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Pessimismo global

O Globo, Ciência, p. 38
Autor: RAHMSTORF, Stefan
25 de Nov de 2011

Pessimismo global

Cláudio Motta
claudio.motta@oglobo.com.br

Reunião do clima começa na semana quem vem sem expectativa de acordo

A três dias da Convenção de Clima (COP-17) em Durban, na África do Sul, dados ambientais e até mesmo vazamento de e-mails de cientistas vêm sendo publicados com a perspectiva de influenciar as negociações. Ainda que ganhem grande repercussão, não alimentam a esperança de metas de redução da emissão de gases-estufa. Para muitos especialistas, evitar um retrocesso já pode ser considerado uma vitória. E, num pior cenário, até mesmo a capacidade da ONU de lidar com temas globais poderá ser abalada.
- Não devemos esperar qualquer avanço revolucionário em Durban - adverte o cientista Carlos Nobre, secretário de Políticas, Programas, Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. - O grande acordo que ainda se vislumbra, pelo menos que não se regrida, é a questão das florestas, o fundo de assistência a países mais pobres.
Para cientistas, acordo é improvável
O ponto central de Durban é um segundo período do Protocolo de Kioto. A base legal do acordo, que cria um mercado para financiar medidas de mitigação dos gases-estufa e estabelece metas de redução de emissões para países desenvolvidos, terminará no fim do ano que vem. Divergências já anunciadas tornam improvável qualquer acordo neste tópico.
Negociadores americanos, por exemplo, sequer vão discutir o assunto, uma vez que o congresso dos Estados Unidos não ratificou o protocolo. Se o fracasso se confirmar, a última chance de renovação é a COP-18, em 2012, na Coreia do Sul. Porém, o prazo ficaria apertado demais, de acordo com Carlos Rittl, coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia da ONG WWF-Brasil.
- Sem o Protocolo de Kioto não haverá marco referencial para discutir responsabilidades - diz Rittl. - Rússia, Japão, Austrália e Canadá também não vão se comprometer.
Nem mesmo o financiamento a países que ainda conservam suas florestas é certo. Os mais ricos, responsáveis pelas maiores emissões, e os em desenvolvimento, entre eles o Brasil, têm interesses divergentes. Ontem, Chris Huhne, secretário do Clima do Reino Unido, sugeriu um acordo em novas bases até 2015.
- Precisamos passar para um sistema que reflita a genuína diversidade de responsabilidade e capacidade dos países, em vez da diferenciação binária na qual você é "desenvolvido" se estava na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em 1992 - disse Huhne à BBC.
O impasse faz reverberar a frustração com a COP-15, realizada há dois anos em Copenhague. Em vez de corte de emissões, foi decidido que a temperatura não poderia aumentar mais do que 2 graus até 2050. Meta esta que fica mais distante a cada dificuldade nas negociações. Enquanto isso, os alertas científicos são mais robustos e, as emissões, recorde, mesmo com a crise econômica.
- Desde a COP de Nairóbi, em 2006, sabemos que o custo de prevenção é de 1% do PIB. Se nada for feito, em 20 anos estaríamos gastando 20% do PIB para lidar com problemas como elevação do nível do mar - argumenta o coordenador dos cursos de pós-graduação da escola politécnica da UFRJ Haroldo Mattos de Lemos.
A Conferência de Clima será um termômetro do que estará por vir na Rio+20. Um fracasso retumbante em Durban tende a esvaziá-la. O governo brasileiro fará um corpo-a-corpo para garantir a vinda de delegações e de chefes de governos.
- Por não ser uma conferência legislativa, a Rio+20 poderá apontar caminhos e parcerias - disse o subsecretário de Meio Ambiente do Itamaraty e negociador-chefe Luiz Alberto Figueiredo Machado.
O professor do Departamento de Economia da PUC-Rio e assessor da prefeitura para a Rio+20, Sérgio Besserman salienta que o acordo climático, algum dia, será inevitável:
- A Humanidade, nem sempre sábia, não é completamente estúpida.
Já o pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP Luiz Gylvan Meira Filho é cético:
- Os países tendem a deixar a negociação para o último instante.

'É quase tarde demais para evitar aumento de 3 graus na temperatura'

Corpo a Corpo
Stefan Rahmstorf

Embora pessimista, Stefan Rahmstorf, do Instituto de Pesquisa do Clima de Potsdam, na Alemanha, apelou aos países que participam da COP-17 para que cheguem a um consenso sobre um acordo para substituir Kioto. "É quase tarde demais para evitar o aumento de 3 graus na temperatura."

Graça Magalhães-Ruether
graca.magalhaes@oglobo.com.br
Correspondente BERLIM

O GLOBO: Há chance de acordo em Durban?

STEFAN RAHMSTORF: Eu estou pessimista sobre a possibilidade de um consenso. Provavelmente não será possível fechar um novo acordo porque os EUA não vão querer assumir um compromisso, nem agora nem depois. A pergunta é se vale a pena o fechamento de um acordo sem os EUA. Eu acho que esse acordo possível seria algo apenas simbólico e não eficaz para o combate da ameaça climática. Por isso é importante que os EUA e também os países emergentes participem.

A China tampouco assume um compromisso.

RAHMSTORF: É verdade que outros países se escondem atrás da posição de bloqueio dos EUA. A China é um dos países citados por isso. Mas não devemos apenas criticar a China, pois esse país tem tomado medidas na área da energia renovável. Além disso, o papel da China nesse acordo é menos importante do que o dos EUA, porque o país produz muito menos emissões (per capita) que americanos e europeus.

Os países emergentes como a China e o Brasil emitiram muito pouco no passado.

RAHMSTORF: É verdade. Mas não devemos esquecer que o problema é que, se queremos limitar o aumento da temperatura a 2 graus, como foi decidido em Cancun, também os países emergentes precisam assumir um compromisso.

Se não for fechado um acordo, o que o senhor acha da opção de prolongar Kioto?

RAHMSTORF: Levando-se em conta os signatários de Kioto, a prorrogação não terá o efeito desejado para que as metas sejam cumpridas.

Se o aumento não for limitado a 2 graus, quais as consequências para o clima?

RAHMSTORF: Se cumprirmos as medidas acordadas em Copenhague teríamos um aquecimento de 3 graus e isso teria efeitos gravíssimos. Hoje o nível do mar sobe com cada vez mais rapidez, o gelo do Ártico encolheu em 40%. Se não conseguirmos um acordo, há o risco de a temperatura subir 7 graus até 2100.

Até quando é possível evitar o aumento de 3 graus na temperatura?

RAHMSTORF: É quase tarde demais. É preciso reduzir 50% das emissões até 2050, tendo como base os valores de 1990. Muito do que já vínhamos diagnosticando tem mudado com velocidade maior do que prevíramos antes.

O Globo, 25/11/2011, Ciência, p. 38

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