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Perigo real e imediato

Veja, Especial, p. 84-118
12 de out de 2005

Perigo real e imediato
Para onde vamos com nossas agressões ao planeta? O pessimismo da resposta varia, mas há um consenso: a hora de agir é já

Vilma Gryzinski

Desde que a era das fotografias espaciais começou, há quarenta anos, uma nova e prodigiosa imagem se formou no arquivo mental da humanidade sobre o que é o planeta no qual vivemos. Do nosso ponto de vista no universo, provavelmente não existe nada que se compare à beleza desta vívida esfera azul, brilhando na imensidão do espaço, água e terra entrelaçadas num abraço eterno, envoltas num cambiante véu de nuvens. O que as fotos não mostram, mas sabemos existir mais abaixo, é igualmente de arrepiar. A luxuriante diversidade da vida espalhada por florestas, montanhas, desertos, oceanos, rios, vibrando num diapasão constante que evoca uma história de 3,5 bilhões de anos, desde as bactérias primevas até tudo o que respira, exala, anda, rasteja, suga, fotossintetiza-se, multiplica-se e replica-se, neste momento exato, em nosso planeta. Além de tudo cuja existência conhecemos, ainda há o que apenas supomos. "A totalidade da vida, conhecida como biosfera pelos cientistas e criação pelos teólogos, é uma membrana tão fina de organismos que envolve a Terra que não pode ser vista a partir de uma nave espacial, porém internamente é tão complexa que a maior parte das espécies que a compõem está por ser descoberta", escreveu, numa tentativa de síntese da grandiosidade do fenômeno, Edward O. Wilson, o grande biólogo americano.
Wilson está entre os cientistas de vulto que clamam insistentemente pela atenção da humanidade para o perigo real e cada vez mais imediato para a sobrevivência de nós mesmos, que podemos ser arrastados num paroxismo de autodestruição, levando conosco as formas mais complexas de vida. Claro, sempre sobrarão as baratas. Nas reportagens das próximas páginas, VEJA traça um panorama das armadilhas produzidas pelos homens para si mesmos, desde a exaustão de recursos vitais como a água até os efeitos incontornáveis do aquecimento global, que podem ser amenizados, na melhor das hipóteses, ou agravados em proporções dantescas, na pior. Duas das reportagens registram também pequenas réstias de esperança que podem vir a ser a salvação do planeta.
Até recentemente, era comum falar em ameaças que poderiam afetar a vida de nossos netos - uma perspectiva bastante incômoda, mas sem a premência dos desastres iminentes. Hoje, até a palavra ameaça ficou superada. Os fenômenos deletérios estão em andamento e muitos de seus efeitos serão sentidos ainda dentro da expectativa de vida de boa parte da humanidade. Propaga-se, por exemplo, a noção de que está em curso a sexta extinção em massa. As cinco anteriores conhecidas pela ciência deixaram registros geológicos concretos. A maior aconteceu há 250 milhões de anos; a mais conhecida, a que extinguiu os dinossauros, há 65 milhões. Extinções, evidentemente, fazem parte da história da Terra - menos de 10% das espécies que em algum momento existiram continuam a ter um bilhete no ciclo da vida do planeta. A taxa de extinção considerada normal é de uma espécie em 1 milhão por ano; a atual gira em torno de 1.000 por ano entre espécies conhecidas e ainda não catalogadas. O aquecimento global tampouco é apenas uma hipótese no horizonte do médio prazo. Todas as grandes geleiras do planeta vêm diminuindo, os oceanos estão se tornando mais quentes, animais mudam suas rotas migratórias, a diferença de temperatura entre dia e noite cai. Os níveis de dióxido de carbono são os mais altos dos últimos 420.000 anos. Se as emissões continuarem, atingirão um estágio que ocorreu pela última vez no Eoceno, há 50 milhões de anos.
As previsões catastrofistas sobre o futuro da humanidade têm sido desacreditadas desde que Thomas Malthus escreveu seu Ensaio sobre o Princípio da População, no fim do século XVIII, prevendo uma superpopulação avassaladora. Ridicularizar os profetas do pessimismo freqüentemente se revela um exercício saudável. A capacidade de adaptação humana, somada aos vertiginosos avanços do conhecimento no último século, desmentiu mais de um cenário apocalíptico. Mas hoje pouca gente está para brincadeiras. Um levantamento recente de trabalhos científicos sobre as mudanças climáticas mostrou que 75% endossavam a hipótese do aquecimento global - os outros 25% foram considerados neutros, pois analisavam métodos e procedimentos. Quando tratam dos efeitos das transformações em curso, alguns estudiosos usam palavras que parecem saídas de obras de ficção científica. "Acredito que as chances de nossa civilização na Terra sobreviver até o fim do século presente não passam de 50%", escreve o cientista inglês Martin Rees, professor de cosmologia em Cambridge, no livro Hora Final. Mesmo quando pende para um lado mais conservador, Rees pinta um quadro de amargar: "As mudanças globais - poluição, perda de biodiversidade, aquecimento global - não têm precedentes em sua velocidade. Ainda que o aquecimento global aconteça na ponta mais lenta do espectro provável, suas conseqüências - competição por suprimentos de água e migrações em ampla escala - podem engendrar tensões desencadeadoras de conflitos internacionais e regionais, sobretudo se eles forem excessivamente alimentados por crescimento populacional contínuo."
A capacidade humana de alterar o planeta em escala geológica atingiu tal ponto que o cientista holandês Paul Crutzen propõe que a época atual, Holoceno, iniciada há apenas 10.000 anos, já acabou. Vivemos, diz ele, em pleno antropoceno - e isso começou no fim do século XVIII, com a invenção da máquina a vapor, desencadeadora do processo que mudou a face da Terra. A vaga de alarmismo que permeia o mundo no momento é tamanha que permite perguntas altamente incômodas. Em escala cosmológica, qual seria a importância do desaparecimento dos humanos da Terra (ainda que levassem, em sua irresponsabilidade genocida, uma enormidade de espécies consigo)? Mais ainda: o mecanismo de autodestruição não está embutido na própria espécie, para barrar sua propagação virulenta e descontrolada, e entrou em ação justamente num momento crítico?
Fazer perguntas para as quais não se tem respostas é próprio da espécie humana. Podemos, no entanto, conjeturar. Uma resposta possível à primeira pergunta é que a importância provavelmente é nenhuma. Mesmo que o surgimento de vida inteligente e consciente tenha resultado de uma cadeia de eventos tão improvável que tenha acontecido uma única vez - aqui mesmo, na nossa magnífica esfera azul -, a extinção da espécie humana, por mais inominável que nos pareça, não significa o fim da vida. À segunda pergunta, só podemos responder que, como não estaremos aqui para saber se a hipótese se confirma, temos a obrigação de trabalhar com a idéia contrária: não estamos programados para a extinção, ou pelo menos não agora. A vida começou na Terra há cerca de 3,5 bilhões de anos e ainda há 6 bilhões pela frente antes que o sol incinere a Terra. Cerca de 60 bilhões de seres humanos já viveram antes de nós. Seria demais deixar um desaparecimento catastrófico acontecer justo no nosso turno.

