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Piracema de laboratório

Globo Reporter
Autor: PORTO, Ciro
12 de mar de 2004

Piracema de laboratório

Ciro Porto

O ponto de partida da equipe do Globo Repórter é o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus. O rumo é o noroeste do estado do Amazonas. O vôo é para um dos extremos do Brasil: a região conhecida como Cabeça do Cachorro, área de fronteira com a Colômbia. O céu não é dos melhores. É o início da época da chuva. Chuva que ora enfeita a paisagem, ora torna o vôo cego.
O Rio Negro aparece e revela suas ilhas e praias. O trajeto em direção às cabeceiras dele é de 1,2 mil quilômetros sobre a floresta intocada. O Rio Negro e seus afluentes estão no ponto máximo da vazante, criando os mais bonitos cenários da Amazônia.
Cerca de duas horas de vôo e o município de Santa Isabel é alcançado. Mais meia hora e os maciços de granito indicam a chegada a São Gabriel da Cachoeira, uma das portas de entrada da terra indígena do Alto Rio Negro.
O pouso em São Gabriel da Cachoeira é obrigatório. No local, além de abastecer o avião, é preciso pegar autorização com a Força Aérea Brasileira para o pouso na pista de Pari-Cachoeira, em uma área de segurança militar a cerca de dez quilômetros da fronteira com a Colômbia, terra dos índios tucanos, tuiucas e macus.
O guia, o índio tuiuca Higino Tenório, embarca. Ele é professor dos índios. Com 49 anos, conhece a região como poucos. A viagem continua rumo a oeste, seguindo o Rio Uaupes um dos principais afluentes do Negro. Uma hora e meia de vôo e o avião pousa na pista de um pelotão especial de fronteira.
A viagem de avião termina. Agora, de barco, a equipe vai subir o Rio Tiquié. O rio é estreito, seco e cheio de corredeiras, que parecem desencorajar qualquer um de entrar na terra dos índios.
Mas os piloteiros são índios da terra e conhecem os segredos de cada uma das corredeiras. Algumas não têm segredo algum, só mesmo arrastando os barcos. É a primeira vez que uma equipe de TV chega ao Alto Tiquié. E não é difícil entender por que: a água é muito rasa nas cachoeiras e a distância é grande. A última corredeira é mais difícil. Só os índios atravessam nos barcos. Os demais seguem pela margem.

Tucanos, tuiucas e mascus vivem na região há mais de um século. Os índios se espalham em pequenas comunidades. O sustento vem de pequenas roças, da caça e principalmente da pesca. Uma pequena cachoeira, um rio para pescar e se banhar e toda uma floresta com tudo que ela oferece. O lugar pode parecer ideal para uma aldeia inteira viver.
Mas as comunidades indígenas do Alto Tiquié são hoje um exemplo de que impacto ambiental não é um problema exclusivo dos brancos das grandes cidades. O aumento da população indígena e da pesca deixaram o Rio Tiquié praticamente sem peixes, comprometendo inclusive a sobrevivência dos índios em plena selva amazônica.
"Se os índios dependessem dos peixes que ainda vivem no Rio Tiquié, dificilmente sobreviveriam, porque a quantidade caiu muito. Nossos pais colocaram muito veneno no rio, que foi acabando. Peixe é a base da nossa alimentação e por isso sentimos esse problema", diz o índio tuiuca Higino Pimentel Tenório.
Ninguém imagina, mas os índios têm uma estação de psicultura, com laboratório e incubadoras. E os técnicos são os próprios índios. O projeto do Instituto Socioambiental vem há cinco anos preparando os índios para enfrentar a escassez de peixes com tecnologia.
As primeiras aulas foram na própria selva. O aperfeiçoamento, a mais de 5 mil quilômetros do local. No Centro de Peixes Tropicais do Ibama (Cepta), em Pirassununga, interior de São Paulo, os índios se especializaram em fazer a piracema de laboratório. Hoje realizam na floresta todas as fases de reprodução artificial.
Cortam e retiram a pequena hipófise dos peixes. Com ela, preparam o hormônio que injetado faz os peixes desovarem.
"Gostei de aprender tudo isso porque vamos poder repassar para outras pessoas da comunidade e até de outras áreas", diz um dos índios.
"Esse contato muito íntimo com a natureza traz muitos conhecimentos, e isso facilita muito em termos de aprendizado", comenta o diretor do Cepta Laerte Batista Alves.

