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Pequenos agroexportadores faturam com biodiversidade do Brasil

Globo Rural - globorural.globo.com
Autor: Daniel Azevedo Duarte — Campinas (SP)
31 de Mai de 2026

O número de pequenos agroexportadores brasileiros mais que dobrou em uma década e aumentou sua relevância não só para a balança comercial, mas também arranjos sociais e o meio ambiente.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), 877 MEIs, micro e pequenas empresas do setor figuraram como exportadoras em 2025, um aumento de 154,9% em relação a 2015.

Em receita, os valores quintuplicaram, de US$ 116,6 milhões para US$ 585,3 milhões na mesma comparação, um aumento de 402%.

Por trás dos números, o crescimento é amparado em histórias de empreendedorismo, apoio de instituições públicas, uma ampla variedade de produtos e modelos de negócio originais. Todas elas mostram que o mercado internacional também é lugar para os pequenos.

PANCs da Amazônia

Direto de Santo Antônio do Tauá (PA), por exemplo, a Horta da Terra revela parte da biodiversidade amazônica ao mundo por meio de plantas alimentícias não convencionais (PANCs). No menu, entram espécies como jambu, ora-pro-nóbis amazônica, taioba, cariru, vinagreira (hibisco amazônico), chicória amazônica, folha de graviola, açaí e marapuama.

"Todas elas são cultivadas em sistema agroflorestal sintrópico, que busca reproduzir a lógica da floresta com regeneração ambiental", diz Bruno Kato, proprietário da empresa.

A fazenda tem 37 hectares e funciona como um laboratório vivo para testar e replicar esse modelo produtivo, com apoio de uma unidade fabril em Belém e estrutura móvel.

Na indústria, a produção é transformada em pós por meio da liofilização, técnica de secagem a frio que preserva nutrientes. A capacidade de processamento chega a 10 toneladas mensais de matéria-prima fresca com armazenamento de até 17 toneladas.

Engenheiro elétrico de formação, Kato migrou para a agenda da sustentabilidade após participar de um workshop na Universidade Federal do Pará, em 2001. O projeto começou em 2009, foi formalizado como empresa em 2016 e ganhou tração internacional entre 2020 e 2021.

"Hoje, a empresa tem clientes e parceiros nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Oriente Médio, com destaque para a Suíça", afirma.

Segundo ele, a demanda sempre existiu, mas esbarrava na capacidade produtiva. O gargalo começou a ser resolvido com uma expansão industrial de R$ 14 milhões. "Temos contratos já assinados de R$ 23 milhões para os próximos três anos, incluindo China e Coreia do Sul", diz.

Própolis do Brasil

Conhecida por seus benefícios à saúde, a própolis é uma resina produzida pelas abelhas através da extração de seivas de vegetais. A demanda pelo produto vem crescendo, especialmente por quem procura ingredientes naturais voltados à imunidade e bem-estar diferencial. Neste mercado, a Apistech Produtos da Natureza, sediada em Nova Lima (MG), apresenta uma vantagem onde provavelmente nenhum estrangeiro pode competir.

A própolis verde brasileira, originada do alecrim-do-campo, especialmente em Minas Gerais, é considerada a mais estudada e uma das melhores do mundo. Rica em compostos, ela reúne propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e até potenciais aplicações antitumorais.

"É esse diferencial biológico, difícil de replicar fora do Brasil, que sustenta a estratégia do negócio, que foi criado para exportar", explica Vitor Hugo Mauch, proprietário da Apistech.

Mas não só a própolis verde está no portfólio. A empresa também trabalha com a própolis vermelha, típica do Nordeste e associada ao manguezal, com origem botânica no chamado "rabo de bugio". Nesse caso, o destaque são as isoflavonas, compostos ligados à saúde feminina, especialmente no alívio de sintomas da menopausa.

Com apenas dois anos e meio de operação, a empresa já nasceu exportadora, apoiada no background de Mauch em comércio exterior. "Hoje, já atendemos mercados como Estados Unidos, Canadá, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Vietnã, Emirados Árabes, Polônia e Holanda", enumera. A empresa exporta cerca de três toneladas por ano, com alto valor agregado, gerando aproximadamente US$ 500 mil anuais (cerca de R$ 2,5 milhões).

Segundo Vitor, a empresa mantém parcerias com apicultores previamente conhecidos e habilitados, garantindo rastreabilidade e qualidade. "Já tivemos apiários, mas agora focamos no beneficiamento e pesquisa para novos produtos", conta.

O empresário agora mira o mercado europeu, que pode abrir novas oportunidades com o início da validade do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia. "Enquanto isso, o foco segue firme na Ásia e no Oriente Médio, mercados que valorizam produtos naturais com comprovação científica", finaliza.

Castanha extrativista

Em Jaru (RO), a Castanhas Ouro Verde estruturou um modelo de beneficiamento baseado na castanha-do-brasil de origem extrativista e apoio às comunidades tradicionais. A empresa antecipa recursos e mantém uma relação próxima com mais de 400 extrativistas, entre indígenas e agricultores, de Rondônia, Acre, Amazonas e Mato Grosso.

"É gente simples, muitos vieram da borracha e coleta de castanha em casca como forma de subsistência", resume Lucas Manuel Alves Santana, que atua na área de comércio exterior da empresa.

O salto veio com a exportação. Em 2022, o primeiro embarque ocorreu após contato com compradores na África do Sul. No primeiro ano, foram 40 toneladas. Já em 2025, o volume alcançou 360 toneladas.

Hoje, a empresa atende mais de 25 países, incluindo Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Argélia e Emirados Árabes, com um faturamento estimado na casa de R$ 60 milhões.

A base do crescimento está na combinação de certificações e a história de sustentabilidade social e ambiental. A Castanhas Ouro Verde reúne selos como FSC, Produto Orgânico, FDA e habilitações para China e União Europeia.

Em alguns casos, como em parcerias com comunidades indígenas, há pagamento adicional de cerca de 20% sobre o valor de mercado por lógica de prestação de serviços ambientais (PSA).

"Não é só comercializar. É manter o tecido social e ambiental da floresta. Para compradores internacionais, o produto interessa também pela sua história", afirma Lucas.

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