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Pesquisadores criticam projeto do governo brasileiro para integração da Amazônia

Amazônia.org
17 de nov de 2009

Pesquisadores criticam projeto do governo brasileiro para integração da Amazônia

Fabíola Munhoz

Pesquisadores que se reuniram ontem (16) em um debate sobre integração regional e diversidade sócio-cultural na Amazônia, criticaram a ideia do governo federal de promover a ligação entre países amazônicos por meio de obras de infraestrutura. A discussão foi parte do encontro "Amazônia: Desafios e Perspectivas da Integração Regional", realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo.
Para Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA), o problema é que não se busca para a Amazônia um desenvolvimento baseado no reconhecimento cultural, natural e político da região. "As políticas públicas de integração do Brasil a outros países amazônicos deveriam levar em conta os indígenas e extrativistas que estão dos dois lados da fronteira, mas os projetos de infraestrutura na região não atendem a isso".
Segundo a ambientalista, o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que em muitos pontos coincide com a Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA), só tem como motivos a demanda brasileira por novos mercados e a facilitação da exportação, preocupações que não têm relação com a sustentabilidade.
A geógrafa e historiadora Bertha Becker, também presente no evento, concordou. "Os interesses na integração da Amazônia são apenas econômicos, como demonstram os projetos da IIRSA na região, que pretendem reduzir barreiras econômicas e estimular a produtividade. Essa integração deveria ir além, sendo também cultural, social e política", disse.
De acordo com a pesquisadora, os países amazônicos deveriam ter como base de sua integração o passado comum, embora não homogêneo, baseado na existência de povos indígenas e numa economia de fronteira móvel, que incorporou terras e recursos para exportação de matérias-primas, sem agregar valor a esses produtos.
"A história tem um peso forte na trajetória socioeconômica dos países, especialmente quando o quadro institucional não favorece a mobilidade social e a inovação. Temos que romper com as desigualdades históricas, com inclusão social baseada numa integração que respeite as diferenças", explicou.
Segundo Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), ao invés de pensar numa integração energética e baseada na construção de estradas, o Brasil deveria se unir aos outros países amazônicos com os seguintes objetivos: "manter 80% de seus bosques preservados, valorizar a cultura das populações tradicionais, que têm o papel de guardiões da floresta, e desenvolver uma economia do século XXI, que dê conta da exuberância e da importância da Amazônia".
Estradas
Adriana também criticou a recuperação de estradas federais da Amazônia, previstas como prioridades do PAC. "O objetivo da pavimentação da BR-163- de Cuiabá (MT) a Santarém (PA)- é escoar a soja matogrossense pelo porto de Santarém, desconsiderando qualquer demanda social. Não houve qualquer preocupação com o modo como a obra seria executada sem reproduzir o desmatamento que historicamente acompanha as estradas", afirmou.
A representante do ISA também citou o projeto de reativar a BR-319, estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM), dizendo que a obra não é viável dos pontos de vista econômico e social, e tem como maior motivação um interesse eleitoreiro do Ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. O ministro já manifestou interesse em se candidatar ao governo do Amazonas.
Para concretizar a integração regional na Amazônia, Bertha sugere alternativas às estradas - geralmente associadas ao aumento do desmatamento -, como vias aéreas e fluviais.
Hidrelétrica de Belo Monte
Com relação ao projeto hidrelétrico de Belo Monte, a partir do aproveitamento do rio Xingu (PA), Adriana Ramos diz que a usina não tem perspectiva de fornecer energia à população local, e que os 20% da hidroeletricidade prometidos à região pela governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, são suficientes apenas para abastecer a mineradora Alcoa.
"Num projeto antigo como esse, ainda não foram capaz de fazer investimentos sociais prévios na cidade de Altamira (PA), que receberá um contingente de 70 mil pessoas com a realização da obra. Se isso é desenvolvimento, sou contra", destacou.
Adriana acrescentou que os empreendedores responsáveis por tais projetos se empenham em minimizar o conhecimento técnico-científico da população sobre como as obras serão executadas.
Para Bertha, o maior problema é a expectativa de exportação da energia a ser gerada por Belo Monte. "A construção de hidrelétricas na Amazônia deve prever que parte da energia seja aproveitada pela população da região".
A representante do Instituto del Bién Común, do Peru, Margarita Benavides, que também participou do debate, referendou as críticas a uma integração regional baseada apenas em obras de infraestrutura. "Os atuais projetos para prover eletricidade a cidades brasileiras vão causar impactos à população do Peru", afirmou.
De acordo com ela, o maior desafio é conquistar desenvolvimento e benefícios aos povos da floresta, com base no uso dos bosques, a partir de tecnologia e mercado favoráveis a isso.
"O problema da Amazônia não é só ausência de Estado, mas o caráter do Estado, que não se preocupa em manter seus recursos e a população tradicional em longo prazo. Os governos seguem muito os interesses das empresas, construtoras e petroleiras. Mas, e os interesses nacional, regional e da população afetada?", questionou.

Amazônia.org, 17/11/2009

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