Reproduzir peixes no meio da selva pode não ser fácil, mas desafio ainda maior é fazer esses peixes crescerem. Sem ter como produzir ração, os técnicos do Instituto Socioambiental, em conjunto com os índios, buscaram alternativas de alimentos para os peixes, como de folhas de mandioca, frutos da floresta e até formigas e cupins.
À tarde, os índios colocam armadilhas feitas com garrafas de refrigerante, mas com o princípio de funcionamento do matapi usado na pesca. Pela manhã, o resultado: centenas de saúvas, que vão das armadilhas direto para os tanques. Capturar saúvas significa também controlá-las. Assim é possível semear e produzir mudas sem o risco de serem atacadas pelas cortadeiras.
"Temos 16 variedades de frutas para os peixes. Observamos que eles comem todas elas quando caem das árvores nos rios", conta um dos moradores da comunidade.
"Os peixes precisam ingerir proteína para crescer. Na região, planta-se mandioca brava, uma planta extremamente pobre em proteína. Então, procuramos outras fontes de proteína", diz Pieter van der Veld, engenheiro agrônomo do Instituto Socioambiental (ISA).
E as dificuldades também esbarram na cultura. Alimentar animais em cativeiro não faz parte do hábito dos índios.
"Por unanimidade, o principal problema da região era a falta de peixe. E para enfrentar isso, todos estão mobilizados. Acho que eles serão capazes de encontrar soluções apropriadas para dar conta de alimentá-los. Uma vez resolvido esse problema, o próximo passo do projeto é a integração das escolas-piloto, para que novas gerações possam gerenciar futuramente essa questão da escassez e como zelar não só pela segurança alimentar mas pelo repovoamento dos rios", avalia Beto Ricardo, coordenador do Projeto Rio Negro, do Instituto Socioambiental (ISA).

Dança da esperança

Amanhece no Rio Tiquié. Seis índios tucanos remam suas canoas, feitas de casca de árvore. A alegria deles esconde uma preocupação. Até fevereiro não havia nenhum sinal de piracema. O Rio Tiquié continuava baixo. A cheia que provoca a desova dos peixes parece não querer chegar esse ano.

Os tucanos se preparam para a pesca. O meio é comum: vão utilizar uma rede. A finalidade é capturar matrizes para a produção de alevinos. Essa é a época de abastecer os viveiros das comunidades.
O rio é fechado com a rede. Os índios sobem o Tiquié e começam a bateção: das canoas ou nadando nas margens, batem com varas e remos para espantar os peixes em direção à rede. O esforço é grande, mas o resultado não anima: sete aracus - quatro machos e três fêmeas.

Rapidamente os peixes recebem a injeção de hormônio produzido com a hipófise que os índios aprenderam a retirar dos peixes. Machos e fêmeas são colocados em viveiros separados. Agora só resta esperar cerca de 20 horas para retirar o sêmen e as ovas para a fecundação.

"Preocupa muito o atraso da piracema, porque a gente precisa produzir mais alevinos e distribuir para as comunidades. De um peixe, conseguimos tirar cerca de 60 mil ovos. Mesmo assim, precisamos pegar bastante, porque são muitas comunidades", diz o índio tucano Lucas Alves.
Enquanto isso, a equipe sobe o Tiquié em direção à aldeia tuiuca. Eles são recebidos em clima de clima de festa. A aldeia se prepara para um ritual. Lua cheia, floresta silenciosa. No interior da maloca, o som de flautas. A cada mudança de estação, os tuiucas comemoram com danças sagradas. Estava começando a Dança da Piracema, para que a chuva traga a cheia e garanta a reprodução dos peixes.

