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Pequenas riquezas do cerrado

CB, Cidades, p. 40
29 de Ago de 2007

Pequenas riquezas do cerrado
Coleção inédita de insetos do Planalto Central leva a pesquisas que apontam até condições de preservação das áreas

Elisa Tecles
Da equipe do Correio

Besouros, mariposas e borboletas dos mais variados tamanhos e cores. Única no Brasil com insetos nativos do cerrado, uma coleção que pode causar arrepios em quem não está familiarizado com os pequenos animais é motivo de orgulho na Embrapa Cerrados, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A preciosidade está guardada em Planaltina e é usada em pesquisas e estudos relativos ao bioma que carateriza o Distrito Federal. São mais de 53 mil exemplares de 11 mil espécies diferentes. Eles ocupam as gavetas de uma sala climatizada que guarda verdadeiras raridades.

Os bichos começaram a ser coletados e organizados em 1975, numa iniciativa de pesquisadores da instituição que buscavam fazer um balanço da fauna local, descobrir o papel de cada um dos animais na natureza e saber onde poderiam ser encontrados. Em expedições que acontecem até hoje, eles coletam os insetos e os armazenam para consultas em futuros trabalhos. Durante mais de 30 anos, os cientistas encontraram espécies únicas do cerrado e conseguiram elaborar um panorama detalhado dos animais presentes em 60 pontos diferentes do bioma.

De acordo com o coordenador da coleção e especialista em lepidópteros (mariposas e borboletas), Amabílio Camargo, a quantidade de insetos coletados é grande, mas a previsão é de haver ainda mais. "A estimativa é de que existam cerca de 90 mil espécies de insetos, sendo que 8 a 10 mil só de mariposas", afirmou o pesquisador. A conquista de novos exemplares depende de viagens em que os especialistas vão a campo com equipamento para captura. Eles usam armadilhas feitas com panos e luz para atrair os animais, que pegam usando tubos ou as próprias mãos.

"Ficamos acampados no mato durante 15 a 20 dias e voltamos com 3 ou 4 mil insetos. Pegamos mais, mas selecionamos só os mais raros ou os que estamos procurando para trazer. Temos que passar a noite toda em claro esperando eles aparecerem", observou Camargo. Ele lembra que a captura só é possível com autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pois é proibido por lei coletar os insetos.

Dependendo do que aparece na armadilha, Amabílio consegue ter uma idéia da situação do local. Como algumas espécies apenas desovam em água limpa e outras só sobrevivem em áreas bem conservadas, ele pode ter uma idéia do nível de preservação dos rios e árvores próximos. "O objetivo da coleção é ter uma amostra, fazer uma caracterização da fauna dos inseto, da biodiversidade do cerrado. Também é possível identificar impacto ambiental ou problemas de degradação", afirmou.

Quanto mais espécies são localizadas em um determinado local, melhor é seu estado de conservação. O desmatamento, a falta de alimento e de abrigo são prejudiciais e podem comprometer a sobrevivência de algumas espécies. Como os insetos não têm proteção e se ressecam facilmente, precisam fugir de lugares sem cobertura suficiente de árvores. "Algumas já se acostumaram com o ambiente, mas outras podem correr o risco de entrar em extinção", lembrou Amabílio.

Bicho misterioso
Sempre nos ares, ela passava despercebida por quem andava pelos campos do cerrado. Um misterioso inseto do bioma, nunca antes visto por cientistas, foi encontrado por pesquisadores da Embrapa e anunciado em março deste ano. É a mais recente descoberta na área. O nome e a aparência não são muito agradáveis: a Hylesia pseudomoronensis é uma mariposa marrom, com escamas e pêlos no corpo.

O inseto, da ordem dos lepidópteros, foi visto apenas duas vezes: a primeira em 1994, em Iraí de Minas (MG), e a segunda, na cidade de Catalão (GO), sete anos depois. Com um exemplar fêmea e outro macho em mãos, o pesquisador Amabílio tentou identificar que bicho era aquele. Ele sabia que havia um tipo de mariposa parecido na Costa Rica, mas os insetos não poderiam migrar até o cerrado. Depois de analisar a estrutura do animal e consultar livros do mundo todo, ele concluiu que estava lidando com um animal nunca antes estudado.

A descoberta de uma nova espécie é um dos objetivos da coleção da Embrapa, mas exige anos de análises da novidade encontrada. Quando o pesquisador não reconhece o inseto, começa uma busca em livros e artigos publicados em todo o mundo até que se encontre algo parecido com o animal. O passo seguinte é analisar os órgãos e comparar com o de outras espécies já conhecidas para confirmar que aquela nunca foi vista em nenhuma parte do mundo.

A pesquisa deu origem a um artigo publicado em revistas especializadas em março deste ano, que anunciou a descoberta do desconhecido animal brasileiro. "Só é considerada nova espécie quando o estudo sai em uma publicação científica comprovando que ela nunca foi registrada. Tem que ter paciência e muita pesquisa para identificar isso", afirma Amabílio.

CB, 29/08/2007, Cidades, p. 40

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