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Poluição torna escassos os peixes, aves e anfíbios na região da Billings

OESP, Metrópole, p. C12
29 de Out de 2009

Poluição torna escassos os peixes, aves e anfíbios na região da Billings
Vida no manancial é ameaçada pela contaminação de fósforo, cobre e mercúrio, segundo estudo da Cetesb

Eduardo Reina

Peixes, aves e anfíbios que habitam a Represa Billings correm o risco de desaparecer por causa da poluição por fósforo, cobre e mercúrio, elementos encontrados em altas concentrações, o que vem degradando ano a ano a qualidade desse manancial de 9.600 hectares. Segundo o Índice de Qualidade das Águas para Proteção da Vida Aquática (IVA), elaborado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), em 2008, na maior parte do corpo do reservatório a água foi classificada como ruim e regular, com exceção do Ribeirão Pires, com qualidade péssima no ano passado. A situação se repete há anos.

Pescadores reclamam da escassez de tilápias, guarus, lambaris e traíras. Moradores do entorno do manancial, estudiosos e ambientalistas falam do perigo do desaparecimento de quatro tipos de aves em extinção que dependem de áreas alagadas e de várzeas: garça-azul, gavião-asa-de-tilha, carqueja-de-bico-manchado e maçarico-do-campo. No corpo da represa, nos rios e riachos afluentes, são vistas com cada vez menos frequência pererecas, pererecas-verdes e rãzinhas-de-barriga-colorida.

O fósforo é originado do despejo de esgoto in natura no corpo d"água, principalmente na região da cidade de Ribeirão Pires, que tem parte do esgoto doméstico tratada numa estação local que será desativada. Mas a maior parte das residências ainda não está ligada ao sistema coletor da Sabesp. O fósforo degradou em demasia o Ribeirão Pires, um dos afluentes do trecho Rio Grande da Billings.

Nessa situação, a água apresenta alta produtividade de micro-organismos. Com isso, perde transparência, fica com qualidade alterada e propícia para a procriação exagerada de algas. Em 2008, o fósforo apresentou uma concentração média de 0,648 micrograma por litro, segundo a Cetesb. A concentração média dos últimos cinco anos foi de 0,592 mg/l.

E a proliferação de algas por causa dos altos índices de fósforo levou a um outro problema: a concentração de cobre. Esse metal, encontrado no braço do Rio Grande, é proveniente dos produtos utilizados pela Sabesp para controlar a proliferação de algas. É nesse trecho que se faz a captação de água para abastecimento da população.

O IVA mostra que, apesar desses problemas, no Reservatório do Rio Grande e no braço do Taquacetuba houve uma ligeira melhora no índice, quando comparado ao resultado do ano anterior, mas também foi encontrada contaminação.

Mais Poluição

Também foram observadas no Ribeirão Pires concentrações de fenóis totais acima do limite máximo estabelecido pela legislação. Fenóis são compostos orgânicos provocados por despejos de efluentes industriais. São compostos tóxicos aos organismos aquáticos, em concentrações bastante baixas, e afetam o sabor dos peixes e a aceitabilidade das águas por conferir sabor e odor muito pronunciados, em especial os derivados do cloro. Para os seres humanos, o fenol é considerado prejudicial à saúde - a ingestão causa náusea, vômito e dores estomacais.

Apesar da qualidade boa em relação ao IQA, outro metal pesado encontrado durante a elaboração do estudo é o mercúrio, principalmente na bacia de drenagem do Rio Grande. A concentração observada em março de 2008 - 0,2 mg/l - ultrapassou o limite máximo estabelecido por lei, de 0,1 mg/l. Porém, segundo a Cetesb, avaliando-se as concentrações de mercúrio total nesse ponto desde 2005 - ano em que houve uma padronização na metodologia de análise -, observou-se somente uma ocorrência, em março de 2006, de concentração de mercúrio total em desconformidade com a legislação. No ponto da Billings utilizado para abastecimento público, garantem técnicos da Cetesb, não foi observada nenhuma desconformidade com a legislação em relação ao mercúrio total ao longo do ano de 2008.

Fórmula

A Cetesb utiliza uma fórmula matemática que tem muitas variáveis para elaborar o Índice de Qualidade da Água (IQA). Trata-se de um indicador de qualidade de águas doces para fins de abastecimento público, obtido a partir de uma fórmula matemática que usa como parâmetros a temperatura, o pH, o oxigênio dissolvido, a demanda bioquímica de oxigênio, a quantidade de coliformes fecais, o nitrogênio, o fósforo, os resíduos totais e a turbidez, todos medidos na água.