Os sons das flautas de Pã se misturam com de instrumentos incomuns: flauta de cabeça de servo, o casco de um jabuti. A maloca ganha um ar mágico. Os guerreiros entoam cantos sagrados.

No céu, nenhum sinal de chuva. Mas não muito longe dali, a vida já se multiplica numa incubadora. E começa a pulsar. Fé e ciência se misturam. O ritual é da piracema, não importa se no rio ou em um laboratório.
Os tuiucas batem firme o pé direito no chão. É o pé do primeiro passo. O início de uma jornada na reconstrução da vida.

Fome ameaça aldeias

Vista de cima, a região do Alto Rio Negro exibe uma floresta preservada. Difícil acreditar que rios no meio da selva, tão distantes das cidades, não garantam o sustento dos índios. Mas essa é uma das muitas realidades da região amazônica. A reprodução artificial dos peixes pode ser uma alternativa de repovoamento do Rio Tiquié. Antes, os índios têm um desafio maior: garantir o alimento, o que, para eles, significa mais que matar a fome.
"Por causa da diminuição de peixes, muitas famílias podem ir embora para onde há fartura. Para nós é ruim, porque a terra é nossa, foi ocupada por nossa gente e atualmente está demarcada. Temos direitos sobre ela e nossa maior luta é não deixá-la vazia", comenta o índio tuiuca Higino Pimentel Tenório.
Debaixo do mesmo sol, homens bichos e plantas vivem uma mesma história. Uma história de luta pela vida, às vezes, vencida pelos mais fortes. E, na maioria, pelo mais inteligente. Mas que inteligência é essa que não respeita o todo. Para muitas espécies, a história da vida já chegou ao fim. Outras estão no capítulo final.
Uma história não escrita em livro mas em um planeta onde a relação do homem e a natureza se registra dia após dia em capítulos que apontam para um futuro onde a vida é bem menos abundante.
Para o pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda, nunca uma população humana residente conseguiu sobreviver só do que a floresta oferece. Ele pesquisou durante cinco anos a história da relação do homem com a natureza no Brasil. A fonte foram os textos dos jesuítas, os pais da biodiversidade brasileira.
"Enquanto somos nômades, podemos nos deslocar quando os recursos naturais se esgotam. Mas quando a população cresce e se fixa, praticando agricultura, não dá mais para viver do extrativismo. No Brasil, foi no século 16 que a biodiversidade saiu da Pré-História, porque os jesuítas começaram a descrevê-la e a tentar entender essa história. Acho que o que eles intuíram em seus escritos naquela época vale para hoje e aponta para o futuro. Atrás dessa imensa biodiversidade existe uma unidade, todos têm a mesma origem. E se todos têm a mesma origem, talvez todos tenham o mesmo destino. Mas, no futuro, essa natureza não viverá mais sozinha e o homem tem que cuidar dela, tem que se responsabilizar", diz o pesquisador.