O paradoxo da água
Setenta por cento da superfície do planeta é coberta por água - mas só 1% de todo esse enorme reservatório é próprio para o consumo do homem. O desafio é evitar a poluição, o desperdício e distribuir melhor esses recursos hídricos
João Gabriel de Lima
Uma das visões mais espetaculares do século passado foi a primeira imagem da Terra feita do espaço, na década de 60: uma gigantesca massa azul, com 70% de sua superfície coberta por água. Neste início de século, uma preocupação recorrente - e justificada - é a de que a água, tão abundante, se torne paradoxalmente cada vez mais escassa para uso humano. Em março deste ano, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, decretou os anos que vão de 2005 a 2015 como a Década da Água. O objetivo é que nesse prazo se reduza à metade o número de pessoas sem acesso a água encanada, cifra que ultrapassa 2 bilhões de pessoas. Mantidos os atuais níveis de consumo, estima-se que em 2050 dois quartos da humanidade viverão em regiões premidas pela falta crônica de recursos hídricos de qualidade. É um dado gravíssimo quando se leva em consideração que 60% das doenças conhecidas estão relacionadas de alguma forma com a escassez de água. Como isso é possível em um planeta com tantos recursos hídricos? O problema pode ser equacionado em dois termos: má distribuição e má gestão. O primeiro se deve à própria natureza, o segundo é culpa do homem. A água é realmente a substância mais comum na Terra. No entanto, 97% dela está nos mares, sendo assim imprópria para o uso agrícola e industrial e para o consumo humano. Outros 2% estão nas calotas polares, em forma de gelo ou neve. Resta, assim, apenas 1% de água doce, aquela disponível nos rios, lagos e lençóis freáticos. Essa água é extremamente mal distribuída. Países como o Canadá e a Finlândia têm muito mais do que precisam, enquanto o Oriente Médio praticamente nada tem.
O Brasil, dono da maior reserva hídrica do mundo - 13,7% da disponibilidade de água doce do planeta -, expressa internamente esse paradoxo. Dois terços da água estão concentrados na região com menor densidade populacional, a Amazônia. Isso significa que um brasileiro de Roraima tem 1 000 vezes mais água à disposição do que um conterrâneo que vive no interior de Pernambuco. A água é pesada e difícil de transportar. Levá-la de um lugar a outro tem sido o grande desafio dos seres humanos desde o tempo dos romanos, que construíam aquedutos por toda parte. O segundo problema relativo à água é a má gestão - e, nessa área, há outro paradoxo. Mesmo sendo essencial para a economia, a água sempre foi dada de graça. Até recentemente, nem os industriais nem os agricultores, para não falar dos consumidores domésticos, pagavam pela água, apenas pelo serviço de distribuição. É claro que, aplicando-se à risca o princípio econômico segundo o qual não existe almoço grátis, esse raciocínio não se sustenta. No fundo, toda a sociedade paga quando o governo subsidia empresas estatais para que tratem a água que um empresário vai usar em sua fábrica, ou quando constrói uma barragem para que um rio seja colocado à disposição dos lavradores para a irrigação. Quando não se paga pelo que se consome, o resultado inevitável é o desperdício. Por isso, quando se fala em solucionar os problemas da água no mundo, uma palavra surge como um mantra: precificação. Significa que o governo, que é o dono em última análise dos mananciais naturais de um país, deve cobrar pelos recursos hídricos consumidos por seus cidadãos, revertendo o dinheiro para a cobertura dos custos de tratamento da água e preservação dos ecossistemas ligados a ela.
Isso já ocorre em países como França e Alemanha, considerados exemplares na gestão de água. No procedimento mais utilizado, o empresário ou o agricultor paga duas vezes: pela água em si e pela licença para jogar os resíduos nos rios. Com isso, ele é incentivado a gastar pouco e a tratar ele próprio a água antes de devolvê-la à natureza. "Cobrar pela água é muito mais eficaz do que estabelecer milhares de leis de preservação, quando se sabe que o Estado não vai ter como contratar gente para fiscalizar e cobrar multas", diz Benedito Braga, diretor da Agência Nacional de Águas, criada em 1997. A agência iniciou recentemente um projeto piloto de cobrança da água no Rio Paraíba do Sul, compartilhado pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No ano passado, foram arrecadados lá cerca de 6 milhões de reais, os quais serão reinvestidos em estações de tratamento em doze cidades.
No futuro, os consumidores domésticos também terão de repartir a conta da água com empresários e agricultores, ainda que respondam por apenas 10% do gasto de água doce no mundo. Afinal, são os esgotos não tratados os principais responsáveis pela poluição dos rios, principalmente os das grandes metrópoles. O problema só será resolvido quando se começar a cobrar pela água em si, não apenas por seu abastecimento. Embora a idéia da precificação seja praticamente unânime, existem os que argumentam que ela tornaria a água mais cara para quem mais precisa dela: a população mais pobre. Existem várias maneiras de evitar que isso ocorra. Na África do Sul foi estabelecido um consumo máximo por pessoa - apenas acima disso se cobra pela água. A verdade é que o que sai caro, para a população pobre, é não ter água. Nos países onde a carência é dramática, são as mulheres as encarregadas de ir até o rio mais próximo com um vaso na cabeça - e, como ele freqüentemente fica a quilômetros de distância, às vezes se perde o dia inteiro nessa empreitada.
Há pelo menos três mitos sobre a questão da água, magnificados pela grita dos ambientalistas radicais mas que não condizem com a realidade. O primeiro reza que a água do planeta estaria acabando. Não é verdade. A água é um recurso infinitamente renovável, já que, em seu ciclo, ela cai das nuvens em forma de chuva, fertiliza a terra, vai para o mar pelos rios e evapora de volta às nuvens, novamente como água doce. O segundo diz que o consumo doméstico desmedido estaria acabando com a água do planeta. Trata-se de outro exagero. Apenas um décimo da água potável disponível é gasto para que os homens cozinhem, lavem roupa e façam a higiene pessoal, enquanto 70% são alocados para a irrigação agrícola - esta, sim, a grande vilã do desperdício. O terceiro mito, derivado desse, é o de que os recursos hídricos vão acabar porque, quanto mais o mundo se desenvolve, mais ele precisa de alimentos e, conseqüentemente, de água. Também não é exato. A modernização das técnicas agrícolas vem fazendo com que caia o consumo de água. De acordo com uma estimativa do Pacific Institute, um dos mais respeitados centros de estudos mundiais sobre o assunto, o consumo total de água nos Estados Unidos era de 600 quilômetros cúbicos por ano na década de 80. Hoje está em menos de 500. A queda se deve também à economia na indústria e no consumo doméstico. Nas fábricas, nos anos 30, gastavam-se em média 200 toneladas de água para obter 1 tonelada de aço. Hoje, usando-se os métodos modernos, esse consumo caiu para 3 toneladas. Nas casas, por exemplo, a quantidade média de água utilizada nas descargas dos banheiros caiu para um quarto do que era há vinte anos. O verdadeiro dilema é conseguir que, com uma população mundial em constante crescimento, os recursos sejam mais bem distribuídos e que sua qualidade seja mantida. A história ensina que o ser humano administra melhor aquilo que é tratado como bem econômico. A água, que está na base de todas as cadeias produtivas, faz jus a esse tratamento.

Uso irresponsável da natureza
A natureza é uma grande prestadora de serviços para a humanidade. E é ela quem dá os elementos básicos para a vida humana e o desenvolvimento econômico. A água é o mais fundamental desses serviços, que incluem também os alimentos, as fontes de energia e os materiais usados na fabricação de todos os objetos que nos rodeiam. Nas últimas semanas, VEJA mostrou, em reportagens especiais, que esses serviços têm um custo - altíssimo, dependendo da maneira como os utilizamos. A reportagem "A cegueira das civilizações" (7 de setembro) discutiu o risco de a humanidade estar repetindo o erro de sociedades do passado que entraram em colapso porque não evitaram a destruição ambiental causada por elas próprias. Em "Seis provas do aquecimento global" (21 de setembro), VEJA demonstrou que a mudança climática da Terra, acelerada pelo homem, é um fenômeno real e que seus efeitos não podem mais ser ignorados. É hora de rever a forma como os recursos naturais são explorados.

Um olhar sobre o futuro
Contra as previsões apocalípticas, há uma esperança: a inventividade humana pode mudar tudo

Monica Weinberg

A ânsia de antever o futuro é uma característica da espécie humana tão forte quanto a de procurar uma lógica, um padrão nos fenômenos naturais e sociais. Essa segunda característica permitiu que os homens olhassem para as estrelas e enxergassem constelações. A primeira produziu os profetas, abriu caminho para o charlatanismo dos videntes e para o trabalho mais sério dos chamados cenaristas, os profissionais das previsões econômicas. O catastrofismo parece ser uma terceira marca da humanidade. Em todas as eras as pessoas emprestaram o ouvido a quem anunciasse o fim da comida, da água, do ar - enfim, do mundo. A novidade é o fato de as previsões terem aumentado sobremaneira seu grau de acerto. As modelagens matemáticas feitas com a ajuda de computadores são a mais confiável janela para o futuro já colocada à disposição da humanidade. A ciência ambiental é uma das maiores beneficiadas. Para projetar os rumos do aquecimento global ou a sobrevida da era do petróleo, robustos computadores processam mais de 1 milhão de dados - em média, 200 vezes mais do que há apenas três décadas. Já é possível também traçar cenários levando em conta sutilezas do comportamento humano. Numa previsão sobre quanto restará de água potável no planeta, considera-se o que parece ser o detalhe do detalhe: que a taxa de desperdício varia de acordo com a faixa etária e a classe social de cada pessoa.
A credibilidade aumentou. Mas prever o futuro continua sendo uma atividade não totalmente à prova de falhas. Isso é bom por um lado, pois as desgraças associadas ao aquecimento global podem não se materializar. Os especialistas concordam que uma razão decisiva para os equívocos é a impossibilidade de medir os efeitos do avanço tecnológico, cada vez mais veloz. Estima-se que a produção científica tenha dobrado de tamanho a cada ano nas últimas décadas. Quem diria que os carros brasileiros passariam a emitir apenas um vigésimo dos poluentes no ar quando comparados aos modelos que rodavam nos anos 70? Diz João Meyer, diretor do Instituto de Matemática e Estatística da Unicamp: "Enfrentamos as limitações de fazer previsões com base nas informações disponíveis no momento. Por isso, sempre restarão incertezas sobre a dinâmica da tecnologia".
Esse é o lado otimista das previsões sombrias: os avanços científicos podem tratar de sepultá-las. Tome-se como exemplo o que ocorreu com a célebre profecia do demógrafo inglês Thomas Malthus. No século XVIII, ele previu que milhões de pessoas morreriam de fome como conseqüência do crescimento da população. Malthus tinha convicção de que os alimentos não seriam suficientes para todo mundo. Com isso, ele ignorou as melhorias agrícolas que fizeram a produção no campo aumentar a uma velocidade centenas de vezes maior do que o número de habitantes. Sobrou comida. Em 1968, o americano Paul Ehrlich reafirmou a profecia de Malthus no best-seller The Population Bomb (A Bomba Populacional), projetando os mesmos estragos para o século XXI. A população de fato dobrou nas quatro décadas seguintes à previsão, mas, graças ao ganho de eficiência com a irrigação e o uso dos fertilizantes, o planeta produziu bem mais alimentos do que Ehrlich havia calculado. No período em que ele afirmou que a fome grassaria, as pessoas passaram a ingerir, em média, 24% mais calorias. Elrich não aprendeu com o próprio erro e voltou a carecer de bom senso ao tentar adivinhar outros efeitos catastróficos do aumento populacional (veja quadro).
As profecias de Malthus, Ehrlich e de vários outros preeminentes especialistas são pessimistas ao extremo porque deixam de contabilizar a capacidade humana de aprender a produzir mais com menos recursos naturais. Com a pesquisa tecnológica, conseguiu-se promover o uso mais racional das matérias-primas. Nas últimas três décadas, a máquina de lavar passou a funcionar com a metade da energia e um carro americano, a consumir 80% menos combustível. Os catastrofistas podem até dizer que se trata de um paliativo, uma vez que o petróleo está com os dias contados. O que eles também não estão levando em conta é que a espécie humana já demonstrou habilidade para criar alternativas diante da escassez. Ao que tudo indica, acontecerá com o petróleo o mesmo que se passou com o carvão na Inglaterra nos tempos da Revolução Industrial: deixará de ser a principal fonte de energia do planeta antes de sua extinção. O mundo já caminha para o desenvolvimento de fontes alternativas. A indústria automobilística, por exemplo, aposta que o carro movido a hidrogênio sairá da linha de montagem a preços razoáveis em duas décadas. Em todos os tempos a inventividade humana derrotou os profetas do apocalipse. Está nas mãos da atual geração manter essa formidável história de sucesso.

