CB, Brasil, p.18
29 de Abr de 2004
MEIO AMBIENTEPerigo dentro dáguaEstudo mostra que 258 peixes e invertebrados aquáticos correm risco de extinção no Brasil. Lista das espécies ameaçadas deve ser divulgada pelo governo em 22 de maio, Dia Mundial da Biodiversidade
Ullisses CampbellDa equipe do Correio
Está na mesa da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a primeira lista de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção no Brasil. Se o governo mantiver na íntegra a relação de animais elaborada por 15 professores universitários e especialistas no assunto, 258 bichos que vivem nos rios e no mar serão declarados em maio como ameaçados de sumir da natureza. Entre eles estão a estrela-do-mar, o tubarão-martelo, o peixe-serra, o candiru, o caranguejo-uçá e o cavalo-marinho, entre outros. Com isso, a lista oficial de bichos em extinção vai saltar de 395 para 642 espécies. A nova relação, à qual o Correio teve acesso com exclusividade, será publicada com um ano de atraso. No ano passado, quando o governo divulgou a terceira lista vermelha, 166 espécies de peixes já eram apontados como ameaçados de desaparecer da fauna, assim como 92 invertebrados aquáticos. O Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, porém, deixaram esses dois grupos de fora. A justificativa é de que precisariam de um estudo mais aprofundado. Mas o motivo real era outro: parte dos peixes ameaçados são explorados economicamente. Os ambientalistas bateram o pé e agora cobram do governo a publicação da lista integral, prevista para sair em forma de portaria no Dia Mundial da Biodiversidade, 22 de maio. Preservação Listas oficiais de animais em extinção não são apenas um alerta de que as espécies relacionadas estão desaparecendo da natureza. Servem para nortear programas de preservação e definir prioridades. Os animais que aparecem na lista estão mais sujeitos à exploração, ressalta a coordenadora da Fundação Biodiversitas, Gláucea Drummond. A Biodiversitas é a ONG contratada pelo governo para coordenar os estudos que resultam na lista de animais ameaçados de extinção. A relação elaborada pela Biodiversitas foi entregue ao Ibama e já está nas mãos da ministra Marina Silva. Foi elaborada com os parâmetros da União Internacional Para Conservação da Natureza (IUCN). Essa lista deveria ter sido publicada no ano passado. O atraso não traz benefício porque retarda a implementação de programas de preservação, diz o pesquisador Flávio Lima, da Universidade de São Paulo. Piracanjuba Ele cita como exemplo o piracanjuba (Brycon orbignyanus). Peixe comestível, a espécie foi explorada economicamente até a exaustão. Hoje, está ameaçada de desaparecer de vez dos rios do país. Fornecedor de uma carne saborosa, fina e cara, esse peixe ainda é procurado nos rios de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e nos três estados da região sul. A maior preocupação dos especialistas, quando se fala em animais aquáticos, é que, em toda a costa brasileira, é comum a pesca de arrastão. Nela, dois barcos puxam redes gigantes que varrem o fundo do mar, destruindo comunidades inteiras de vertebrados e invertebrados. Nessa pesca predatória, colhe-se de tudo, até espécies que não têm qualquer valor econômico, como ouriços-do-mar, caracóis e anêmonas-do-mar. Outro bicho que vem despertando preocupação dos ecologistas é o caranguejo-uçá, um dos maiores e mais saborosos do Brasil. Nos mangues do nordeste, é caçado indiscriminadamente. Se não entrar logo na lista nacional das espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção, só será encontrado na música Vendedor de Caranguejo, cantada por Gilberto Gil no disco Quanta. O refrão diz o seguinte: Caranguejo-uçá, caranguejo-uçá /Apanho ele na lama /E boto no meu caçuá /Caranguejo bem gordo é guaiamum /Cada corda de dez dou mais um.
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NO MAU CAMINHO Na Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza, o Brasil ocupa hoje o quarto lugar entre os países com maior número de animais ameaçados de extinção. Confira o ranking:
Estados Unidos 859
espécies ameaçadas
Austrália 527
Indonésia 411
Brasil 350
Punição aos infratores
Um bicho que entra na lista de ameaçados de extinção recebe tratamento especial. Quem for flagrado caçando qualquer um desses animais é enquadrado na Lei Ambiental 9.605 e pode pegar até um ano de cadeia, além de pagar multa que varia entre R$ 500 e R$ 5 mil. Se a espécie for rara ou estiver ameaçada de extinção, a pena passa a ser de dois anos de prisão. As multas dobram e podem variar de R$ 1 mil a R$ 10 mil. Se o animal for morto em caça profissional, a punição tanto penal quanto administrativa triplica. Das 166 espécies de peixes que estão sumindo da fauna brasileira, 146 são de água doce e 20 de mar.
CB, 29/04/2004, p. 18
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