Making of

Uma história escrita pelo destino

Por Ciro Porto
Os personagens desta história são expoentes. O maior peixe de escamas de água doce do mundo, o maior mamífero continental do Brasil e os mais antigos moradores de nossa terra: o pirarucu, o peixe-boi e os índios. Personagens que já existiam antes de nossa história começar, já viviam aqui antes dos jesuítas e navegadores portugueses traçarem as primeiras linhas da então terra descoberta, a Terra Brasilis.
Escolhemos esses personagens para contarmos um pouco da relação entre o homem e natureza no Brasil, desde a chegada dos portugueses até nossos dias. O que não imaginávamos é que iríamos presenciar cenas de vida e morte no mundo das águas.
Há cerca de seis meses começamos as gravações. No litoral de Alagoas, dois dias de busca e encontramos Lua, a primeira fêmea de peixe-boi marinho reintroduzida no mar pelo Centro de Mamíferos Aquáticos do Ibama. De cara, as pesquisadoras constatam a gravidez dela. Terminamos as gravações, e as pesquisadoras prometeram nos avisar quando o filhote nascesse.
Dias depois já estávamos gravando no Alto Solimões, no estado do Amazonas, a lida dos caboclos à procura dos pirarucus. Avião de São Paulo para Manaus, outro vôo de Manaus para Fonte Boa e mais quatro horas de barco até lagos preservados. Só três dias depois conseguimos gravar um caboclo arpoando o peixão. Ainda existem muitos? Sim, mas bem menos que antes.
De quebra, a criação em cativeiro se revela promissora. O pirarucu mostra que não é apenas um gigante da água doce, mas o peixe que cresce mais rápido no mundo. Em um ano atinge dez quilos. Isso significa dinheiro e, se dá dinheiro, vai viver longe do risco de extinção.
Tínhamos agora duas esperas: o nascimento do filhote de Lua e a chegada do mês de janeiro, época de piracema no Alto Tiquié, região de fronteira entre Brasil e Colômbia no estado do Amazonas. Um mês e meio de espera.
Cinco dias antes de viajarmos de novo de São Paulo para Manaus e de lá para o Alto Tiquié, chega a notícia do nascimento do filhote de Lua. Não podíamos cancelar a viagem programada e acertada com os índios há seis meses. Decidimos deixar a gravação do filhote para depois de nosso retorno.
No Rio Tiquié foi uma correria. Tínhamos apenas dois dias e meio para gravarmos na região, mas a autorização da Força Aérea Brasileira para pousarmos numa pista em Pari-Cachoeira demorou um dia. Resultado: em um dia e meio tivemos que gravar toda a luta dos índios na tentativa de reproduzir peixes artificialmente. Uma alternativa que encontraram para escapar da fome no meio da selva, uma vez que o abuso no uso do timbó (veneno) que seus antepassados cometeram praticamente acabou com os peixes do rio de águas limpas e cercado pela floresta. Conclusão: impacto ambiental não é problema exclusivo das grandes cidades, mas a ciência, através das técnicas de reprodução artificial, promete dar um jeito. As mãos dos índios que quase eliminaram os peixes agora consertam o estrago com injeções de hipófise, na piracema de laboratório.
De volta a Manaus outro nascimento. Uma fêmea de peixe-boi amazônico traz a vida um filhote nos tanques do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Um filhote diferente, com mais manchas brancas, característica da espécie. A cena do nascimento, gravada pela Rede Amazônica, é de arrepiar. De outro lado, a notícia da morte do filhote de Lua é de chorar. Dois dias separaram as notícias. Duas histórias bem diferentes separam essas espécies.
O peixe-boi marinho está mais ameaçado de extinção, restam apenas 500 deles. No litoral do Norte e Nordeste, a educação ambiental parece ter acabado com perigo da caça, mas o filhote encontrado morto, encalhado numa praia, revela um problema maior: já não existem mais regiões de estuário preservadas suficientes, locais onde normalmente os peixes-boi marinhos reproduziam sem o perigo de morrerem encalhados na praia por causa das marés.
Já o peixe-boi amazônico ainda é caçado nos rios da selva. Se não fosse, os quatro filhotes que nasceram em cativeiro no Inpa poderiam ser reintroduzidos sem nenhum problema.
Resta a torcida para que a educação ambiental também dê resultados na floresta amazônica.
Terminamos a reportagem com uma sensação estranha. Escrevemos uma história, mas não somos autores dela. Erros do passado ainda estão presentes. Hoje há acertos e tentativas de consertos. A história continua, não podemos apenas esperar o futuro. Há que se fazer algo mais no presente.
Um abraço,
Ciro Porto

Globo Repórter / Rede Globo, 12/03/2004

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