Venceu o bom senso
Em 1980, uma aposta entre dois professores americanos ganhou publicidade por seu ineditismo no meio acadêmico. O alvo era o preço que cinco diferentes metais alcançariam na Bolsa de Chicago nos dez anos seguintes à aposta. De um lado estava o biólogo Paul Ehrlich, convicto de que o valor dos metais subiria com o aumento da demanda provocado pelo crescimento populacional. Segundo a lógica de Ehrlich, quanto mais gente surgisse no planeta, maior seria a procura por tais matérias-primas - e fatalmente os metais encareceriam. O economista Julian Simon tinha visão oposta. Ele acreditava que, numa década, a tecnologia teria um papel determinante para o aumento da produtividade. Isso levaria à queda do preço das matérias-primas. Simon estava certo. Uma década depois, não só o preço de mercado dos cinco metais havia despencado como sua visão mais otimista sobre a dinâmica econômica prevaleceu sobre as catastróficas previsões de Ehrlich - que perdeu a aposta.

Especial
O tamanho da destruição no Brasil

Montagem sobre fotos de Antonio Milena/Leomar José Mees/Paulo Vitale

O Brasil perdeu 36% de sua cobertura vegetal desde o descobrimento
A área de cultivo de soja em Mato Grosso avança a um ritmo 3 vezes mais rápido que há quinze anos, substituindo a vegetação nativa
200 000 queimadas são identificadas por satélites no Brasil por ano
24,5 milhões de metros cúbicos de árvores foram derrubados na Amazônia em 2004
60% dessa madeira ficou abandonada na floresta, apodrecendo
75% das emissões de gás carbônico do Brasil vêm das queimadas na Amazônia, o que coloca o país entre os cinco maiores poluidores do mundo
Desde 1990, o número de cabeças de gado aumentou 144% na Amazônia, 4 vezes mais do que no restante do país

Especial
A Terra é o paraíso

Para os vírus e as bactérias, a destruição da natureza e a vida moderna formam o cenário perfeito de proliferação
Anna Paula Buchalla e Giuliana Bergamo
Considerada uma das mais letais infecções bacterianas, com uma taxa de mortalidade da ordem de 90%, a febre de La Oroya é uma doença da região dos Andes. O mosquito que a transmite é o Lutzomyia, o mesmo da leishmaniose, mas o microrganismo que a causa é mais raro. A Bartonella bacilliformis (ou bartonella, simplesmente) é típica de altitudes entre 600 e 2 800 metros. Ou pelo menos costumava ser. Em 2004, dezenove pessoas foram vítimas da febre de La Oroya numa região de terras baixas: a província peruana de Madre de Diós, que faz fronteira com o Brasil. Ainda não se sabe como a bartonella ampliou dessa maneira sua área de incidência, mas tudo indica que foi a depredação ecológica que criou a oportunidade para que isso acontecesse. Ao invadir áreas antes inexploradas da floresta e ser picado pelo Lutzomyia, o homem parece ter ajudado a bactéria a fazer a transição para altitudes menores. Mais ainda que perplexas, as autoridades sanitárias ficaram em estado de alerta com o episódio.
A proximidade da bartonella com o Brasil é um exemplo clássico de como os microrganismos respondem aos avanços da civilização sobre o meio ambiente: ao romper o equilíbrio ecológico de uma região, o homem recebe o troco e se torna alvo de um agente infeccioso. Mas não só o desmatamento ou a invasão das florestas propiciam a propagação de doenças. O aquecimento global, por exemplo, favorece a proliferação de moléstias como a dengue e a malária. A transmissão da dengue tem sido incrementada nos últimos anos tanto pelo aumento da temperatura da Terra quanto pela quantidade de chuvas -o mosquito transmissor, o Aedes aegypti, prefere climas quentes e úmidos. Outro fator é a poluição das águas. O despejo de detritos diretamente nos rios, sejam eles químicos ou humanos, é responsável pela morte de 3 milhões de pessoas todos os anos, vítimas da cólera. Além de aumentar a incidência de algumas velhas doenças, a destruição do meio ambiente também traz à tona moléstias desconhecidas, chamadas de "emergentes". Desde 1976, foram descobertos pelo menos trinta novos micróbios -o HIV e o Ebola estão entre os mais famosos.
Uma vez que entra em contato com a civilização, um microrganismo encontra condições propícias para se espraiar. Nos últimos 100 anos, a população mundial quadruplicou e as cidades incharam. Em 25 metrópoles já se superou a marca de mais de 10 milhões de habitantes. Até a década de 50, apenas Londres e Nova York atingiam esse patamar. Calcula-se que, nos grandes centros urbanos, as pessoas passem 92% de seu dia em ambientes fechados. É o paraíso dos micróbios. Imagine manter uma pessoa gripada confinada num ônibus lotado, com as janelas fechadas. O contágio é certo. Há que levar em conta ainda a maneira como as populações se movimentam pelo globo. A bordo de um avião, é possível dar a volta ao mundo em 48 horas. Cerca de 700 milhões de pessoas transitam pelos ares mensalmente. Os infectados podem carregar os vilões silenciosos de um lado para o outro do planeta e deflagrar verdadeiras pandemias em pouco tempo. "Atualmente a Terra é um caldeirão de infecções", diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor da Universidade Estadual de Campinas.
É essa conjunção de fatores que faz do vírus H5N1, o causador da chamada gripe do frango, a grande preocupação dos infectologistas. Único vírus em circulação a pular diretamente das aves para o organismo humano, o H5N1 mata 60% de suas vítimas. O receio é que ele sofra uma mutação e passe a ser transmitido de pessoa para pessoa com a mesma facilidade com que se propaga o vírus tradicional da gripe. Se isso acontecer, a estimativa é que o H5N1 faça, no mínimo, 7 milhões de mortos. Como contrapeso a esse cenário negativo, é preciso dizer que a ciência de hoje possui ferramentas poderosas e progride em ritmo acelerado. "Sou otimista quanto à produção de vacinas e remédios cada vez mais potentes para atacar os vírus emergentes", disse a VEJA o professor Scott Weaver, pesquisador do centro de doenças infecciosas emergentes da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Observar os limites da natureza também não é uma má estratégia.

As 7 pragas da Amazônia

Leonardo Coutinho

1 FOGO
As queimadas causam perdas de 121 milhões de dólares por ano. Considerada a emissão de carbono, os prejuízos chegam a 5 bilhões de dólares.

2 MADEIREIRAS
Há mais de 3 000 empresas cortando árvores. Para cada unidade retirada, os madeireiros danificam pelo menos outras quinze árvores.

3 ESTRADAS
Mais de 80% das queimadas acontecem perto das rodovias. A colonização se dá ao longo de 100 000 quilômetros de estradas clandestinas.

4 GARIMPOS
Além de poluírem os rios e devastarem reservas ambientais, os garimpeiros foram responsáveis pela chegada da aids às aldeias indígenas.

5 PASTAGENS
A soja avança sobre pastos antigos e capitaliza pecuaristas, que abrem novas áreas na mata. Cerca de 12% da Amazônia já virou pasto.

6 CORRUPÇÃO
Só a Operação Curupira, realizada em junho, prendeu 47 funcionários do Ibama envolvidos na exploração ilegal da floresta.

7 BUROCRACIA
De 539 milhões de reais em multas aplicadas em 2004, só 63 milhões de reais foram pagos e apenas 3 milhões de reais ficaram com o Ibama.

