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A poluição é uma questão política e, por isso, difícil

OESP, Vida, p. A27
Autor: GORE, Al
15 de Out de 2006

A poluição é uma questão política e, por isso, difícil
Al Gore, ex-vice presidente dos EUA e protagonista do documentário 'Uma Verdade Inconveniente'. Democrata diz que está em campanha por uma causa: a formação da opinião pública para que ela pressione os políticos

Adriana Carranca, Nova York

"Meu nome é Al Gore e eu costumava ser o próximo presidente dos Estados Unidos", diz o ex-vice-presidente de Bill Clinton, iniciando mais uma palestra sobre as conseqüências do aquecimento global, já apresentada por ele mais de mil vezes. Gore foi o candidato democrata que perdeu as eleições para George W. Bush na Suprema Corte americana após ter vencido em votos populares, em 2000. Aos 58 anos, diz estar envolvido em outra campanha. Com o documentário Uma Verdade Inconveniente e o livro homônimo, Gore se tornou a voz mais famosa na luta contra o aquecimento global.

Ele chega a São Paulo na terça-feira para lançar seu livro e proferir mais uma palestra, durante evento de entrega do 24 Prêmio Eco, promovido pela Câmara Americana de Comércio, a 16 empresas que se destacaram em desenvolvimento sustentável e responsabilidade social. Antes de viajar, Gore recebeu o Estado para a seguinte entrevista.

Por que o senhor escolheu a bandeira do aquecimento global em face de outras catástrofes mundiais como pobreza e terrorismo?

O aquecimento global é o único que ameaça acabar com a civilização humana. A menos que se resolva isso, se tornará impossível solucionar outros problemas. E quando passarmos a tratar a questão ambiental corretamente, ela se tornará uma das melhores formas de aliviar a pobreza.

Como?

Algumas das melhores oportunidades de novos empregos nos países em desenvolvimento estarão no campo da proteção ambiental e no desenvolvimento de tecnologia para a produção de energia alternativa. O Brasil tem o exemplo da produção de álcool como substituto para combustíveis fósseis, em que se tornou líder mundial.

Recentemente, o aquecimento global foi retratado na revista 'The Economist' como um assunto complexo, com causas e conseqüências ainda incertas. Como o senhor responde a isso?

Há quem acredite que a chegada do homem à Lua foi uma montagem filmada em um estúdio no Arizona. Mas não damos atenção porque a verdade está estabelecida. E a verdade sobre aquecimento global é consenso científico mais forte do que o existente sobre qualquer outro assunto. Aqueles que querem continuar poluindo, inclusive o presidente Bush, não querem aceitar porque a verdade é inconveniente.

Há quem defenda que a desaceleração econômica para reduzir a emissão de carbono seria mais prejudicial para a humanidade nesse momento.

Quem acha isso é porque tem medo de reduzir seus lucros. Como disse Upton Sinclair, é muito difícil fazer um homem entender algo quando seu salário depende de ele não entender. Como convencê-los a mudar de opinião? É preciso reduzir os impostos em empregos e aumentar impostos em poluição. Setenta milhões de toneladas de CO2 são jogadas por dia na atmosfera da Terra, sem qualquer custo para os poluidores. Isso afeta a todos nós e deveríamos colocar um preço nisso. Quando houver um preço a ser pago, os poluidores irão achar economicamente interessante reduzir a emissão.

É uma questão política?

Sim e, por isso, tão difícil. Temos tudo o que precisamos para resolver a crise ambiental na qual o planeta se encontra, falta apenas vontade política.

O senhor pensa em se candidatar a presidente dos Estados Unidos novamente?

Não tenho planos.

Não se trata de uma obrigação moral de sua luta, já que, como o senhor disse, o assunto depende de vontade política?

Não há posição mais poderosa do que a de presidente, mas eu me candidatei duas vezes e eu não sinto que é necessariamente o melhor caminho. Continuo envolvido em uma campanha política, não pela minha candidatura, mas por uma causa. Quero ganhar a opinião pública para que pressione os políticos a agir.

Um filme que preocupa e incomoda até céticos
Documentário de Al Gore é rico em imagens chocantes

Giovana Girardi

O documentário Uma Verdade Inconveniente, de Davis Guggenheim, que estréia no dia 3 de novembro no Brasil, é quase piegas, mas consegue passar sua mensagem com eficiência: o espectador sai do cinema com aquela sensação de "epa! se não fizermos nada o mundo estará realmente perdido".

Intercalando palestras do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore com momentos de sua vida pessoal, o filme costura de modo convincente os inúmeros impactos do aquecimento global. Seu mérito está justamente aí. Quem lê uma pesquisa aqui, outra acolá, pode não compreender a dimensão do problema. Mas no documentário é possível ter a noção de como as conseqüências estão encadeadas umas nas outras.

Com apresentação de uma série de estudos científicos, estatísticas e imagens chocantes de "antes e depois" e de desastres ambientais, fica claro o ciclo de acontecimentos: atividades humanas levaram (e ainda levam) ao excesso de emissões de gases do efeito estufa - sendo o gás carbônico o principal deles -, causando aumento na temperatura nos últimos anos.

O calor provoca derretimento de neve que se supunha eterna. Com o desaparecimento do gelo, que além de tudo tinha a função de refletir os raios solares, eles passam a ser mais absorvidos pela área alagada, aquecendo a água dos oceanos, o que promove aumento na incidência de furacões.
O tom do discurso é propositadamente catastrófico, mas pincelado com ironia suficiente para rirmos da nossa - leia-se, da dos americanos e de seus governantes - própria estupidez. Gore não poupa críticas ao governo Bush, que o derrotou nas eleições presidenciais de 2000. E parece dizer com gosto que o feitiço uma hora vira contra o feiticeiro.

O filme esbanja imagens da destruição causada pelo furacão Katrina no ano passado em Nova Orleans. E apresenta uma projeção de cidades que serão inundadas com o aumento do nível do mar. O local onde ficavam as Torres Gêmeas, em Nova York, seria novamente destruído. É o gancho de Gore para defender que a luta de seu país vá além do combate a terroristas.

Mas sua militância é globalizada, como o aquecimento. E sua tentativa é genuína - mostrar que a solução está nas mãos de todo mundo.

OESP, 15/10/2006, Vida, p. A27

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