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Pererecas com espinhos venenosos

O Globo, Sociedade, p. 27
07 de Ago de 2015

Pererecas com espinhos venenosos
Pesquisadores descobrem em duas espécies nativas do Brasil estrutura para inocular toxinas em predadores, característica que as aproxima de animais peçonhentos como a cobra

SÉRGIO MATSUURA
sergio.matsuura@oglobo.com.br

"A dor era terrível, mas sem infecção. Concluí que poderia ser um veneno" Carlos Jared Pesquisador do Instituto Butantan que recebeu a peçonha ao estudar uma das pererecas
Não é surpresa que pererecas secretem veneno por glândulas na pele, mas pesquisadores acabam de descobrir as primeiras duas espécies desses anfíbios que são verdadeiramente peçonhentas. Elas não apenas produzem toxinas, como têm um mecanismo para atingir outros animais usando espinhos ósseos localizados em suas cabeças. A Corythomantis greeningi e a Aparasphenodon brunoi vivem no Brasil e são mais venenosas até que algumas espécies de cobras.
- Descobrir uma perereca verdadeiramente peçonhenta foi inesperado, e encontrar pererecas com secreções mais venenosas que as víboras mortais do gênero Bothrops ( da jararaca) foi surpreendente - disse Edmund Brodie, da Universidade Estadual de Utah, nos EUA, um dos autores de um estudo sobre os animais publicado ontem na revista acadêmica "Current Biology".
CIENTISTA ENVENENADO NA PESQUISA
As espécies já eram conhecidas há décadas, talvez séculos, mas os cientistas sabiam muito pouco sobre sua biologia. Elas não têm predadores na natureza - o que faz sentido após as recentes descobertas. Carlos Jared, do Instituto Butantan, foi o primeiro a relatar o achado, e o fez da forma mais dolorosa. Enquanto coletava exemplares para estudos, foi ferido na mão e sofreu com dores intensas por cinco horas. O evento, claro, chamou a atenção da dupla de pesquisadores.
- Minha mente científica foi em busca de explicações. Era uma dor terrível, mas sem infecção. Então poderia ser um tipo de veneno - disse Jared.
E ele teve sorte. A espécie que o feriu é a menos venenosa das duas. Segundo cálculos dos cientistas, um grama da secreção tóxica da outra espécie, a Aparasphenodon brunoi, seria suficiente para matar cerca de 300 mil ratos ou 80 humanos. A toxina da
Corythomantis greeningi é 25 vezes mais branda, mas dependendo da dose também pode ser letal.
- É pouco provável que uma perereca produza tanta toxina, e apenas pequenas quantidades são transferidas para o ferimento - explicou Brodie.
A Corythomantis greeningi vive na Caatinga, enquanto a Aparasphenodon
brunoi é encontrada em regiões da Mata Atlântica, entre o Norte do Rio de Janeiro e o Norte do Espírito Santo.
Sapos, rãs e pererecas são conhecidos pela produção de veneno, mas como arma de defesa passiva. A liberação da substância acontece pela pressão da mordida do predador. É essa a estratégia do vertebrado mais venenoso do mundo. Um único exemplar do Phyllobates terribilis, anfíbio da família dos dendróbates, produz veneno suficiente para matar dez pessoas.
Animais com defesa ativa, como a cobra, possuem mecanismo próprio para injeção da toxina. O movimento da mordida pressiona as glândulas e libera o veneno, por isso eles são conhecidos como peçonhentos. A descoberta de Brodie e Jared é surpreendente por, pela primeira vez, observar em pererecas estruturas capazes de inocular toxinas.
O próximo passo é compreender melhor o veneno e as glândulas que o produzem. Brodie e Jared também estão analisando outras espécies ao redor do mundo.
- Não tenho dúvida que vamos encontrar outras espécies com essa arma - disse Jared.
Coincidentemente, a revista "Zookeys" também anunciou ontem a descoberta, nos Andes peruanos, de uma nova espécie minúscula de rã, da família Craugastoridae, que dificilmente alcança o tamanho de um besouro.

O Globo, 07/08/2015, Sociedade, p. 27

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/pesquisadores-descobrem-espin…

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