Nos últimos vinte anos, mais de sessenta satélites capazes de vigiar a Amazônia foram lançados ao espaço. Também entrou em operação o Sistema de Proteção da Amazônia, braço civil do Sivam, que utiliza equipamentos em órbita, aviões e 800 estações terrestres para monitorar a região e custou 1,4 bilhão de dólares. Outros 31 milhões de reais foram gastos na modernização de centros científicos, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ambos com estrutura para analisar dados relativos à floresta. O resultado disso tudo é um paradoxo. Nunca se pôde ver tão de perto a destruição e jamais foi possível medi-la com tanta precisão - mas praticamente nada se fez para detê-la. A Floresta Amazônica tem hoje menos de 80% do tamanho original e passa por uma aceleração frenética da devastação. Neste ano, já se desmatou o equivalente a dez vezes a área da cidade de São Paulo. Em 2004, foi-se quase uma Bélgica. Só nos últimos quinze anos, 28,8 milhões de hectares foram desbastados - metade de tudo o que foi destruído desde 1500.
Os satélites mostram as fotos, mas não o filme do desmatamento em todas as suas etapas. Diferentemente do que se imagina, a floresta raramente é agredida do dia para a noite por hordas de madeireiros armados de machados, motosserras e tratores, abrindo clareiras instantâneas nas quais horas antes havia mata fechada. Pelo contrário, o prólogo do processo é lento e invisível para os equipamentos que monitoram a Amazônia. O saque à natureza começa de forma falsamente seletiva. Diante da ampla diversidade de espécies, com até 300 tipos de árvore por hectare, os coletores de madeira fazem grandes percursos entre um espécime e outro de madeira de lei. Uma planta comercialmente aproveitável, como o mogno, com até 40 metros de altura e 3,5 metros no diâmetro do tronco, pode estar a até centenas de metros de outra semelhante. No percurso, os madeireiros fatiam a floresta, abrem milhares de quilômetros de estradas e picadas no meio da mata. Para derrubar apenas um exemplar, destroem outros. O estrago produzido pela queda de uma árvore gigante, pelo trator que a arrasta e pelos caminhões que a carregam estropia 40% da vegetação do entorno. Ambientalmente, a degradação é muito maior, já que normalmente as mudas de novos exemplares da árvore derrubada, sempre próximas, são dizimadas nesse processo. São quinze árvores perdidas para cada uma cortada.
Calcula-se que as madeireiras ilegais tenham produzido no ano passado cerca de 8 milhões de metros cúbicos, com um lucro de pelo menos 1,8 bilhão de dólares. O último levantamento disponível sobre a quantidade de máquinas e equipamentos envolvidos na extração de madeira, realizado em 1998, identificou a existência de cerca de 8.478 caminhões e 5.006 tratores usados pelos madeireiros na Amazônia. As fábricas de motosserras - cuja venda é controlada como a de armamentos - nunca faturaram tanto nas lojas mais próximas à floresta. Segundo os registros do Ibama, o número de motosseras registradas em 2004 cresceu 11% em relação ao ano anterior. O setor de defensivos agrícolas também ganha. Desfolhantes - utilizados para eliminar ervas daninhas - estão na lista de opções dos desmatadores que pulverizam a mata para agilizar seu trabalho. Há incremento de negócios até com correntes de amarrar navios - usadas numa técnica de derrubada de mata, esticadas entre dois tratores.
A rede de estradas clandestinas criadas nessa atividade é de 100.000 quilômetros, conforme estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Essas vias funcionam como artérias por onde penetram os germes que consumirão ainda mais a floresta. Os primeiros a utilizar esses caminhos são os posseiros, que desmatam para vender a madeira restante e para fazer pequenas roças. Em toda a Amazônia, há mais de 800.000 famílias vivendo desse modo. Seja invasora ou assentada por programas de reforma agrária e colonização, cada uma dessas famílias pode desmatar até 3 hectares por ano, para cultivo de subsistência. A fatia que cada uma tira anualmente da floresta é insignificante. A soma do que todas tiram - 470.000 hectares - é um problema. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, as pequenas propriedades respondem por 18% das taxas oficiais de desmatamento.
Por esses caminhos clandestinos também seguem os garimpeiros que estropiam as margens e o leito de rios com suas dragas em busca de ouro e pedras preciosas, deixando para trás crateras e rios contaminados por mercúrio. Um dos casos mais simbólicos da poluição em decorrência do garimpo é o do Rio Crepori, no oeste do Pará. A mancha de sedimentos que deságua nas águas cristalinas do Rio Tapajós pode ser percebida até 30 quilômetros rio abaixo. Estima-se que ela signifique a sedimentação no leito do Tapajós de 4 toneladas de mercúrio por ano. O metal pesado contamina peixes, que, ao ser consumidos, acabam provocando doenças neurológicas em seres humanos. Em áreas indígenas, os garimpeiros costumam atuar em conluio com os índios, como ocorre na mina de diamantes localizada na reserva dos cintas-largas, em Rondônia. Mas há, também, casos em que eles invadem as reservas indígenas e usam de violência para garantir a permanência. Esse modelo de ocupação é freqüentemente relatado em áreas dos ianomâmis.
Mais de 250 milhões de dólares foram investidos pelo Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil em medidas contra as queimadas e em convênios para estimular o chamado desenvolvimento sustentável - aquele que, teoricamente, dá meios de sobrevivência a famílias que exploram as riquezas florestais sem dano ao meio ambiente. Somente o programa de incentivo ao manejo de florestas, mantido pelo Ministério do Meio Ambiente, recebeu do governo alemão a doação de 45 milhões de reais. Em outro convênio internacional, o governo do Acre garantiu no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) o financiamento de 240 milhões de dólares para projetos de desenvolvimento sustentável. Outro tanto se investiu em projetos de certificação de origem implantados em várias frentes madeireiras, para estimular a atividade legal e combater a destruição da natureza. Apesar disso tudo, a indústria do desflorestamento continua a florescer - em parte porque esses programas todos, quando dão certo, significam a atração de mais gente para o interior da floresta. Já há 20 milhões de brasileiros vivendo na Amazônia.
Perdida no meio do mato, produzindo o insuficiente para si mesma, boa parte dessa população vive em condições miseráveis e se torna alvo da especulação fundiária e da ausência do controle do Estado na região. Contra ela agem bandoleiros patrocinados por grileiros, para tomar de assalto grandes porções de terra. Os chamados gatos recrutam, muitas vezes entre os próprios expulsos, a mão-de-obra para as propriedades piratas. Questões sobre delimitação das áreas são resolvidas por meio de pistolagem. Esse é o panorama atual em diversas regiões de avanço sobre a floresta, como nos casos de São Félix do Xingu - um município de área 55 vezes superior à da cidade de São Paulo - e do povoado de Castelo dos Sonhos, no Pará. As duas localidades estão, pelo segundo ano consecutivo, no topo da lista dos lugares onde mais se desmata na Amazônia e das regiões com mais registros de violência associados à disputa pela terra. São freqüentes, e produtivas, as incursões pela área do Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho, em que se encontram facilmente colônias de trabalhadores escravos vivendo em barracas de lona e derrubando mata em troca de um salário insuficiente para pagar a comida e as ferramentas compradas dos fazendeiros. Somente nesse estágio o processo de desmatamento começa a ser visto pelos satélites e entra nas estatísticas oficiais. Esses números informam que 70% do corte de floresta ocorre para a formação de pastagens. Boa parte das grandes cidades amazônicas começou assim.
Outra técnica de desmatamento invisível se aproveita da densidade da mata. Nessa modalidade, geralmente um único grileiro conduz todas as etapas para extrair madeira e criar pastagens. O sistema consiste num corte escalonado de árvores. Primeiro, derrubam-se as que não cresceram o suficiente para alcançar a copa das vizinhas mais altas. À sombra, tratores retiram a vegetação rasteira e iniciam a plantação de capim. Um ano depois, com o pasto já formado, o gado é introduzido. As reses são mantidas sob as árvores por um ano. Ao fim desse prazo, queima-se o capim, cujas raízes não são atingidas pelo fogo. Isso revigora o pasto e serve também para destruir, com o calor, as árvores médias. O gado volta. Fica mais um ano. Só na segunda queimada a destruição aparece para os sistemas de monitoramento. Toda de uma vez. Os pecuaristas que utilizam esse processo agem em mais de uma área, mantendo cada uma num estágio diferente. Seus bois nunca estão nos locais descobertos pela fiscalização - sempre tarde demais.
Segundo o economista sênior do Banco Mundial Sérgio Margulis, autor de uma das pesquisas mais importantes sobre o impacto da pecuária no desmatamento, 12% da Amazônia Legal, ou 60 milhões de hectares, é utilizada em atividades de agropecuária. Três quartos disso são pastos - o que dá à criação de bois o troféu de campeã no desmatamento da Amazônia. Como as terras na região custam um décimo menos que no interior de São Paulo, por exemplo, e todos os outros custos também são baixos, a receita líquida de um pecuarista amazônico chega a ser o dobro da obtida no Sudeste. Para ajudar, a intensidade das chuvas e a temperatura favorecem o crescimento do pasto o ano inteiro. A questão é que, enquanto lucra, o pecuarista da Amazônia produz prejuízo para o país. Estima-se que, para cada hectare de floresta destruída, 100 dólares anuais são perdidos em custos ambientais e sociais. Esse índice é calculado com base na soma dos recursos naturais perdidos e dos benefícios que a região poderia obter com a exploração racional de madeira, essências naturais, ecoturismo e estocagem de carbono.
O estouro da boiada sobre a mata já se faz sentir nos santuários dos defensores do chamado desenvolvimento sustentável. Depois de concluírem que não é possível viver da extração de látex, os seringueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, estão optando pela criação de gado. Assim como em Xapuri, em todas as outras reservas extrativistas do Acre os seringueiros se renderam à lucratividade da pecuária. "O boi é a poupança de quem vive do extrativismo", diz Francisco Vicente de Melo, que cria gado na reserva Santa Quitéria. "Quando alguém fica doente, sem condições de trabalhar, é do gado que tira o sustento." Até a viúva de Chico Mendes, Ilzamar Gadelha Bezerra Mendes, já formou o seu rebanho. A pecuária cresceu 370% no Acre em dez anos e transformou o estado no melhor exemplo do avanço da atividade sobre a floresta. Comparado com o ritmo de expansão da pecuária em outras regiões, o da Amazônia é preocupantemente vigoroso. O número total de cabeças saltou de 26 milhões em 1990 para mais de 64 milhões em 2003.
Teoricamente, os pastos que bordejam a mata poderiam dar conta da multiplicação de cabeças, mas há um fenômeno econômico - a soja - empurrando-os para cima das florestas. Nos últimos quatro anos, 5 milhões de hectares de pastagens foram convertidos em lavouras de soja no país, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ou seja, mais de 70% da expansão do cultivo ocorreu em áreas desmatadas e convertidas em pasto. Na Amazônia, o processo não é diferente. As oscilações no preço do gado levam vários produtores à falência. Pastos abandonados podem ter as qualidades químicas do solo corrigidas. Depois, são arados e passam a produzir grãos. Isso era impensável dez anos atrás, quando se acreditava que na região a agricultura extensiva era uma atividade inviável.
Vistos por esse ângulo, os sojicultores são heróis da economia e da recuperação de áreas degradadas. Mas há outra maneira de analisar a situação, segundo a maioria dos ambientalistas que atuam na Amazônia. Justamente por ter ultrapassado o cerrado, alcançando as arestas da floresta, a sojicultura virou também uma ameaça. Ao adquirirem terras de pecuaristas que estavam com seus negócios estagnados ou em decadência, os produtores de soja capitalizaram um setor cuja natureza da implantação consiste em transformar floresta em pasto. Com dinheiro no bolso, os criadores passaram a investir em propriedades menos valorizadas, distantes e, na maior parte dos casos, ainda com muita mata para derrubar.
Para assistir a tudo isso, o Brasil tem moderníssima tecnologia de monitoramento ambiental por satélite. Na sede do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na cidade paulista de São José dos Campos, os cientistas produzem boletins diários com os números de queimadas registradas no país e emitem quinzenalmente relatórios sobre os desmatamentos mais recentes, apontando com precisão os locais onde ocorreram. Menos de oito horas são necessárias para que um dos aviões do Sivam decole da base aérea de Anápolis, em Goiás, e produza imagens em alta resolução de qualquer ponto da floresta. Em centenas de outros centros de pesquisas de universidades espalhados pelo país e no exterior, outras informações são processadas com base em dados obtidos por satélites.
Sucesso no céu, fracasso no chão. As ações de fiscalização e os investimentos na repressão a crimes ambientais estão longe de acompanhar a tecnologia que enxerga detalhes no meio da floresta. Dos 36 milhões de reais previstos para custear o trabalho dos fiscais neste ano, 25% foram congelados. O total liberado só foi suficiente para trabalhar até a primeira quinzena de agosto - justamente quando se iniciou a estação das queimadas. Para vigiar os 5 milhões de quilômetros quadrados de mata amazônica, existem 695 fiscais - 575 fixos e 120 emprestados de outras regiões. Se a área de floresta fosse dividida igualmente entre eles, cada um teria de cuidar de um território cinco vezes maior que o da cidade de São Paulo. "O esgotamento dos recursos no meio do ano demonstra a falta de prioridade do governo Lula para a questão ambiental", acusa o Greenpeace em nota que denuncia a falta de dinheiro para a fiscalização.
As multas ambientais poderiam significar mais recursos para a atividade. Mas são tratadas como anedota pelos infratores. Do total de multas emitidas pelos fiscais, 12% são canceladas por erro de preenchimento. Das restantes, 80% simplesmente não são pagas. E, das que resultam em recolhimento de dinheiro, a União toma 95% do valor arrecadado para aplicar em outras finalidades. De acordo com dados do Ibama, no ano passado as multas somaram 539 milhões de reais, dos quais apenas 63 milhões foram pagos. Desse montante, pouco mais de 3 milhões de reais foram repassados à instituição. Para piorar, uma multa, quando é paga, tramita por até três anos nas instâncias burocráticas do governo. De acordo com o diretor de proteção ambiental do Ibama, Flávio Montiel, o órgão estuda a proposição de uma lei que formalize e melhore a divisão da arrecadação com a União. "Mas esse vai ser um assunto difícil de resolver", admite Montiel.
Em outra ponta, a corrupção mina ainda mais o processo de fiscalização. No Pará, foi descoberta no ano passado uma quadrilha especializada em cancelar e encolher multas. Composto de funcionários mancomunados até com um procurador do órgão, o grupo foi responsável por uma fraude de 4 milhões de reais. A sindicância ainda não está concluída e o acusado de chefiar o bando foi transferido para a Previdência. Desde 2003, mais de sessenta servidores foram enquadrados por crimes de corrupção. Somente no caso mais recente, a Operação Curupira, realizada em junho, 47 foram presos. "Isso não quer dizer que a corrupção aumentou, e sim que nunca se investigou tanto como agora", justifica Montiel. Embora os fiscais honestos tenham conseguido apreender desde o ano passado mais de 375.000 metros cúbicos de madeira e fechado mais de 460 serrarias clandestinas, cerca de 80% da madeira que é vendida na região tem origem ilegal. Aí incluída aquela que desaparece misteriosamente dos pátios interditados pelo Ibama.