A classificação, segundo as faixas estabelecidas pela Cetesb é: ótima (de 80 a 100); boa (de 52 a 79); regular (de 37 a 51); ruim ( 20 a 36) e péssima (0 a 19). Quanto maior o valor do IQA, melhor a qualidade da água. Esse indicador foi adaptado e desenvolvido pela Cetesb, a partir de um estudo realizado em 1970 pela National Sanitation Foundation, dos Estados Unidos.

Bird libera US$ 100 mi para obras em mananciais

Construir redes coletoras para fazer o transporte do esgoto de 45 favelas em processo de reurbanização no entorno das Represas Billings e do Guarapiranga para estações de tratamento em Santo André e Barueri, na Grande São Paulo. Na tarde de ontem, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) assinou acordo de empréstimo de US$ 100 milhões com o Banco Mundial (Bird) para iniciar tais obras. O recurso é parte do programa de recuperação dos mananciais, cujo valor total é de R$ 1,39 bilhão. Os planos do governo do Estado, em parceria com prefeituras e União, é recuperar reservatórios e organizar a ocupação no entorno das Represas Billings e do Guarapiranga. Hoje, 2,5 milhões de pessoas vivem nos arredores dos mananciais. Boa parte dos recursos já foi disponibilizada - falta chegar o empréstimo de R$ 209 milhões do banco japonês Jica, previsto para o primeiro semestre do ano que vem. "Apesar de ser entrecortada por rios, a Região Metropolitana fica na área da nascente da bacia, o que faz com que o volume de água seja pouco para toda a população. Por isso, a recuperação dos mananciais é fundamental", diz a secretária Estadual de Saneamento e Energia, Dilma Penna. O trabalho de reurbanização de favelas fica sob responsabilidade das prefeituras. O projeto prevê a ligação de esgoto em 18 mil domicílios. Cabe à Sabesp e ao governo do Estado promover o transporte e o tratamento desse esgoto. Estima-se que devam ser construídos 186 quilômetros de tubulações para todo o sistema de captação e tratamento de esgoto na Billings e Guarapiranga.

Extinção de espécies é provável, alerta biólogo

Eduardo Reina

O biólogo Leo Ramos Malagoli, da divisão técnica de Unidades de Conservação e Proteção da Biodiversidade da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, acredita que muitas espécies podem desaparecer por causa do desmatamento, fragmentação de hábitats e, principalmente, pela contaminação da água por esgoto não tratado.

Na Billings, Ribeirão Pires é o principal exemplo da degradação. Desde 2002, quando a Cetesb passou a usar o Índice de Qualidade das Águas para Proteção de Vida Aquática (IVA), a qualidade da água mantém-se péssima na área do município, onde 60 mil pessoas que habitam áreas vizinhas ao manancial despejam esgoto no local.

O professor André Henrique Rosa, do Departamento de Engenharia Florestal da Unesp de Sorocaba, explica que a matéria orgânica do esgoto consome o oxigênio que estaria disponível à vida aquática da represa.

Apenas 45% de Ribeirão Pures tem rede pública de coleta de esgoto. A secretária adjunta do Verde e Meio Ambiente do município, Silmara Delfino, disse que a Sabesp está implantando rede coletora e fazendo a interligação com o tronco que levará os dejetos para a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) ABC, no limite de São Paulo com São Caetano do Sul.

"A meta é que entre 2010 e 2013 esse coletor-tronco esteja interligado à rede que está sendo construída em Ribeirão Pires", diz Silmara. "A instalação de rede coletora nas ruas vai solucionar nosso problema. O esgoto de Ribeirão não será mais jogado na Billings", promete.

Silmara explica que o município tem uma estação de tratamento, na Vila Mortari, mas ela será desativada porque seu funcionamento é precário. Para o ambientalista Carlos Bocuhy, membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), se estivesse funcionando corretamente, a estrutura ajudaria a diminuir a quantidade de esgoto lançada no manancial.

O investimento em saneamento básico alivia a pressão em outros setores. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada US$ 1 gasto em saneamento, US$ 4 são economizados em saúde.

OESP, 29/10/2009, Metrópole, p. C12

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