O Globo, Razão Social, p. 6
05 de Jan de 2009
Polêmica sobre diesel tira Petrobras do Ethos
Empresa alega que está dentro da lei mas Ethos quer que ela vá além disso
Amelia Gonzalez
amelia@oglobo.com.br
O desfecho de uma polêmica que começara há dois anos envolvendo a Petrobras e o teor de enxofre no diesel, teve tintas fortes e causou uma crise no mundo da sustentabilidade no fim do ano. Tudo começou quando, em novembro, jornais anunciaram que a Petrobras tinha sido retirada da carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa porque resistira em reduzir o teor do enxofre no diesel para 50 partículas.
A Petrobras reagiu, argumentou que está dentro da lei, já que a resolução 315 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) dá o prazo até este mês de janeiro para que a empresa passe a fornecer diesel mais limpo, e que a Agência Nacional de Petróleo não tinha fornecido ainda as especificações necessárias.
Mas o caso não acabava aí: no dia 17 de dezembro, a empresa mandou uma carta para o Instituto Ethos, de quem sempre foi associada, dizendo que a partir daquele momento estava fora da organização.
Era uma resposta ao fato de a notícia de sua expulsão do ISE ter sido veiculada por Oded Grajew, diretor do Ethos.
Pouco tempo depois, foi a vez de o Ethos divulgar nota dizendo que tinha sido suspenso do Conselho Deliberativo do ISE por 12 meses. Motivo: falta de confidencialidade, pois o conselho julgou que o fato de a Petrobras ter sido retirada da carteira não deveria ter sido divulgado. O Ethos lamentou em nota e Grajew também respondeu, dizendo que não sabia ser confidencial um assunto que se tratava de interesse público.
Para o gerente de responsabilidade social da Petrobras, Luis Fernando Nery, no entanto, a questão foi política.
- Enviaram documentos parciais, dados com tabelas cortadas, para os conselheiros do ISE, e foi a partir daí que foi tomada a decisão de nos tirar da carteira. Mas ninguém nunca disse que, segundo a última pesquisa da Cetesb, o índice de enxofre do ar de São Paulo está abaixo do que prevê a legislação. E vamos fornecer diesel mais limpo no prazo garante ele.
Mas o produto que a Petrobras vai fornecer, por enquanto, é importado. Isso porque, segundo Nery, é preciso uma especificação que a Agência Nacional de Petróleo ainda não fez. Além do mais, ainda que esteja pronta para distribuir diesel mais limpo este ano, a Petrobras está convicta de que a medida vai interferir pouco no ar que se respira:
- Cerca de 80% das emissões de material particulado no ar vêm de veículos desregulados. Além disso, o diesel 50 em caminhão antigo só reduz o enxofre em 10%, por isso a ANP precisa especificar o diesel. Senão, a empresa iria gastar cerca de 4 bilhões de dólares com uma nova unidade para produzir este diesel e depois teria que fazer tudo de novo quando viesse a especificação. Nós nunca dissemos que não iríamos fazer o diesel mais limpo. Não descumprimos a lei disse Nery.
É justamente aí que, segundo o Instituto Ethos, a empresa errou. Para Ricardo Young, presidente da organização que reúne mais de mil empresa socialmente responsáveis, "o Ethos procurou fazer tudo o que estava ao nosso alcance para convencer a Petrobras de que ela tinha que liderar essa discussão":
- Ninguém nunca disse que o caminho da sustentabilidade é fácil, pelo contrário.
Ele tem contradições, dilemas, mas é uma construção coletiva. O avanço se dá pela forma como o dilema for enfrentado. A Petrobras é uma empresa de ponta no setor, o que a obriga a tomar a frente da discussão sobre o diesel mais limpo, é uma questão de saúde pública disse ele.
Para Young, há uma questão mais forte, de governança, na Petrobras. Segundo ele, a empresa virou um muro de concreto e está sendo usada pelo governo Lula:
- Que empresa é esta que o presidente Lula fala em nome dela e o presidente (Sergio Gabrielli) nunca está disponível para falar? pergunta.
Buscando entender o processo que culminou na retirada da Petrobras da carteira do ISE, a Razão Social tentou fazer contato com alguns conselheiros do índice. Mas, em respeito ao tal código de confidencialidade, o conselho fez silêncio. A Bovespa, guarda-chuva do Índice, disse, via assessoria de imprensa, que não comenta o caso. No site do ISE, há a informação de que outras empresas também foram retiradas, como a Aracruz e a Copel.
Mas não há uma linha explicando o motivo da retirada.
Para o movimento de responsabilidade social, o rompimento da Petrobras com o Ethos foi uma perda. Mas o fato pode ter sido um marco na história do movimento:
- Não podemos permitir que as empresas se utilizem da relação com o Ethos para manipular a opinião pública.
Fizemos uma reunião e decidimos que, se até aqui o Ethos teve como missão ajudar as empresas a saberem o que é responsabilidade social, nos próximos dez anos a gente tem que construir uma sociedade socialmente responsável. E as empresas são centrais neste esforço. Por isso, não vamos transigir - disse Ricardo Young.
O Globo, 05/01/2009, Razão Social, p. 6
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