A Terra é o paraíso
Para os vírus e as bactérias, a destruição da natureza e a vida moderna formam o cenário perfeito de proliferação

Anna Paula Buchalla e Giuliana Bergamo

Considerada uma das mais letais infecções bacterianas, com uma taxa de mortalidade da ordem de 90%, a febre de La Oroya é uma doença da região dos Andes. O mosquito que a transmite é o Lutzomyia, o mesmo da leishmaniose, mas o microrganismo que a causa é mais raro. A Bartonella bacilliformis (ou bartonella, simplesmente) é típica de altitudes entre 600 e 2 800 metros. Ou pelo menos costumava ser. Em 2004, dezenove pessoas foram vítimas da febre de La Oroya numa região de terras baixas: a província peruana de Madre de Diós, que faz fronteira com o Brasil. Ainda não se sabe como a bartonella ampliou dessa maneira sua área de incidência, mas tudo indica que foi a depredação ecológica que criou a oportunidade para que isso acontecesse. Ao invadir áreas antes inexploradas da floresta e ser picado pelo Lutzomyia, o homem parece ter ajudado a bactéria a fazer a transição para altitudes menores. Mais ainda que perplexas, as autoridades sanitárias ficaram em estado de alerta com o episódio.
A proximidade da bartonella com o Brasil é um exemplo clássico de como os microrganismos respondem aos avanços da civilização sobre o meio ambiente: ao romper o equilíbrio ecológico de uma região, o homem recebe o troco e se torna alvo de um agente infeccioso. Mas não só o desmatamento ou a invasão das florestas propiciam a propagação de doenças. O aquecimento global, por exemplo, favorece a proliferação de moléstias como a dengue e a malária. A transmissão da dengue tem sido incrementada nos últimos anos tanto pelo aumento da temperatura da Terra quanto pela quantidade de chuvas -o mosquito transmissor, o Aedes aegypti, prefere climas quentes e úmidos. Outro fator é a poluição das águas. O despejo de detritos diretamente nos rios, sejam eles químicos ou humanos, é responsável pela morte de 3 milhões de pessoas todos os anos, vítimas da cólera. Além de aumentar a incidência de algumas velhas doenças, a destruição do meio ambiente também traz à tona moléstias desconhecidas, chamadas de "emergentes". Desde 1976, foram descobertos pelo menos trinta novos micróbios -o HIV e o Ebola estão entre os mais famosos.
Uma vez que entra em contato com a civilização, um microrganismo encontra condições propícias para se espraiar. Nos últimos 100 anos, a população mundial quadruplicou e as cidades incharam. Em 25 metrópoles já se superou a marca de mais de 10 milhões de habitantes. Até a década de 50, apenas Londres e Nova York atingiam esse patamar. Calcula-se que, nos grandes centros urbanos, as pessoas passem 92% de seu dia em ambientes fechados. É o paraíso dos micróbios. Imagine manter uma pessoa gripada confinada num ônibus lotado, com as janelas fechadas. O contágio é certo. Há que levar em conta ainda a maneira como as populações se movimentam pelo globo. A bordo de um avião, é possível dar a volta ao mundo em 48 horas. Cerca de 700 milhões de pessoas transitam pelos ares mensalmente. Os infectados podem carregar os vilões silenciosos de um lado para o outro do planeta e deflagrar verdadeiras pandemias em pouco tempo. "Atualmente a Terra é um caldeirão de infecções", diz o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor da Universidade Estadual de Campinas.
É essa conjunção de fatores que faz do vírus H5N1, o causador da chamada gripe do frango, a grande preocupação dos infectologistas. Único vírus em circulação a pular diretamente das aves para o organismo humano, o H5N1 mata 60% de suas vítimas. O receio é que ele sofra uma mutação e passe a ser transmitido de pessoa para pessoa com a mesma facilidade com que se propaga o vírus tradicional da gripe. Se isso acontecer, a estimativa é que o H5N1 faça, no mínimo, 7 milhões de mortos. Como contrapeso a esse cenário negativo, é preciso dizer que a ciência de hoje possui ferramentas poderosas e progride em ritmo acelerado. "Sou otimista quanto à produção de vacinas e remédios cada vez mais potentes para atacar os vírus emergentes", disse a VEJA o professor Scott Weaver, pesquisador do centro de doenças infecciosas emergentes da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Observar os limites da natureza também não é uma má estratégia.

