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Perseguidos, índios abrigam-se na Funai

Jornal de Santa Catarina (Blumenau - SC)
06 de nov de 1988

João Pessoa - Sessenta indios da aldeia potiguara de Jacaré de São Domingos estão acampados na sede da Funai, em João Pessoa, e garantem que só abandonarão o local quando o órgão demarcar sua reserva - uma área equivalente a 28 mil hectares - e expulsar os "latifundiários e seus pistoleiros", que segundo afirmaram estão invadindo gradativamente as suas terras. 0 movimento está sendo coordenado pelo cacique potiguara Domingos Barbosa dos Santos, que denunciou o clima de terror em que vivem, boje, os indígenas que babitam a parte do litoral paraibano entre rio tinto e baia da Traição, distante 60 quilômetros da Capital.

O problema, segundo o cacique potiguara, tem raizes históricas. Ele informou que as terras em que vivem os potiguaras foram demarcadas pela primeira vez no tempo do Império, quando José de Justo Araújo, engenheiro que trabalhava a serviço de D. Pe­dro II, reservou uma área de 56 mil hectares para os indios. Ocorre que, segundo ele, o Exército confirmou a demarcação de 28 mil hectares, área que envolve o lugarejo conhecido por São Miguel, deixando para outra oportunidade a medição da outra área, de igual tamanho, terras estas que circundam a localidade de Nossa Senhora dos Prazeres.

O cacique adiantou que é exatamente sobre a área não demarcada que se atiraram usineiros e fazendeiros, que moram nas terras vizinhas à aldeia. Armados com espingardas de grosso calibre, pistoleiros, segundo seu relato, vigiam diariamente o trabalho das ceifadeiras que a cada dia vão arando terras e mais terras potiguaras. " Não podemos, nos aproximar, também, garantem que abrirão fogo", denunciou. Ele afirmou, também, que os pistoleiros, além de ameaçarem os indios de morte, ainda destroem suas plantações. "Como não queremos morrer nem matar, recorremos à Funai".

Domingos disse que se contentaria com uma área de 4.500 hectares, desde que o órgâo assegurasse esse pedaço de terra exclusivamente para os potiguaras. "Abrimos mão de 24 mil heciares, so­mente para termos onde caçar, plantar e viver em paz".

Essa é a quinta vez que os potiguaras invadem a sede da Funai na Capital paraibana. Eles dormem em colchões trazidos da própria aldeia e cozinham seus alimentos nas dependências do órgão. A situação, segundo Domingos, é tão precária que, muitas lideranças estão querendo retornar à aldeia de Jacaré de São Domingos, para economizar alimentos e abrir mais espaços nos alojamentos.

O administrador local da Funai, Manuel Marcos Clemente disse que já foi feito o levantamento fundiário da área, cujos dados foram enviados a Brasila, uma vez que qualquer decisão para resolver o problema tem que partir das autoridades superiores, Ele adiantou, ainda, que a policia foi acionada, tendo os agentes apreendidos várias armas na região onde se localiza a aldeia dos potiguaras.

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