraqueza da nossa democracia.

E como isso pode ser revertido?

É um processo lento. Nossa democracia é muito jovem. Outros países demoraram séculos para alcançar esse estágio. É preciso eleger grupos, ver que eles não estão funcionando, não reelegê-los. A expressão do descontentamento na hora do voto.

OESP, 23/01/2008, Vida, p. A17

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