VOLTAR

Perigo no Polo Norte

O Globo, Ciência, p. 30
13 de Mai de 2011

Perigo no Polo Norte
Países disputam petróleo e gás do Ártico. Exploração ameaça região já castigada pelo clima

Elemento-chave do clima global, o Ártico é um dos lugares do planeta onde as mudanças climáticas são mais evidentes. A cada ano, a camada de gelo sobre o mar perde extensão e espessura. E muitas geleiras terrestres encolhem significativamente. É este o cenário debatido, na Groenlândia, por representantes dos oito países que fazem fronteira com a região. Por trás da preocupação ambiental, no entanto, está sendo travada uma disputa por reservas de gás e petróleo antes inacessíveis, e agora reveladas pelo aquecimento.

Acredita-se que o Ártico mantenha cerca de um quarto das reservas de petróleo e gás ainda não exploradas do planeta. Esta riqueza intocada já promove uma corrida armamentista entre países do norte europeu. O interesse pelas reservas é tamanho que obscurece estudos como um divulgado na semana passada, alertando que o derretimento das calotas polares pode aumentar o nível global dos mares em 1,6 metro nos próximos 90 anos, inviabilizando cidades e atividades econômicas.

EUA: interesse na Groenlândia

Enquanto EUA, Canadá, Rússia, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia discutem o futuro do Ártico, o WikiLeaks divulgou ontem mais uma comprometedora troca de telegramas entre autoridades americanas. Os documentos denunciam a batalha pelo controle da região menos explorada - e uma das vulneráveis - do planeta.

Segundo os documentos, os EUA tentam fazer frente a outros países da região apostando na independência da Groenlândia, um protetorado dinamarquês de 320 mil habitantes.

"Com a independência da Groenlândia tremeluzindo no horizonte, os EUA têm uma oportunidade única para delinear em que circunstâncias emergirá esta nova nação", descreveu um despacho de diplomatas americanos em 2007. "Temos interesses econômicos crescentes na Groenlândia".

A presença da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, na conferência na Groenlândia mostra a importância que tem sido atribuída ao Ártico, agora que as calotas de gelo polares estão derretendo.

Para ambientalistas, a imagem de tais riquezas está levando aos países da região a esquecer das consequências a longo prazo das questões climáticas.

- Em vez de abordarem o derretimento das calotas de gelo do Ártico como um estímulo à ação imediata contra as mudanças climáticas, os líderes das nações da região estão investindo em equipamentos militares - acusa o militante do Greenpeace Ben Ayliffe. - Os países estão se preparando para disputar o direito de extrair os mesmos combustíveis fósseis que causaram todo esse derretimento.

A Rússia largou na frente. É o país que domina a maior parte da costa ártica, e sua frota de quebra-gelos militares e civis atravessa todo o oceano gelado. Enquanto outras nações têm pequenas vilas ou estações de pesquisas em seus limites ao norte, ela conta com grandes cidades, como Murmansk, no Círculo Ártico.

O mundo começou a reparar nas ambições russas há quatro anos, quando uma expedição daquele país fincou uma bandeira nacional de titânio no leito do mar do Polo Norte. Em um dos telegramas do WikiLeaks, diplomatas americanos narram relato de um importante político russo. Segundo esta autoridade, o Partido da Rússia Unida, dirigido por Vladimir Putin, ordenou uma missão de exploração do Polo Norte.

Esta operação, assim como a retórica crescentemente beligerante da Rússia em relação ao Ártico, acendeu o sinal vermelho em Washington e outros países com interesses e fronteiras na região.

- Este não é o século XVI. Você não pode andar mundo afora plantando bandeiras para dizer, "estamos reivindicando este território" - condenou Peter McKay, ministro das Relações Exteriores do Canadá à época.

Outro telegrama do WikiLeaks mostra o como o chanceler da Noruega agradeceu sarcasticamente ao colega russo, Sergey Lavrov, por fazer a compra de novos caças "tão mais fácil de ser justificada... ao público norueguês".

Na nova remessa do Wikileaks há, também, um documento citando o chefe da Marinha russa, onde este afirma que "não se pode excluir no futuro a hipótese de redistribuição do poder, até a intervenção armada" pelo Ártico.

- Como várias vezes anteriormente, este rearmamento é motivado por petróleo - lamentou Ayliffe, referindo-se à retórica militar e ao crescente gasto com as Forças Armadas entre os países nórdicos. - Precisamos que os líderes políticos eliminem nossa dependência de combustíveis fósseis investindo em tecnologias limpas e de ponta, sem destruir o meio ambiente ou gerando tensões entre icebergs e geleiras.

Ao discursar ontem na Groenlândia, Hillary considerou "vencida" a ratificação dos EUA a um tratado da ONU sobre a preservação do fundo do mar. Mais uma prova de como o meio ambiente, no Ártico, tem um futuro duvidoso.

O Globo, 13/05/2011, Ciência, p. 30

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.