OESP, Vida, p.A22
28 de Jan de 2006
Pirarucu ecológico agora em SP
Comunidade ribeirinha do Amazonas produz o peixe de maneira sustentável e começa a exportá-lo para o Sul
Talita Ribeiro
Nem a grande seca que castigou o Amazonas foi capaz de brecar a produtividade recorde de peixes de Fonte Boa. Enquanto grande parte da população ribeirinha do Estado passava fome pela restrição à pesca imposta pela estiagem, os pescadores do município, que fica a 680 km em linha reta de Manaus, comemoravam a abundância e acertavam os detalhes de um acordo que lhes abriu as portas do mercado consumidor do Sul do País. Desde o início desta semana, os pirarucus produzidos em Fonte Boa em sistema de manejo sustentável podem ser comprados em 170 supermercados do Grupo Pão de Açúcar em sete Estados.
Situada em uma área conhecida como Triângulo, entre os Rios Jutaí, Solimões e Juruá, o município abriga mais de 700 lagos naturais. Cerca de 300 deles são usados como tanques para o manejo do pirarucu, um peixe nobre e ameaçado de extinção, mas que em Fonte Boa representa 90% da economia. Protegido por lei contra a pesca predatória, o pirarucu (Arapaima gigas), que em tupi quer dizer peixe vermelho, é um dos maiores peixes de escama de água doce do mundo. Pode chegar a 2,5 metros de comprimento e 200 quilos.
De acordo com Nestor Lourenço, especialista em manejo de recursos naturais, a pesca do pirarucu só é permitida no Amazonas em áreas de manejo, como a Reserva de Mamirauá, onde ficam os lagos de Fonte Boa. "Nos outros Estados da Amazônia pode-se pescar o pirarucu de junho a dezembro, mas aqui o abate é proibido em todos os meses, exceto nas reservas extrativistas ou de desenvolvimento sustentável", explica. "O manejo é uma forma controlada de pesca, diferente da criação, onde o peixe é colocado no lago e abatido ao atingir o peso ideal. É a união do conhecimento científico com o tradicional, do caboclo", acrescenta.
O sistema começa com a contagem de peixes em cada lago. " O pirarucu é um peixe de respiração aérea, ele precisa vir à superfície de 30 em 30 minutos. Assim, fica fácil para os caboclos contarem. Depois os engenheiros de pesca fazem o cálculo da quantidade permitida para um abate sustentável. A pesca só volta a ser realizada no mesmo lago após cinco anos, tempo que o pirarucu leva para atingir a idade adulta. Esse ciclo se repete todos os anos, com revezamento dos lagos."
Pasto aquático
Essa técnica é desenvolvida na região desde 2003, em uma parceria do Instituto de Desenvolvimento Sustentável com a Agência de Floresta do Amazonas, como parte do Projeto Zona Franca Verde, do governo estadual. Para o secretário de Educação do município de Fonte Boa, Humberto Lisboa, essa é a saída econômica para a população do município, 60% desempregada. "Assim como outros Estados têm pastos para criar bois, precisamos ter consciência de que o Amazonas é o Estado das Águas. Os rios devem ser nossos pastos e nossa fonte econômica. Assim, salvamos a floresta e garantimos nosso pão." Em Fonte Boa, o quilo do pirarucu custa R$ 1,50 - em Manaus, chega a R$ 17, mesmo preço que será vendido, em média, nos supermercados do grupo Pão de Açúcar.
O secretário acredita que o passo seguinte para Fonte Boa seria o da industrialização. "As empresas precisam vir para cá analisar nosso potencial, único no mundo. Se conseguirmos iniciar o processo de beneficiamento do pirarucu, vamos evitar que esse passo seja dado por outros países, como aconteceu com o tambaqui na China", lembra.
'DESPESCA '
Os ribeirinhos de Fonte Boa retiram cerca de 30 mil exemplares de pirarucu por ano dos lagos. O modelo de manejo participativo envolve 4 mil pessoas de 100 comunidades. Cada família recebe uma cota e é responsável também por fiscalizar e preservar os lagos. A chamada "despesca" (quando não há abate) acontece de agosto a novembro.
Em 2003 o município recebeu um investimento de R$ 15 milhões do programa Zona Franca Verde, que foram aplicados em pesquisas. Como resultado, o município não sentiu os efeitos da falta de peixes durante a vazante; pelo contrário, viu seus lagos repletos. Em 2005, a pesca do peixe rendeu mais de R$ 2 milhões. Para 2006, a comunidade espera chegar a R$ 5 milhões. No Estado do Amazonas, a pesca movimenta cerca de R$ 400 milhões por ano, com produção média de 160 mil toneladas.
A lenda do índio blasfemo e mau que Tupã puniu
Talita Ribeiro
Segundo estudo do historiador Yomarley Holanda, Pirarucu era um índio da tribo uaiuai que habitava as planícies de Lábrea, no sudeste da Amazônia. Era um bravo guerreiro, mas matava seus irmãos sem nenhum motivo.
Pirarucu também criticava os deuses. Tupã, o deus dos deuses, tolerou-o por um longo tempo, até que decidiu puni-lo. Chamou Pólo e ordenou que espalhasse seu mais poderoso relâmpago. Chamou lururaruaçú, a deusa das torrentes, e ordenou que provocasse fortes chuvas sobre Pirarucu, que estava pescando nas margens do Rio Tocantins. Pirarucu ignorou a advertência com uma risada. Então, o deus enviou Xandoré para atirar raios sobre o guerreiro. Pirarucu tentou escapar, mas foi atingido no coração. Mesmo assim ainda se recusou a pedir perdão. O corpo do guerreiro, ainda vivo, foi levado para as profundezas do Rio Tocantins e transformado em um grande e escuro peixe.
À mesa, uma carne tenra, saborosa e de poucas calorias
Lucinéia Nunes
De carne tenra e saborosa, o pirarucu é um dos principais alimentos no Norte. Conhecido como bacalhau da Amazônia, por sua carne ser vendida seca e salgada, ele também é encontrado fresco por aqui. O pirarucu ganha preparos diversos, em versões na brasa, grelhado, moquecas, caldeiradas ou somente cozido com leite de coco ou de castanha-do-Pará.
Em lascas, é acompanhado por açaí, chibé (mistura de farinha e água) ou farofa molhada. Também fica uma delícia com banana crua, arroz branco ou farinha de mandioca fina. Entre as inúmeras maneiras de preparar o peixe, uma boa pedida é desfiá-lo depois de dessalgado e cozido e temperá-lo com azeite, alho, cebola, tomate refogado e cheiro-verde. Pode-se acrescentar ovos cozidos e azeitonas. Se estiver fresco, basta grelhar e cobrir com azeite e cebola.
Nutritivo, o pirarucu é rico em proteínas e sais minerais. Cem gramas do peixe cozido têm 91,6 calorias e 354,5 quando frito.
Numa visita ao Pará, o então presidente Costa e Silva deixou de lado o protocolo e repetiu a caldeirada do peixe. Já a receita de pirarucu de casaca, com farinha de mandioca, ameixas secas, bananas, catchup, ovos, leite de coco e até goiabada, é uma das preferidas dos atores Kevin Costner e Robert de Niro.
O chef do restaurante Cantaloup, Naim dos Santos, fez recentemente um menu especial à base do peixe. Entre as receitas, tempura de pirarucu com purê de batata doce e juliana de alho-poró; e medalhão de pirarucu recheado com tapenade com marinada de legumes ao shoyu.
OESP, 28/01/2006, p. A22
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