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População de pirarucus aumenta mais de 400 por cento graças ao trabalho dos ribeirinhos

G1 https://g1.globo.com
08 de jul de 2019

Um projeto bem sucedido de manejo e conservação do pirarucu não só permite um futuro positivo para a espécie como também garante o sustento de diversas famílias brasileiras.

Essa conquista ultrapassou fronteiras e foi premiada internacionalmente este ano, no Prêmio Rolex de Empreendedorismo. Mas todo processo começou aqui no Brasil, com as populações ribeirinhas de Tefé (AM).

O biólogo João Vitor Campos foi até Washington, no Estados Unidos, para representar a comunidade rural de Mamirauá que, em parceira com ONGs, desenvolve o manejo comunitário do pirarucu desde 1999.

"Devido a alta importância cultural e econômica, a espécie sofreu uma grande pressão pesqueira no século passado, culminando com a redução das populações selvagens e extinção em muitos locais. Na tentativa de reverter o declínio populacional, a comunidade passou a proteger os ambientes, banindo a pesca comercial e predatória", conta.

O prêmio apoia projetos ousados e visionários com potencial de redefinir o futuro - Foto: João Campos/Arquivo Pessoal

O processo inclui a contagem anual de pirarucus em cada lago, importante para elaborar um plano de manejo da espécie que prevê uma cota para captura e venda dos peixes. "A proteção comunitária dos ambientes aquáticos e o manejo sustentável da espécie contribuem com a recuperação populacional do pirarucu, ao mesmo tempo em que garante a segurança alimentar e bem estar dos ribeirinhos", explica o biólogo, que destaca os resultados obtidos ao longo dos anos de manejo.

"Na região do Médio Juruá, a população de pirarucu aumentou em 425% em 11 anos. Outras espécies, como as tartarugas, peixes-boi, jacarés e outros peixes, também se beneficiam da proteção dos ambientes aquáticos", comemora.

O pirarucu é uma espécie guarda-chuva, ou seja, ao ser protegido, garante a proteção de muitas outras
Além dos resultados ecológicos, que evidenciam o manejo comunitário como importante ferramenta de conservação, a melhoria na qualidade de vida das comunidades rurais é consequência positiva do projeto.

"A renda oriunda do manejo beneficia não só os ribeirinhos individualmente, mas também pode auxiliar em reformas de áreas comuns nas comunidades e até tratamento de doenças graves nas grandes sociedades", comenta João, que alerta sobre a mudança de cultura na valorização da mulher. "Pela primeira vez, as mulheres estão recebendo renda de pesca, coisa que não acontece na pesca em geral", completa.

O pirarucu é um peixe que quebra paradigmas ao mostrar que as comunidades locais desempenham um papel fundamental na manutenção das florestas e constituem uma das formas mais eficientes de proteção da Amazônia
- João Vitor Campos, biólogo
Futuro promissor

Interessado em avaliar os benefícios sociais, ecológicos e econômicos do manejo comunitário, João se dedicou ao doutorado, quando então pôde escrever artigos e a tese premiada. "Aplicamos o manejo do pirarucu fora das áreas protegidas e os resultados foram incríveis. Em quatro anos a população de pirarucu no rio Juruá aumentou mais de 350%, além dos benefícios socioeconômicos para a sociedade", detalha o biólogo, que projeta expandir o modelo para dezenas de comunidades.

"O plano é fortalecer o que já vem dando certo e ampliar esse modelo, promovendo uma transformação social em grande escala no rio Juruá", diz.

Quando consolidado o modelo de desenvolvimento local e conservação, ao longo de dois mil quilômetros do rio, o projeto irá agregar cerca de 100 comunidades e proteger centenas de corpos d'água, conservando não só o pirarucu, mas diversas espécies da região.Além de garantir a continuidade da ação por pelo menos três anos, a premiação auxiliou na divulgação dessa 'jornada' pela conservação, onde, de acordo com o biólogo, as comunidades locais são parte da solução, e não do problema.

"Esse projeto é coletivo e as comunidades rurais são as maiores protagonistas. Por muito tempo essa população foi excluída da conservação. Um dos meus desafios é fortalecer exemplos positivos onde o ser humano contribua com a conservação da biodiversidade", comenta.

O aspecto mais bonito do manejo é que a conservação da biodiversidade tem sido garantida especificamente pelos moradores locais, os povos dos rios e das florestas
- João Vitor Campos, biólogo

Feliz com o reconhecimento de todo o trabalho, o biólogo espera envolver mais pessoas em projetos como esse. "Acho que precisamos mostrar para o mundo as coisas bonitas que acontecem em nosso País. Somente assim, podemos construir uma visão otimista do futuro", completa.

É muito importante que os jovens se envolvam nessa temática, para que a gente possa desenvolver novas ideias e caminhos que nos levem a um país mais justo e mais verde
- João Vitor Campos, biólogo

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2019/07/…

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