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Pequeno desmatamento avança

OESP, Vida, p. A15
21 de fev de 2006

Pequeno desmatamento avança
Para especialista, governo detém grandes frentes, mas focos menores tomam seu lugar

Hércules versus a Hidra de Lerna, uma das batalhas mais famosas da mitologia grega, está sendo reencenada na Amazônia. Enquanto Ministério do Meio Ambiente, Exército e Polícia Federal tentam fazer o papel do herói, madeireiros, grileiros e outros agentes do desmatamento se revezam no papel das várias cabeças da serpente. Cada vez que uma é cortada, outras duas nascem.
Esse foi o cenário da devastação na maior floresta do planeta em 2005, segundo o diretor da organização ambientalista Amigos da Terra, Roberto Smeraldi. Em entrevista ao Estado, ele fez uma análise do relatório final do desmatamento produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), incluindo dados inéditos sobre municípios.
"Não me lembro de um ano com tanta disparidade de tendências", disse Smeraldi, um dos atores mais experientes do terceiro setor na Amazônia. Segundo ele, ao mesmo tempo em que o governo conseguiu derrotar o avanço das principais frentes de desmatamento, vários focos menores estão surgindo para tomar o seu lugar. Enquanto o desmatamento caiu 31% no geral, os pequenos desmatamentos aumentaram.
"Para cada grande cabeça que você corta, duas pequenas começam a nascer", compara Smeraldi. Segundo ele, mais de 80% da redução da taxa ocorreu em apenas três sub-regiões, onde houve intensificação das ações de fiscalização e controle: eixo central de Mato Grosso, eixo da BR-163 e a porção norte da Rodovia Transamazônica, no Pará.
Já a análise por municípios mostra uma Amazônia dividida: 249 municípios com queda no desmatamento e 242, com aumento da depredação florestal. "São alertas; alguns deles amarelos, outros já vermelhos."
Novas Frentes
A tendência de aumento mais preocupante, segundo ele, está ao longo da BR-158, que corta o leste de Mato Grosso até o Pará e serve como rota de escoamento agrícola até o Porto de Itaqui, no Maranhão. Em um trecho que abrange 15 municípios, todos tiveram aumentos expressivos de desmatamento em relação a 2004, "que já foi um ano recorde", aponta Smeraldi. Só em Santana do Araguaia, 435 quilômetros quadrados foram desmatados em 2005 (aumento de 53%).
Apesar disso, no ano passado, o Ibama reduziu de 50 km para 15 km a faixa de influência da rodovia sujeita a Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) para pavimentação. "Ninguém dava atenção para a BR-158, só para a BR-163", diz. "Agora ela é um dos focos mais explosivos de desmatamento na Amazônia."
Outros focos estão na Terra do Meio (Pará), Rondônia e noroeste de Mato Grosso - cada um com características próprias. Segundo Smeraldi, a tendência é de migração do desmatamento para regiões onde a fiscalização é mais fraca. "O ladrão não vai parar de roubar. Ele vai roubar o carro que for mais fácil, em vez daquele que tem alarme."
Ações Integradas
Mas, se o desmatamento é um bicho de infinitas cabeças, qual é a expectativa de derrotá-lo? Hércules só conseguiu matar a Hidra com a ajuda do irmão: enquanto um cortava as cabeças, o outro queimava as feridas com uma tocha.
"Tento avaliar a situação com o pessimismo da razão versus o otimismo da vontade", diz Smeraldi. "O fato de o desmatamento se comportar como a Hidra não significa que nunca vamos derrotá-lo. Significa que a escala da resposta não é adequada ao tamanho do fenômeno." Segundo ele, os investimentos do governo na Amazônia são "irrisórios".
"Se o Brasil quer ter florestas ao fim do século 21, tem de assumir que essa é uma tarefa nacional", diz. "Ações tópicas podem ter efeito momentâneo, mas não alteram a tendência. Temos de usar mecanismos integrados de desenvolvimento e controle ao mesmo tempo e em toda a região."

OESP, 21/02/2006, Vida, p. A15

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