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A política da pilhagem

OESP, Vida, p. A18
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
14 de Jul de 2005

A política da pilhagem

Marcos Sá Corrêa

Se a onda é de pessimismo, melhor surfá-la com o biólogo John Terborgh, que é doutor na matéria. Ele dirige a escola de meio ambiente da Duke, que joga no primeiro time das universidades americanas. Dedicou as últimas décadas de sua carreira a conservar as florestas tropicais, sem ter a menor dúvida de que escolheu o partido dos derrotados. As florestas que ele defende estão com os dias contados. Prevê-se que estejam extintas em meados deste século. E Terborgh explica por que em Requiem for Nature, livro que nunca saiu em português, talvez por dizer coisas que nenhum povo gosta de ouvir sobre a pilhagem de seu patrimônio.
Perto dele, conversa de Roberto Jefferson é refresco. Terborgh, como o deputado, também fala de corrupção. Mas se especializou no pior tipo de rapina, a que rouba ao mesmo tempo futuro e passado, oferecendo o presente a quem pegar primeiro. É praga típica do atraso político, da desigualdade social e da miséria administrativa. Devora os maiores tesouros biológicos do planeta, que a história por azar deixou nas mãos de povos sem recursos para preservá-los. Brota na pobreza e faz brotar mais pobreza. Enquanto dura, rende ótimos negócios.
Fora as relíquias guardadas nos poucos parques nacionais que os governos levam a sério, as florestas tropicais devem sumir do mapa "entre 30 e 50 anos", segundo Terborgh. Elas são altamente sensíveis à desordem política. E se entrincheiram em países onde em geral a bagunça é endêmica.
Em quase quatro décadas de pesquisas ao redor do planeta, ele cansou de ver matas virarem pó antes de chegar a conhecê-las. Cada uma delas era um exemplo único e inimitável da profusão de vida selvagem que os devotos chamam de biodiversidade. Mas a história de seu desaparecimento não mudava. Era sempre falta de lei, polícia e governo.
Para não encará-lo, os políticos recorreram a paliativos ambientais que soam aos ouvidos de Terborgh como conversa mole para ecologista dormir. Desenvolvimento sustentável de floresta tropical, para ele, é "puro disparate". Passar as unidades de conservação à tutela de populações indígenas resulta, na prática, em licença legal para a caça predatória. Manejo florestal por madeireira certificada acaba, cedo ou tarde, em matas que morrem de pé. E reserva extrativista, essa fórmula conciliatória dos bancos internacionais de fomento que o governo Lula entronizou no Ministério do Meio Ambiente, é um híbrido de assistência social com preservação da natureza que até agora não teve descendência viável.
Terborgh, em princípio, também acha o populismo ecológico simpático. Pena que não funcione, em lugares cuja exuberância não passa de fragilidade. Uma fêmea de onça com filhote precisa de 20 quilômetros quadrados só para ela. É muito luxo para pouco parque. "E daí? Vai-se a onça, fica a mata", diria o leigo. Quem dera, responde Terborgh. Qualquer floresta desertada por grandes predadores está agonizando. Até seus espasmos de vitalidade são, no fundo, sintomas de doença. A proliferação de quatis, por exemplo, pode encantar turistas. Mas são o aviso de que os ovos são comidos no ninho em ritmo de extermínio. Sem os pássaros certos, acabam as plantas que dependiam deles para espalhar sementes. E daí por diante, até o fim. Terborgh, ao contrário de Roberto Jefferson, não sabe nada do governo Lula. Mas sabe tudo o que os brasileiros estão perdendo nessa crise.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 14/07/2005, Vida, p. A18

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