O tamanho da destruição no Brasil

Montagem sobre fotos de Antonio Milena/Leomar José Mees/Paulo Vitale

O Brasil perdeu 36% de sua cobertura vegetal desde o descobrimento
A área de cultivo de soja em Mato Grosso avança a um ritmo 3 vezes mais rápido que há quinze anos, substituindo a vegetação nativa
200 000 queimadas são identificadas por satélites no Brasil por ano
24,5 milhões de metros cúbicos de árvores foram derrubados na Amazônia em 2004
60% dessa madeira ficou abandonada na floresta, apodrecendo
75% das emissões de gás carbônico do Brasil vêm das queimadas na Amazônia, o que coloca o país entre os cinco maiores poluidores do mundo
Desde 1990, o número de cabeças de gado aumentou 144% na Amazônia, 4 vezes mais do que no restante do país

O risco de pagar para ver
No ritmo atual, a devastação mudará o ciclo de chuvas e logo poderá ser tarde demais para salvar a Floresta Amazônica

Ruth Costas

A Floresta Amazônica está sendo devastada como se nunca fosse acabar. Já não é possível continuar nesse ritmo, pois estamos nos aproximando do ponto em que não haverá mais volta. Simulações feitas em computador pelo meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de São José dos Campos, indicam que a floresta desaparecerá quando a perda atingir entre 40% e 60% da cobertura vegetal. Não falta muito, pois nos últimos quarenta anos a mata encolheu 17%. A razão disso é o delicado equilíbrio do sistema de chuvas na região. Metade da precipitação pluviométrica é formada pelas massas de ar úmido provenientes do Oceano Atlântico, uma fonte inesgotável de umidade. O restante é alimentado pela transpiração das plantas e pela evaporação da água dos rios, do solo e da superfície das folhas. Essa fonte é destruída com a vegetação. No ritmo atual de devastação, a maior floresta tropical do planeta será substituída por uma vegetação típica de cerrado em apenas cinqüenta anos. Ou em trinta, de acordo com o prognóstico mais pessimista, que levou em conta a possível aceleração no ritmo de desmatamento.
"Como metade da chuva na Amazônia é criada pela própria floresta, a destruição será muito mais rápida e irreversível do que foi a da Mata Atlântica, onde a chuva depende sobretudo da umidade vinda do mar", diz o engenheiro agrônomo Enéas Salati, diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, do Rio de Janeiro, e autor do estudo que desvendou o ciclo hidrológico da Amazônia. A redução do volume das chuvas seria apenas uma das conseqüências do rompimento do ciclo das águas na Amazônia. O calor que antes era amenizado pela evaporação da água retida na mata passaria a se concentrar no ar, provocando o aumento da temperatura. O clima da região ficaria mais quente e seco, o que dificultaria a sobrevivência de plantas e animais habituados ao ambiente úmido atual. Uma simulação em computador do que aconteceria com o ambiente da Floresta Amazônica indica que alterações significativas devem começar a ocorrer quando a perda de cobertura vegetal chegar a 20% - ou seja, um índice que estamos próximos de atingir. "Se o ritmo da devastação não for contido, em poucas décadas toda essa biodiversidade desaparecerá da superfície terrestre sem que o homem tenha sequer sido capaz de conhecer toda a sua riqueza", diz o biólogo americano Thomas Lovejoy, presidente do Centro H. John Heinz III para Ciência, Economia e Meio Ambiente, dos Estados Unidos.

Florestas de proveta
Nem tudo está perdido no Brasil verde: um terço do consumo anual de madeira já vem de florestas plantadas, em que as empresas investem bilhões

Carlos Rydlewski

Na lista de previsões que não resistiram à realidade, podem ser incluídas todas as especulações sobre uma eventual queda no comércio mundial de papel, provocada pela difusão de tecnologias digitais. Isso porque, ao menos por enquanto, o que se vê é o contrário. Em vez de inibir, os meios eletrônicos parecem estimular o consumo desse produto, cuja primeira versão surgiu na China, no ano 105. Entre 1990 e 2004, a fabricação mundial de papel, cuja matéria-prima, a celulose, é extraída de árvores, avançou de 240 milhões de toneladas para 337 milhões de toneladas. Um crescimento de 40%. No Brasil, o salto foi de quase 80% no mesmo período, passando de 4,7 milhões de toneladas para 8,4 milhões de toneladas. E foi por meio de um subterfúgio, o plantio de florestas artificiais, que a indústria do setor bancou esse avanço na produção, sem levar ao colapso as reservas verdes do planeta. No mundo, essas áreas de matas plantadas pelo homem para uso industrial já ocupam 187,5 milhões de hectares, o equivalente a um país do tamanho do México. Dessa gleba global gigantesca, 5,4 milhões de hectares, ou 2,9% do total, estão no Brasil. E, hoje, o país vive um novo ciclo de investimentos nesse setor.
Há dois movimentos internacionais que estimulam a expansão das florestas plantadas, nas quais são usadas variedades principalmente de eucalipto e pínus. Um deles é a busca por novas áreas de plantio e construção de fábricas em países como o Brasil, a Rússia, a Índia e a China. O outro impulso vem do intenso apetite mundial por commodities, puxado pelo crescimento chinês. Isso vale tanto para o segmento de papel e celulose como também para a siderurgia, que tem nas florestas plantadas a fonte de carvão vegetal para seus altos-fornos. Existem ainda frentes esporádicas de demanda, principalmente no segmento de construção. É por isso que nos últimos meses as principais indústrias do setor concluíram e já anunciaram investimentos de peso em florestas artificiais no Brasil. No fim de setembro foi inaugurada a Veracel, uma fábrica de celulose em Eunápolis, no sul da Bahia, montada por meio de parceria entre a Aracruz e o grupo sueco-finlandês Stora Enso. O investimento, desde o início dos anos 90, totalizou 1,2 bilhão de dólares. A Suzano também anunciou um aporte de 1,3 bilhão de dólares, em Mucuri, na mesma região, para a construção de uma unidade industrial. Estimativas das empresas do ramo indicam que as florestas plantadas devem atrair recursos da ordem de 13 bilhões de dólares até 2014 no Brasil.
A cifra é otimista, mas o país tem encantos para tanto. Fatores como a disponibilidade e a qualidade do solo, o regime de chuvas, a temperatura e a luminosidade - a quantidade de sol -, associados à pesquisa genética, fazem com que as matas artificiais brasileiras alcancem uma produtividade incomparável. Nas plantações nacionais, o eucalipto, que fornece uma matéria-prima de fibra curta, usada na produção de papéis de menor resistência, pode ser cortado num prazo de cinco a sete anos após o plantio. No Canadá e na Finlândia, importantes produtores de papel, esse prazo pode ser seis vezes maior. O custo da madeira numa fábrica brasileira também é inferior à metade do valor registrado nesses países. "Não há exagero em dizer que nenhum lugar do mundo reúne condições tão favoráveis como o Brasil para o plantio de florestas", diz o professor Laércio Couto, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. "E temos muito espaço a ocupar, sem oferecer risco às áreas de preservação, principalmente em pastagens degradadas." O detalhe: numa comparação mundial, o Brasil só começa a perder competitividade no momento em que são contabilizados os impostos, as despesas com escoamento e o custo adicional do crédito.
Em relação ao meio ambiente, as glebas de florestas plantadas no Brasil incorporaram avanços significativos nos últimos quinze anos. Nos anos 60, quando foram criados os projetos mirabolantes de reflorestamento no país, regados por fartíssimos incentivos fiscais, a história era diferente. Tanto que o famígero Projeto Jari, cravado na selva do Amapá em 1967, perdurou por muitos anos como um símbolo desse tipo de empreendimento. Sonho do americano Daniel Keith Ludwig, então na lista dos cinco homens mais ricos do mundo, o Jari estendia-se por uma área correspondente à metade da Bélgica. Foi montado para produzir celulose, arroz e carne bovina em profusão nunca vista. Sucumbiu de maneira quase tão delirante como surgiu.
Os projetos de reflorestamento, por sua vez, modernizaram-se, também por causa de severas certificações internacionais, aliadas à tecnologia. Hoje, as grandes florestas são plantadas em áreas intercaladas com matas naturais, formando verdadeiros mosaicos verdes. Isso porque, como são feitas com material genético homogêneo, as plantações não têm um sistema de defesa contra insetos. Poderiam ser dizimadas por punhados de bichinhos. "Mas, em equilíbrio com o ambiente natural, elas até se tornam mais resistentes, pois ganham os inimigos naturais contra possíveis agressores", diz José Totti, gerente de planejamento e pesquisa florestal da Klabin. Para completar, apesar de as florestas plantadas ocuparem apenas 8% da área cultivada do Brasil, elas fornecem 85% de todos os produtos de origem florestal encontrados no mercado. E esse é um alento, principalmente em um mundo que parece não querer diminuir tão cedo o consumo de papel, energia, móveis e materiais para a indústria de construção.

Depoimentos de pesquisadores sobre a Amazônia
A Amazônia não pode esperar
Cientistas apontam soluções urgentes para tirar a região do atraso e preservar a natureza

Leia depoimentos dos cientistas:
Alfredo Homma
Bertha Becker
Daniel Nepstad
David McGrath
Gerd Kohlhepp
Ima Célia Guimarães Vieira
José Maria Cardoso da Silva
Mary Alegretti
Paulo Barreto
Philip Fearnside
Ronaldo Seroa da Motta
Sergio Margulis
Sven Wunder
Virgílio Viana

Por sua extensão, diversidade biológica, social e cultural, a Amazônia apresenta problemas distintos. Não existe uma resposta global para os seus problemas e políticas universalistas, desenhadas com a promessa de solução aplicadas a pontos distintos de um região que corresponde por mais de 60% do território nacional, quase sempre dão errado. A origem dos equívocos está no fato de que Amazônia não é uma massa compacta de árvores e rios que muitos gestores públicos pecam em acreditar. São mais de 9.000 quilômetros de fronteiras cercadas por narcotraficantes, guerrilheiros, contrabandistas que formam a face mais vulnerável da região. Com um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano e recordista de casos de trabalho escravo no campo, a Amazônia se apresenta como um desafio para cientistas e governantes. Para apontar alternativas viáveis para a Amazônia, VEJA consultou quinze cientistas, com profundo conhecimento da região, para ajudar a responder o que é possível fazer para começar a combater as mazelas locais.
Entre as ações mais urgentes, destaca-se o combate à pobreza. Pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, revelam que existe um quadro de miséria tão extrema quanto a exposta em meio à paisagem ressequida do nordeste brasileiro. Os pesquisadores encontraram um índice de 70% de nanismo, 37,5% de anemia e 50% de avitaminose entre as crianças analisadas. Na área urbana, onde vivem sete em cada dez pessoas da região, foi identificado um índice de 72,2% de desnutrição. Outra urgência é trocar as técnicas de cultivo por modelos mais eficientes.

Entre os vários diagnósticos desenhados pelos cientistas, há em comum os seguintes pontos:

A comunidade científica ainda não conhece suficientemente os impactos das culturas intensivas sobre o ecossistema.

