GM, Agribusiness, p.B12
15 de Jun de 2004
Plantio na Amazônia afeta desmatamento
Belém, 15 de Junho de 2004 - O plantio da soja na Amazônia está tendo uma influência indireta sobre o desmatamento na região. A expansão da cultura tem acontecido fundamentalmente em pastagens já formadas, onde o custo de implantação da atividade é menor. No entanto, ao ocupar pastagens, a soja acaba por pressionar a expansão da atividade pecuária para área com floresta. Essa avaliação está contida no trabalho "Desmatamento na Amazônia - indo além da emergência crônica", que um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) acaba de lançar.
A analisar o caso da produção de grãos, o trabalho mostra que, somente no Mato Grosso, o maior produtor, foi registrado aumento da safra de 7,4 milhões para 13,2 milhões de toneladas entre 1999 e 2003. No período, a expansão da área chegou a 16 mil quilômetros quadrados.
Os pesquisadores Ane Alencar, Daniel Nepstad, David McGrath, Paulo Moutinho, Pablo Pacheco, Maria Del Carmen Vera Dias e Britaldo Soares Filho afirmam que tudo indica que o plantio de soja seguirá aumentando nos próximos anos, principalmente no Mato Grosso. "O aumento da demanda pelo grão e do preço no mercado externo, aliado à desvalorização do real e às condições mais favoráveis para a produção, deverão impulsionar a soja floresta adentro", informa o Ipam.
Segundo o instituto, só seria possível expandir o plantio de soja no Mato Grosso sem gerar mais desmatamentos, se as pastagens, agora arrendadas ou ocupadas pela agroindústria, não "migrassem" para novas áreas florestadas. "Contudo, é muito improvável que aconteça tal desconexão entre as duas atividades, principalmente devido ao aumento do rebanho bovino que houve nos últimos anos. A expansão da soja deverá continuar gerando, indiretamente, novos desmatamentos, pois, além da área de cerrado, que há muito tem ocupado, passa agora a utilizar áreas de pastagem que também estão em expansão."
Segundo o Ipam, o arrendamento de pastos para o plantio de grãos no Mato Grosso está virando um bom negócio para os pecuaristas e produtores de soja, especialmente em municípios onde grandes fazendas de criação de gado foram consolidadas pelos financiamentos da antiga Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
"Devido ao tempo de uso e ao manejo inadequado extensas áreas de pastagens na Amazônia ficaram degradadas. Os contratos de arrendamento de pastos degradados ao estabelecimento da soja significam oportunidade para os proprietários terem o solo corrigido no futuro por meio da aplicação de fertilizantes e calcário", segundo o Ipam.
O arrendamento no Mato Grosso está sendo feito em média por um período de três anos, "um tempo possivelmente suficiente para restabelecer os nutrientes do solo e torna-lo capaz de sustentar uma pastagem produtiva novamente". Outro ponto destacado é relacionado aos preços da terra, como conseqüência da expansão da soja e da pecuária. No Mato Grosso, por exemplo, o preço médio do hectare com pastagem entre novembro e dezembro de 2001 estava em R$ 462, e passou para R$ 971 em janeiro e fevereiro de 2003, variação de 110% em pouco mais de um ano. Esse aumento é apontado como reflexo também da necessidade de novas áreas de pastagem para abrigar o gado deslocado pela lavoura de soja.
O Ipam aponta como exemplo da expansão da soja em áreas de floresta de transição e com topografia plana o município de Querência, no nordeste do Mato Grosso. Lá o instituto diz que está prevista a incorporação de 60 mil hectares de soja nos próximos cinco anos. Isso tem influenciado na valorização do preço do hectare da floresta, que saltou de R$ 125 no fim de 2001 para R$ 550 no início de 2003, 340% a mais.
(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados12)(Raimundo José Pinto)
GM, 15/06/2004, p. B12
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