Isso se torna urgente com a crescente demanda mundial por alimentos, que coloca a Amazônia no centro dos debates da expansão agropecuária.

Na Amazônia estão registrados os maiores índices de crescimento populacional do país. A principal causa dessa explosão demográfica é a migração de miseráveis de outras regiões do país, principalmente do Nordeste em busca de terra e trabalho.

É impossível impedir a expansão da ocupação humana e a fronteira econômica na região. O Estado Brasileiro precisa definir regras claras de uso da Amazônia e garantir a segurança e o cumprimento da lei na região.

É preciso atribuir um valor econômico para a preservação. As pessoas precisam ter lucro real com a floresta para mantê-la de pé.

Falta investimento em pesquisa e tecnologia na Amazônia. A região tem o menor índice per capita de doutores do país e os volumes de investimentos mais baixos se comparados com as demais regiões do Brasil.

Esquecer a xenofobia e aceitar que a solução para os problemas amazônicos não depende apenas dos brasileiros. Se os benefícios da Amazônia são globais, o mundo deve ajudar a pagar a conta da preservação.

A seguir, veja o que cada um dos cientistas ouvidos por VEJA aponta como uma solução imediata e viável para a Amazônia.

Alfredo Homma
Agrônomo com doutorado em Economia Rural, pela Universidade Federal de Viçosa. Trabalha na Embrapa Amazônia Oriental. É um dos principais estudiosos do desenvolvimento agrícola e ambiental na Amazônia.
"Os problemas da Amazônia não são independentes, isso indica que muitas soluções estão fora da região, como a pobreza do Nordeste, as necessidades crescentes de energia, minérios, carne, madeira, de outras parte do país e do mundo. É interessante observar que o cacau e a seringueira, duas espécies nativas da Amazônia, contribuem para o desenvolvimento agrícola de outras regiões tropicais onde estas culturas foram introduzidas e, hoje somos importadores desses produtos. Somente com instituições de pesquisa e de assistência técnica do mais alto nível - bem dotadas de recursos humanos e financeiros - será possível aproveitar o potencial agrícola da Amazônia.
Na Amazônia as alternativas tecnológicas que ainda não aconteceram atrapalham a busca de um desenvolvimento mais adequado. Entre outras ações, há necessidade de triplicar o número de pesquisadores e recursos para ciência e tecnologia e gerar alternativas de renda e emprego. A extinção do desmatamento é possível com o aproveitamento parcial da área desmatada superior a três Estados do Paraná mas com o PIB equivalente a uma vez e meia desse Estado. Há necessidade de investimentos em atividades que dêem dinheiro, que sejam competitivas, fiscalizadas e promovam a exploração racional do que já foi devastado. Uma boa política agrícola para Amazônia é mais importante para resolver os problemas ambientais do que a própria política ambiental. As terras para serem cultivadas existem e já foram desmatadas, portanto, nenhuma árvore precisa ser jogada no chão."

Bertha Becker
Geógrafa e historiadora, é doutora em Ciências e Livre Docente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com 74 anos, 31 deles dedicado ao estudo da Amazônia.
"O grande problema da Amazônia não é diverso do grande problema do Brasil: a questão social. A diferença é que ela possui um fantástico patrimônio natural que não sabemos ainda como utilizar respeitando sua cultura e a própria natureza. Trata-se, portanto, de promover o crescimento econômico com inclusão social e conservação ambiental. Para isso é preciso uma aliança entre a ciência e a tecnologia, além do fortalecimento institucional para cumprimento da lei e a regionalização das políticas públicas que, embora seguindo princípios comuns devem se ajustar às diferenças regionais."

Daniel Nepstad
Ecólogo do Woods Hole Research Center e fundador do Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia. Com 21 anos de pesquisa na região, é uma das maiores autoridades sobre a ecologia amazônica.
"A Amazônia é uma das últimas oportunidades para conseguir a conciliação do desenvolvimento socioeconômico com a conservação do ecossistema. Os riscos ambientais e sociais da ocupação pela pecuária, pela agroindústria, e pela exploração madeireira vão muito além das perdas locais de animais e plantas, de solo, e de culturas indígenas. Embora o Brasil e o mundo saibam da importância da Amazônia, a sociedade ainda não acertou um modelo de governança do processo de ocupação dessa região. Há a possibilidade de que as forcas da globalização passem a exercer esse papel. Exigências cada vez maiores dos mercados internacionais de carne e soja podem ajudar a colocar ordem na Amazônia."

David McGrath
Geógrafo, 53 anos, professor do curso de doutorado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará. É, também pesquisador associado do Ipam onde coordena projetos que avalia a sustentabilidade econômica em comunidades no interior do Pará.
É necessário que o governo assuma controle efetivo da situação fundiária criando um cadastro nacional das terras e regularizando a situação das propriedades legais e reduzindo a grilagem. Também é preciso reduzir as exigências para o desmatamento legal, o manejo florestal e o código florestal. Só assim será mais fácil e barato cumprir a lei do que quebrá-la. Um dos grandes problemas é que as exigências do governo excedem a sua capacidade de processar a informação exigida, criando um enorme gargalo que pune que tenta agir de forma legal. Ainda é preciso investir numa presença institucional efetiva em todo o território amazônico para monitorar e fiscalizar a legislação ambiental envolvendo as instâncias federais e estaduais. No melhor dos cenários a capacidade do governo é limitada. Portanto, é essencial fortalecer mecanismos de mercado para a pecuária, o manejo florestal e a produção de grãos, que incentivam o cumprimento da legislação ambiental."

Gerd Kohlhepp
Geógrafo alemão, professor emérito e fundador do Centro de Pesquisas sobre a América Latina da Universidade Tübingen. Foi presidente do Grupo de Assessoria Internacional do Banco Mundial, para o Programa de Proteções de Florestas Tropicais.
"O problema principal da Amazônia é, por um lado, a ausência do Estado e por outro a presença de planejamento de desenvolvimento regional oscilante pelo mesmo Estado. Esse planejamento não tinha nem tem equilíbrio econômico, social e ecológico e, sobretudo, não considera adequadamente nem as necessidades da população atual da Amazônia, nem as das próximas gerações. O Estado tem o dever de preservar os interesses de toda sua população - interesses esses que não devem ser prejudicados por atividades legais descoordenadas, ou mesmo por atividades ilegais.
A meta de todas as considerações relativas ao desenvolvimento e preservação deve conter a seguinte premissa: planejamento global e ação local. Isto significa que a responsabilidade de atividades locais, regionais e nacionais em todos os países, consideradas as suas necessidades, deve ser coordenada a nível global."

Ima Célia Guimarães Vieira
Diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.
"Um dos maiores desafios científicos brasileiros é planejar um sistema de gestão territorial para a Amazônia, que leve em conta tanto a conservação dos recursos naturais como a promoção do desenvolvimento social e econômico dos seus quase vinte milhões de habitantes. Acreditamos que com a um programa ambicioso de regularização fundiária e uso intensivo das áreas já alteradas seria possível estabelecer um clima estável que favoreça investimentos de longo prazo. Paralelamente, é necessário que os governos federal e estadual incentivem uma estratégia integrada de desenvolvimento que valorize a floresta em todos os seus sentidos, de forma a combinar a conservação e o uso sustentável de 83% da floresta amazônica com o uso intensivo, com amplo suporte tecnológico e infra-estrutura adequada, dos 17% de áreas já alteradas."

José Maria Cardoso da Silva
Biólogo e vice-presidente da ONG Conservação Internacional, com sede em Washington. Desenvolve pesquisas de preservação de espécies.
"O grande problema da Amazônia é a ocupação desordenada do território e o desmatamento a ela associado, o que leva a perda tanto de recursos genéticos, que só existem na região, como dos serviços ambientais, que só a maior floresta tropical do planeta pode oferecer ao Brasil e ao mundo. A história demonstra que este modelo de ocupação é extremamente ineficiente e injusto socialmente, pois geralmente não produz benefícios sociais e econômicos concretos para a maioria das populações locais e dilapida rapidamente o capital natural de uma região, reduzindo assim as opções futuras de uso destes recursos para a promoção do desenvolvimento regional.
A chave para conter a perda de biodiversidade na Amazônia e aumentar significativamente a qualidade de vida da população regional é combinar a conservação e o uso sustentável de 83% dos ecossistemas naturais com o uso intensivo e inteligente dos 17% de áreas já alteradas. Para isso é preciso construir um sistema de pesquisa e desenvolvimento visando fomentar cadeias produtivas baseadas na biodiversidade regional. Isso requer investimentos pelo menos iguais aos feitos até hoje para fomentar cadeias produtivas baseadas na destruição da floresta. Uma fonte permanente de recursos poderia ser a criação de um mecanismo eficiente de pagamentos pelos serviços ambientais que a Amazônia e as outras grandes áreas de florestas tropicais do planeta prestam ao planeta, incluindo, por exemplo, a manutenção do clima regional, a fixação de carbono e a conservação de uma parcela importante da biodiversidade do planeta."

Mary Alegretti
Antropóloga e ex-secretária de Coordenação da Amazônia. Ajudou a projetar o seringueiro Chico Mendes e é uma das mais influentes vozes do desenvolvimento sustentável.
"Desde que a ditadura militar criou esse modelo de ocupação da Amazônia, não fomos capazes de inventar outro. A democratização do país não deu origem a uma nova modalidade de desenvolvimento para a região. A única novidade real das ultimas duas décadas foi o surgimento dos movimentos sociais locais voltados para a sustentabilidade. Embora se possa dizer que um quarto da Amazônia está em boas mãos, isso não basta para assegurar o futuro da região. Nem para garantir o futuro do que hoje está protegido.
Falta um projeto do país para a Amazônia que leve em consideração os interesses locais e nacionais legítimos e a importância estratégica da região para o planeta. Falta interesse, cuidado, do país pela Amazônia. Isso faz com que se deixe o terreno livre para o que há de pior: políticos desqualificados, empresários ladrões, ignorantes e predadores. Cientificamente, trata-se de uma fronteira de recursos sem definição clara de direitos de propriedade na qual grupos com diferentes níveis de poder político e econômico disputam recursos naturais valiosos. Assim, é preciso uma política de "fechamento da fronteira": controle sobre as terras públicas, zoneamento informado e negociado, mosaico de áreas protegidas (uso sustentável e proteção integral), revolução tecnológica e remuneração dos serviços ambientais prestados pelas comunidades indígenas e locais. É preciso ter uma ação corajosa de congelar todas as terras públicas, todos os investimentos, todos os empréstimos, definir regras de uso pertinentes à importância estratégica da região e iniciar um programa intensivo, massivo, de investimento em tecnologia e capacitação de recursos humanos para a sustentabilidade. Esperava-se que esse choque de "florestania" viesse com o governo Lula. E acho que muita coisa foi relevada e muitas pressões postergadas, em função da expectativa de que o governo Lula daria fim ao modelo anterior. Basta ver o que está escrito no programa de campanha."

Paulo Barreto
Mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale, nos EUA. É autor de estudos que serviram de base para a definição de critérios para o manejo florestal na Amazônia
"A Amazônia merece ser em grande parte conservada. Primeiro, porque abriga uma extraordinária biodiversidade que é útil no presente e que poderá ser ainda mais útil no futuro (principalmente com a evolução da engenharia genética). Segundo, a floresta da região é um imenso estoque de carbono cuja liberação (pelo desmatamento) poderá ter influências drásticas no clima regional e mundial - por exemplo, as chuvas do centro-oeste e sudeste do Brasil são influenciadas pelo vapor d'água que emana da Amazônia. O primeiro grande problema para sua conservação é que o mercado ainda não valoriza esse patrimônio. Nesse caso, a conservação da Amazônia dependeria de forte ação governamental. Apesar de avanços, o Estado brasileiro ainda é frágil e contraditório nas suas políticas para conservação da região. Por isso, a destruição avança rapidamente."

Philip Fearnside
Ecólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Com quase três décadas de trabalho, é o cientista citado entre os que estudam Amazônia
"A Amazônia tem múltiplos problemas, mas entre os fundamentais está a falta de uma valoração dos serviços ambientais e a incorporação na economia da região de fluxos monetários derivados desses serviços, tais como a manutenção da biodiversidade, da ciclagem d'água e dos estoques de carbono que evitam o efeito estufa. Enquanto a floresta intacta não tiver um valor significativo em termos financeiros, sempre vão ser encontradas maneiras para enfraquecer, burlar ou corromper o sistema de regulação ambiental para permitir a destruição de cada vez mais floresta. Portanto, além da luta de cada dia para fazer cumprir a legislação, é preciso também trabalhar no nível mais fundamental para quantificar o valor da floresta e efetivar a uma mudança básica da economia."

Ronaldo Seroa da Motta
Doutor em Economia, é coordenador de Estudos de Mercado e Regulação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
"Amazônia intacta não é um objetivo eficiente de política pública. Nossos estudos indicam que o valor dos serviços da floresta que geram benefícios para o resto do mundo (clima, biodiversidade, etc.) estaria na magnitude de US$ 70/ha, ou seja, mais que duas vezes maior que aqueles capturados em termos locais e nacionais (em torno de US$ 30, incluindo ecoturismo, extrativismo, etc.). Isto é, há uma geração significativa de externalidades positivas globais, daí não é à toa que os países ricos nos pressionam para manter este fluxo de subsídios ambientais. Não querem invadir a Amazônia e cuidar dela, pois custa muito. Melhor para eles seria manter esta pressão para que a floresta continue gerando subsídios ambientais.
Para corrigir a externalidade dos subsídios, uma forma seria com pagamentos aos locais da floresta pelo custo de oportunidade de não plantar soja ou criar gado, por exemplo. Sem esta compensação, aqueles que pregam conservação total estão na verdade subsidiando os países ricos. Se for para manter intacta a floresta então que passemos os direitos de uso para todo o planeta, pois estes direitos não nos vão servir de muito, além de gerar custos e aborrecimento. Compartilhando globalmente, invertemos os fluxos de benefícios e custos, reduzindo os gastos na conservação para a mesma quantidade de serviços ambientais capturados pelo país.
Mas esta não é certamente a melhor solução para o país! Há uma área da região que merece ser convertida para aumentar o bem-estar local e nacional, seja pela expansão da agropecuária, seja pela mineração ou mesmo para a geração de hidroletricidade. Sustar todas estas oportunidades em nome dos serviços da floresta que são majoritariamente capturados pelos países ricos não atende qualquer critério de eficiência e eqüidade."

Sergio Margulis
Economista ambiental do Banco Mundial. É autor de trabalhos sobre as dinâmicas do desmatamento na Amazônia
"A Amazônia é muito mais uma solução do que um problema. Infelizmente, com as tecnologias e conhecimento científico hoje disponíveis, e com os custos de operar na região, não é possível extrair valor da floresta deixando-a intocada, excetuando os serviços ambientais que não são diretamente "monetizados". O desmatamento decorre de uma miríade de fatores interdependentes, mas dentre os fatores econômicos indubitavelmente é a expansão da pecuária de larga escala o principal fator. Quando as condições agroecológicas permitem, tende a haver uma sucessão com soja e outras culturas. Muita atenção é dada à ilegalidade da exploração da madeira, que deixa todos indignados, mas a derrubada da floresta decorre fundamentalmente da transformação em pasto e não da extração da madeira."
Sven Wunder Economista do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (Cifor, em inglês), com sede na Indonésia. Trabalhou em florestas da América do Sul e Ásia.
"A grande pressão hoje sobre a floresta Amazônica não se deve em primeiro lugar a "necessidades básicas" e à pobreza, mas a oportunidades econômicas de expansão que têm importantes setores produtivos como a madeira, a soja, e sobretudo a pecuária. Tanto pequenos como grandes produtores percebem opções para usar mais terras amazônicas, e ganhar bom dinheiro com isso. Para eles, o processo de desmatamento é economicamente racional. Politicamente, o mais fácil seria então deixar continuar esse processo semilegítimo sem muita intervenção. Porém, o governo brasileiro tem declarado que não quer tolerar perdendo o seu patrimônio amazônico a um ritmo altamente acelerado, sem controle onde e para que fins acontecem essas perdas e sua biodiversidade. Para implementar uma política de expansão mais cautelosa, e conseguir controlar o "cavalo selvagem do desmatamento", é preciso usar juntos "o chicote" e "a cenoura". A "cenoura" aqui são os incentivos econômicos, por exemplo os pagamentos por serviços ambientais (idéia nascente do Proambiente), a certificação de produtos amazônicos "verdes" (madeira, borracha) e "legais" (soja, carne), e o acesso a novas áreas de produção (como as concessões madeireiras no novo PL de Acesso a Terras Publicas). O setor privado adora "cenouras".
Porém, o "chicote" também tem de ser usado de forma mais eficiente. Todo o processo sistematizado de grilagem e de privatização de terras (a palavra "privar" no latim vem de "roubar") tem de ser enfrentado com muito mais vontade política: com multas maiores, aplicadas com muito mais consistência e, em alguns casos, usando convênios especiais com as forças militares e policiais. Com as técnicas de sensoriamento remoto, a parte difícil não é saber onde e quanto acontece o desmatamento ilegal. A parte difícil e fazer cumprir a lei, dando "desincentivos" eficientes para os criminosos. Normalmente, o setor privado não adora do "chicote" de forma igual como adora a "cenoura". Usar o chicote vai criar perdas de ganância econômica, e inimigos fortes. A pergunta-chave é se o Estado brasileiro realmente quer controlar o desmatamento - não só na sua retórica, mas até o ponto de assumir os significativos custos econômicos e políticos que isso vai criar."

Virgílio Viana
Secretário de Meio Ambiente do Estado do Amazonas. Pós-doutor por Harvard, foi coordenador do primeiro projeto de exploração de madeira certificada no Brasil.
"A gênese do problema da Amazônia está no paradigma do mato. A visão mais comum entre nós é que mato é ruim, sujo e deve ser eliminado em nome do progresso. Desmatar, portanto, seria algo bom. Disso decorrem políticas públicas, de crédito, fundiária, assistência técnica, licenciamento ambiental e ciência e tecnologia historicamente equivocadas. Precisamos, na Amazônia, de uma política florestal que incorpore mudança sobre esses instrumentos de apoio ao desenvolvimento sustentável. As populações da Amazônia, indígenas, caboclos, ribeirinhos, extrativistas, colonos, fazendeiros e empresários, são induzidos a desmatar direta e indiretamente, por políticas públicas equivocadas. Isso é um processo lógico e previsível. Repete-se na Amazônia a mesma história da Mata Atlântica. O desfecho é trágico.
A solução para prevenir o desmatamento na Amazônia é extremamente simples. Precisamos alterar profundamente a lógica econômica, tecnológica, cultural e institucional que conduzem ao desmatamento. São necessárias políticas públicas, de crédito, fundiária, assistência técnica, licenciamento ambiental e ciência e tecnologia eficazes. Precisamos ir além das medidas convencionais, deixar de fazer complicadas proibições que são ineficazes. Em outras palavras, precisamos de uma política de meio ambiente e desenvolvimento sustentável."

Veja, 12/10/2005, Especial, p. 84-118

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